Faça sua Inscrição

Minha vida missionária na França

Gostaria de partilhar um pouco da minha vida missionária, hoje como consagrada da Comunidade Católica Pantokrator, vivendo como Forma de Aliança[1] na França, lugar que jamais imaginei na minha vida um dia estar. Lugar que me leva a viver grandes desafios de sobrevivência.

É incrível o que Deus nos permite viver e onde Ele nos leva quando damos um simples passo de fé e dizemos: sim!

Quando o nosso fundador, André Luis Botelho de Andrade, num momento da oração comunitária, fez um convite aos membros da Aliança para se lançarem numa possível ida para França como missionários durante dois anos, senti como se o meu coração fosse pular pra fora da minha boca. Essa foi a sensação que tive: meu coração pulsava forte e tive certeza absoluta do que Deus queria para mim. Acho que foi a primeira vez em que senti algo tão físico com um chamado de Deus.

Diante de todas as dificuldades que vivia na época, tudo parecia muito louco e muito difícil de se realizar. Mas, como tenho aprendido através desses anos, tudo o que é desejo do coração de Deus, Ele, se precisar, remove montanhas para que a coisa aconteça. E foi assim também comigo.

Aqui estou: na França, casada com um francês e vivendo como consagrada da Forma de Aliança, seguindo os passos da nossa pequena e querida Santa Teresinha, e posso dizer com certeza, que, sem esses passos e essa busca da pequenez, nada disso seria possível.

Em primeiro lugar, porque sou a única pessoa dessa Forma de vida aqui. Além dos meus irmãos da Forma de Vida Comum[2], não tenho outras pessoas que “falam a mesma língua” espiritual a quem possa recorrer, sentar pra conversar, bater um papo de fim de tarde, ou até mesmo partilhar, coisa que, no meu modo de ver, é fundamental para nossa Vocação. Na partilha crescemos com as alegrias e as dores dos nossos irmãos. Isso me leva então a viver uma pequena solidão neste país longínquo…

Ainda bem que Deus me deu a graça de poder ter um marido maravilhoso que me acompanha na Vocação e me apoia muito em tudo o que preciso viver, mesmo não sendo um membro da Comunidade Pantokrator. O que vivo hoje no meu matrimônio, mesmo com as dificuldades naturais de todo casal, me faz contemplar a fidelidade de Deus e ver Seus milagres. “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus”! (Romanos 8,28).

vida missionária

Estou aqui há 8 anos, e não ter outros irmãos da Aliança por perto, com certeza, faz muita diferença. Durante muitos anos sofri bastante com isso. Não que eu não pudesse ter amigos fora da Comunidade, mas tenho sede de estar com pessoas com as quais eu posso ser eu mesma o tempo todo, sem precisar de esforços para ser aceita, nem medir palavras quando simplesmente tenho um coração pleno do amor de Deus.

A rotina da  evangelização na França

Aqui na França, não podemos falar de Deus em todos os lugares com a mesma liberdade com que o fazemos no Brasil. Para passar numa entrevista de emprego, tive que colocar meu Símbolo da Vocação por baixo da minha roupa, porque é um sinal religioso visível e no trabalho normalmente é proibido (graças a Deus, depois que consegui o emprego, o meu chefe me liberou para usar meu Símbolo, dizendo que a cruz era “até bonitinha”…). Não posso simplesmente louvar a Deus em alta voz, por algo que aconteceu no meu trabalho, porque isso pode me causar problemas. Não posso simplesmente dizer: “Deus abençoe” a alguém que percebo que está precisando de ajuda.

Os valores e os limites são outros e evangelizar aqui não significa tocar multidões, e sim tentar, no dia a dia, com gestos, posturas, fidelidade e integridade, tocar os corações endurecidos de uma França que vive longe da fé! É o testemunho que conta!

Como conseguir amar este povo tão distante de Deus, eu, com este vazio dentro de mim?

O que a vida missionária tem me ensinado

 Na minha oração, eu clamava a Deus que tivesse misericórdia de mim e desse sentimento de solidão que me causava pavor, especialmente por ter vindo de uma familia mineira, falante, que ri bastante. Sempre gostei muito de sair, conviver e gargalhar; aqueles que me conhecem sabem do que estou falando.

