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Páscoa de Deus, Páscoa do Homem!

O termo “Páscoa” tem origem religiosa e vem do latim Pascae. Na Grécia Antiga, o termo também é encontrado como Paska. Sua origem mais remota está entre os hebreus, Pessach, (do hebraico, passagem), que se refere à festa que celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito, por volta de 1.250 a.C, onde foram aprisionados pelos faraós durantes vários anos, conforme se lê no livro do Êxodo. Assim, todo ano, na noite de lua cheia de primavera, os hebreus celebravam a Páscoa, com o sacrifício de um cordeiro e o uso do matzá, isto é, os pães ázimos (pão sem fermento) para lembrar a rápida fuga do Egito, ocasião em que não houve tempo para fermentar o pão.

pascoa

Era uma vigília para lembrar a saída do Egito, forma pela qual tal fato era passado de geração em geração (cf. Ex 12.42; 13.2-8). Posteriormente, foi agregada a essa concepção a passagem dos hebreus pelo Mar Vermelho que confirmou sua libertação. Essa celebração ganhou também dimensão futura com o passar do tempo. E quando novamente dominados por estrangeiros, celebravam a Páscoa lembrando o passado, mas pensando no futuro, com esperança de uma nova libertação, última e definitiva, quando toda escravidão seria vencida, e haveria o começo de um mundo novo há muito tempo prometido.

A festa da Páscoa evoca, em primeiro lugar, a “passagem de Deus”; o nome mesmo de Páscoa deriva de um verbo que indica a ação de Deus que “passa sobre”, no sentido de que “salta”, ou “resguarda”, ou “protege” as casas dos hebreus, enquanto golpeia a dos seus inimigos (cf. Ex 12, 26-27). O conteúdo que o evento da Páscoa comemora é, pois, a passagem salvífica de Deus: Páscoa, porque Deus passou! Essa é uma definição da Páscoa que pode ser definida como teológica ou teocêntrica, pois nela o protagonista é Deus; o acento está todo na iniciativa divina, isto é, na causa, mais do que no efeito, a salvação.

No livro do Deuteronômio e em outras partes mais recentes do próprio Êxodo, a atenção se desloca do momento da imolação do cordeiro para o da saída do Egito, que é vista como a passagem da escravidão para a liberdade (cf. Dt 16; Ex 13 – 15). Com a mudança do evento central, muda também o protagonista ou o sujeito da Páscoa: não é mais Deus que passa e salva, mas o homem ou o povo que passa e é salvo. Essa é uma interpretação da Páscoa que se pode definir como antropológica ou antropocêntrica.

Trata-se de duas interpretações complementares, não exclusivas. De fato, o homem, também nessa segunda perspectiva, é visto na dependência de Deus: o Êxodo é para a aliança do Sinai! Trata-se de uma libertação religiosa, não política, ao menos de modo principal: o povo torna-se livre para servir a Deus, como tantas vezes repetem as fontes bíblicas: “Deixa ir livre o meu povo para que me sirva” (Ex 4, 23; 5, 1).

Os Padres da Igreja, usando da tipologia, viram nesse extraordinário evento a prefiguração da obra salvífica operada por Cristo: o cordeiro sem mancha cujo sangue presente nos umbrais das portas salva a vida do povo hebreu é a prefiguração de Cristo, o Cordeiro de Deus sacrificado uma vez por todas (cf. Jo 1.29; 1Cor 5.7; Ef 5.2; Hb 5.9), em prol da salvação de toda a humanidade, não mais apenas de um povo. Cristo, oferecendo Seu Corpo e Sangue, assume o duplo sentido da páscoa judaica: sentido de libertação e de aliança. E ao celebrar a Páscoa (cf. Mt 26,1-2.17-20), Ele institui a NOVA PÁSCOA, a Páscoa da libertação total do mal, do pecado e da morte numa aliança de amor de Deus com a humanidade.

A primitiva comunidade cristã, depois da Morte e Ressurreição de Jesus, embora continuando por certo tempo a “subir ao templo” e a celebrar a Páscoa com outros judeus, começou em certo momento as pensar e a viver esta festa anual, não mais como recordação dos fatos do Êxodo e como espera da vinda do Messias, mas principalmente como recordação daquilo que alguns anos antes tinha acontecido em Jerusalém durante uma Páscoa, e como espera da volta de Cristo. Cristo fora morto (e ressuscitou) em Jerusalém, por ocasião de uma Páscoa hebraica; para o evangelista São João, aliás, foi até na mesma hora da imolação dos cordeiros pascais no templo. Para se dar a transposição da instituição pascal do Antigo para o Novo Testamento, entra o elemento tipológico, que acima mencionamos: o evento da imolação do Cristo foi visto como a realização de todas as figuras e de todas as esperanças contidas na antiga Páscoa. À luz desse evento, os autores do Novo Testamento reinterpretarão todos os fatos da vida de Jesus, vendo neles a definitiva realização da Páscoa antiga. A Igreja herdou, pois, de Israel, a sua festa da Páscoa: esta, porém, na passagem de Israel para a Igreja, mudou de conteúdo; tornou-se memorial de outro fato: a Paixão e Ressurreição de Cristo.

A síntese agostiniana: Páscoa de Deus e páscoa de homem

Aquelas duas interpretações da Páscoa presentes no Antigo Testamento se fazem notar também na Páscoa cristã: uma mais teológica (agora, mais exatamente cristológica) e uma antropológica, baseada na idéia de passagem. As duas visões apontam os dois protagonistas e os dois pólos da salvação: a iniciativa de Deus e a resposta do homem, com a passagem dos vícios para a virtude: graça e liberdade. Mas, por que chamar a Paixão de Cristo “Páscoa”, se páscoa significa passagem? Santo Agostinho reponde, lendo São João: “o santo evangelista, explicando, por assim dizer, a nós este nome da Páscoa, disse: ‘No dia da Páscoa, Jesus, sabendo que havia chegado a hora de passar deste mundo ao Pai…’ Eis a passagem! Do quê para quê? Deste mundo para o Pai” (1). “Através da paixão”, escreve Agostinho, “o Senhor passou da morte para a vida” (2). A Páscoa cristã é, pois, um transitus per passionem: uma passagem pela paixão.

