Formação: Ideologia da Fé

| 25 de outubro de 2012 | 0 Comentários

Um dos grandes perigos para a fé é a ideologia. A fé cristã surge da experiência de Deus, ou seja, de um contato pessoal com Deus. Desse contato nos abrimos para acolher as verdades da fé, que a Igreja Católica ensina daquilo que Jesus revelou aos seus discípulos e a sucessão apostólica guarda na história.

Essa experiência e esse conteúdo doutrinário deve ser traduzido na vida, ou seja, gerar uma conversão de valores e costumes.

O problema é quando esse conteúdo de fé se desconecta da experiência, ou não surge da experiência. A fé, então, vai se tornando um conjunto de idéia católico/cristão que facilmente cai nas redes da ideologia e/ou do fundamentalismo.

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A ideologia é um conjunto de idéias que deve ser implantado na sociedade. A ideologia costuma ter um viés revolucionário, ou seja, projeta um ideal de mundo (utopia) que deve ser implantado a força na sociedade.

Esse foi um erro da chamada Teologia da Libertação, que absorveu idéias marxistas e, muitas vezes, se transformou numa ideologia católica de cunho marxista. Mas não é preciso tanto, todos nós podemos, sem perceber, transformar nossa fé numa ideologia. Percebo as seguintes características nessas ideologias cristãs:

- Perda da capacidade de diálogo com o diferente: na ideologia, os ideais de mundo são sempre intocáveis, o que dificulta o respeito com outros ideais.

- Sem a experiência, a fé se torna um propósito maravilhoso, mas desconectado da realidade. Com isso surgem duas consequências: incoerência entre o que se vive (microcosmo da fé) e o discurso para as estruturas (macrocosmo da fé); e a utopia da fé, ou seja, a proposta da fé se impõe ao mundo num ideal irrealizável.

- Viés revolucionário, ou seja, propõem-se modos violentos de implantação do ideal de mundo, de reagir às forças contrárias a esses ideais. É comum, então, usar de termos fortes, xingamentos para se referir aos que agem e pensam diferente.

- Se é uma ideologia tradicionalista de direita, a tendência é criar uma nostalgia do passado, em que é necessário implantar hoje o “Reino de Deus” que um dia existiu. Se é de esquerda, a tendência é um progressismo relativista, que propõe o “Reino de Deus” que deve ser imposto pela justiça que virá.

Nisso tudo, é preciso entender que a fé, enquanto aquilo que Cristo deixou à Igreja, pela Revelação (verdades de fé) é inegociável. Mas a implicação dessa fé na vida das pessoas e da sociedade, ou seja, a maneira de viver a fé (espiritualidade), maneira de pensar a fé (teologia), o significado da fé na organização da sociedade (ciências sociais e políticas), pressupõe diferenças de visão. É claro que existe uma tensão, o perigo de, em nome da tolerância, relativizar o que é intocável e absoluto. Na prática da vida, isso nem sempre é simples. Mas, em todas as situações, a experiência de Cristo nos leva sempre à caridade e, se ela é verdadeira, nos conduz sempre a uma fé assumida com firmeza e liberdade, que nos capacita a respeitar e acolher o diferente.

André Luis Botelho de Andrade
Fundador e Moderador da Comunidade Pantokrator

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Category: Artigos Pantokrator

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