Pedia a Deus que eu não tivesse pena de mim mesma, mas que eu conseguisse vencer estes obstáculos tão dolorosos para mim, contando com Sua graça. E aos poucos Deus foi tocando o meu coração, na vivência das coisas difíceis, pela diferença cultural que é tremenda; no individualismo que os franceses que conheci vivem; na superficialidade das coisas ordinárias na vida das pessoas e na falta de fé! Como me dói ver a falta de fé! Acho que esse sofrimento é uma marca do nosso Carisma.

Santa Terezinha e seu cuidado comigo

Aos poucos, através de uma busca intensa na oração, com a intercessão de Santa Teresinha, pude perceber que minha solidão comunitária era um espaço amplo, onde Deus penetrava, me purificava e me amava com tanta intensidade, e me fazia ser um pequeno diamante sendo lapidado, transformado; e percebi que Deus queria que eu brilhasse. Que brilhasse em mim o Amor incondicional d’Ele!

Hoje me sinto num caminho de vitória; caio e levanto sempre, mas recolho as dores, os momentos de solidão e o desconforto pela diferença cultural e tento transformar isso tudo numa vontade de amar, de amar e de amar. Eu quero amar! Eu tomei a decisão de amar; e isso veio pela oração!

Como foi difícil aprender a amar aqui. Como é dificil amar sem ter quase nenhum retorno. É bem mais fácil estar no nosso cantinho familiar e com os amigos de fé, sendo amada e respeitada. É muito mais fácil amar quando nós temos todas as ferramentas que nos alimentam e nos sustentam.

Senti Deus que me dizia: “Sou Eu sua fonte de amor. Beba da fonte”!

Então, comecei a beber e sinto que Deus me preenche a cada dia, e que o meu coração está se enchendo cada vez mais deste Amor que devia reger o mundo. Cada gesto feito com amor, cada palavra dada no amor e cada olhar de compaixão está me transformando hoje numa verdadeira arma do amor! Rebaixar-me e acolher o diferente, o que incomoda, aquele de que não gosto, o que me desinstala, tudo isso me faz verdadeiramente viver a pequenez que nossa Santa Teresinha nos ensina.

E acho que finalmente estou aprendendo a jogar fora os pequenos sentimentos de autopiedade e a renunciar com toda a força do meu coração ao que o inimigo tentou instalar, essa mentira de que preciso muito das coisas terrenas para poder viver minha vocação. Não que elas não sejam importantes, mas não dependo delas!

A minha vocação, minha vida missionária, vem de Deus e é a minha resposta a esse mesmo Deus de amor!

Combato hoje na autoridade do nome de Jesus Cristo todo orgulho e obstáculo instalado em mim e me levanto na autoridade do mesmo nome, e me proclamo liberta dos apegos!

Sou vitoriosa em Cristo Jesus! Sou Pantokrator e vivo em profunda comunhão com vocês meus irmãos que estão no Brasil! Você também é vitorioso! Beba da fonte!

Que Santa Teresinha interceda sempre por nós, para que consigamos viver todo nosso caminho vocacional neste escondimento e total dependência de nosso Deus! E que o Espírito Santo, Amigo da nossa alma nos santifique cada vez mais!

Vamos beber da fonte!

Leila ENGELS

[1] A Forma de Aliança compreende as pessoas que vivem a vocação estando inseridas no mundo, em suas famílias, trabalho secular e vivência social. Vivem o seu chamado sendo sinal de Cristo fiel no mundo, vivendo em todas as suas atividades os valores do Reino de Deus. Dedicam parte de seu tempo aos compromissos comunitários e ao serviço a Deus através da Obra da Comunidade.

[2] A Forma de Vida Comum compreende os irmãos que vivem a vocação através de uma intensa vida comunitária e fraterna em Comunidade, deixando suas famílias e profissões para viverem integralmente voltados ao serviço do Senhor, através da Obra da Comunidade. Ambas as Formas (Aliança e Vida Comum) vivem a mesma vocação, mas de maneira diferente.

 

GOSTOU? COMPARTILHE EM SUAS REDES SOCIAIS!

Tags: , , , ,

Category: Artigos Pantokrator

Comentários (2)

Trackback URL | Comentários RSS Feed

  1. Fernanda disse:

    Lindo testemunho!

  2. Aline disse:

    Que lindo testemunho Leila! Vamos juntos beber da fonte que é Deus!
    Deus abençoe

Deixe um comentário

Campanha do metro quadrado