Mas a síntese mais importante é outra: aquela entre Páscoa de Deus e Páscoa do homem. Aqui a teologia pascal atinge a profundidade da pessoa mesma de Cristo e se une com o mistério da Encarnação. Em Jesus os dois protagonistas da Páscoa, Deus e o homem, tornam-se um só, porque em Cristo, humanidade e divindade são uma mesma pessoa! Autor e destinatário da salvação encontraram-se; graça e liberdade abraçaram-se. Nasceu a “nova e eterna Aliança”; eterna, porque agora ninguém poderá mais separar os dois contraentes, tornados em Cristo uma só pessoa. Mas, então é apenas Jesus que faz a Páscoa? É apenas Ele que passa deste mundo ao Pai? E nós? Eis outra estupenda síntese agostiniana, entre a Páscoa da Cabeça e a Páscoa do corpo: “Na Cabeça uma esperança foi dada aos membros, de seguir com certeza a Ele que passou” (3). Não apenas uma esperança, mas uma realidade, mesmo se no momento é uma realidade que apenas se realiza na fé e nos sacramentos. “A partir do momento em que Ele morreu pelos nossos pecados e ressuscitou pela nossa justificação, na Paixão e Ressurreição do Senhor é consagrada a nossa passagem da morte para a vida” (4). A de Jesus não é uma passagem solitária, mas coletiva, de toda a humanidade ao Pai!

Todos, portanto, já passamos com Cristo para o Pai e “a nossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3, 3); todavia, todos devemos ainda passar. Passamos “em esperança” e “em sacramento”, na esperança e pelo Batismo, mas devemos passar na realidade da vida cotidiana, imitando a Sua vida e Seu amor.

O mistério pascal na vida do homem

A Páscoa de Cristo se prolonga e se atualiza na Igreja em dois planos diversos: no plano litúrgico-sacramental e no plano pessoal e existencial, este último se referindo ao Mistério Pascal na vida do fiel. Trata-se, neste segundo plano, da Páscoa de caráter pessoal e interior. A espiritualidade pascal não se limita à purificação e fuga do pecado, mas projeta luz também sobre o que vem depois, no caminho para a santidade.

A tradição bíblica e patrística interpretou de vários modos a idéia pascal de “passagem”. A Páscoa é um passar por “cima” quando indica Deus que passa e poupa ou protege; é um passar “através” quando indica o povo que passa do Egito à terra prometida, da escravidão à liberdade; é um passar “para o alto” quando o homem passa das coisas daqui debaixo para as do alto; é um passar “para fora” quando o homem sai do pecado ou da escravidão; é um passar “para frente” quando o homem progride na santidade e no bem; enfim, é um passar “para trás” quando o homem passa da velhice para a juventude do espírito, quando “volta” às origens e reencontra o paraíso perdido.

Hoje se pode acrescentar uma nova modalidade de passagem: o “passar para dentro”, ou interiorização. O passar do exterior para o interior, para dentro de nós; do Egito da dispersão e da dissipação para a terra prometida do coração. Essa passagem para dentro é pressuposto para a vida de comunhão a que todo cristão é chamado; de fato, um verdadeiro encontro de pessoas não pode acontecer senão entre duas consciências, duas liberdades, duas interioridades. Vivemos numa civilização toda projetada para o exterior. O homem envia suas sondas até a periferia do sistema solar e ignora muitas vezes aquilo que está em seu coração. Evadir, sair é hoje uma espécie de palavra de ordem. O silêncio dá medo. Não se consegue viver, estudar, trabalhar sem ruído de vozes ou de música ao redor. Basta ver os milhares de MP3, 4, 5 etc com que nos deparamos todos os dias! Dissipação é o nome da doença que nos ameaça. Mas é a interioridade o caminho para uma vida autêntica.

No Livro do Deuteronômio encontramos esta prescrição com respeito à Páscoa: “Guardai-vos de celebrar a Páscoa em qualquer lugar, mas imolarás a Páscoa somente no lugar que o Senhor escolheu para fixar seu nome” (Dt 16, 5). Qual é este lugar escolhido pelo Senhor? Houve um tempo em que era o Templo de Salomão, o templo histórico; agora, é o templo espiritual ou pessoal que é o coração do crente. “Sejamos nós o templo do Deus vivo!” (2Cor 6, 16). É aí, pois, que se celebra em definitivo a verdadeira Páscoa sem a qual todas as outras ficam incompletas e são ineficazes.
“Passar” de fato é preciso. E se não passamos para Deus que permanece, passaremos com o mundo, que passa. Páscoa é passar para aquilo que não passa! Que Deus, pelos méritos de Jesus Cristo, nossa Cabeça, nos conceda completar de verdade esta “santa passagem”, no final da qual veremos o Seu vulto e nos saciaremos de Sua presença para sempre! Amém. Aleluia.

Kátia Maria Bouez Azzi
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

Fonte: R. CANTALAMESSA, “O Mistério da Páscoa”, 19986, Aparecida, Santuário.

(1) In Ioh, 55, 1; CCL 36, p. 464.
(2) CCL 40, p. 1791.
(3) In Ioh, 55, 1.
(4) Ep. 55, 1, 2; CSEL 34, 2, p. 170.

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Category: Artigos Pantokrator

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