Quarta-Feira de Cinzas e Quaresma

| 13 de fevereiro de 2013 | 0 Comentários

“Convertei-vos a mim de todo o vosso coração com jejuns, com lágrimas, com gemidos” (Jl 2,12). Os sofrimentos, as calamidades que afligiam naquele tempo a terra de Judá estimulam o autor sagrado a encorajar o povo eleito à conversão, isto é, a voltar com confiança filial ao Senhor, dilacerando o seu coração e não as vestes. De fato, recorda o profeta, ele “é clemente e compassivo, paciente e rico em misericórdia e se compadece da desgraça” (Jl 2, 13). O convite que o profeta Joel dirige aos seus ouvintes também é válido para nós hoje.

A Quarta-Feira de Cinzas nos coloca dentro do mistério da Quaresma, sendo a sua abertura no calendário cristão ocidental. As cinzas que recebemos neste dia são um símbolo para a reflexão sobre o dever da conversão, da mudança de vida – metanóia (gr.) – recordando a passageira, transitória e efêmera fragilidade da vida humana, sujeita à morte. A Quaresma ocorre quarenta dias antes da Páscoa sem contar os domingos (que não são incluídos na Quaresma). No Catolicismo Romano, a Quarta-Feira é um dia de jejum e abstinência de carne. Como é o primeiro dia da Quaresma, ele ocorre um dia depois da “terça-feira gorda” ou mardi gras, o último dia da temporada de Carnaval.

O uso litúrgico das cinzas tem sua origem no Antigo Testamento (cf. Nm 19). As cinzas simbolizam dor, humilhação, morte e penitência. Podemos encontrar o sentido bíblico das cinzas em algumas passagens: como purificação (cf. Hb 9,13); como sinal de precariedade da condição humana (cf. Gn 18,27; Jó 30,19); como sinal de luto (cf. Sl 102,10; Est 4, 1); como sinal de penitência (cf. Jó, 42, 6; Dn 9,3-19; Jn 3, 4-5; Mt 11,21). O próprio Jesus fez referência ao uso das cinzas. A respeito daqueles povos que se recusavam a se arrepender de seus pecados, apesar de terem visto os milagres e escutado a Boa Nova, Nosso Senhor proferiu: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e em Sidônia tivessem sido realizados os milagres que em vós se realizaram, há muito se teriam arrependido, vestindo-se de cilício e cobrindo-se de cinza” (Mt 11,21).

Precisamente devido à riqueza dos símbolos e dos textos bíblicos, a Quarta-Feira de Cinzas é considerada a “porta” da Quaresma. De fato, a liturgia atual e os gestos que a distinguem formam um conjunto que antecipa de modo sintético a própria fisionomia de todo o período quaresmal. Utilizamos as cinzas produzidas pela queima dos ramos de palmas distribuídos no ano anterior, no Domingo de Ramos. O sacerdote abençoa as cinzas e as impõe na fronte de cada fiel traçando com elas o Sinal da Cruz. Logo em seguida, diz: “Recorda-te que és pó e ao pó retornarás” (Gn 3, 19) ou então: “Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15).

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Aceitando que nos imponham as cinzas, expressamos duas realidades fundamentais:
1) somos criaturas mortais; tomar consciência de nossa fragilidade, do inevitável fim de nossa existência terrestre, nos ajuda a avaliar melhor os rumos a dar à nossa vida;

2) somos chamados a nos converter ao Evangelho de Jesus Cristo e Sua proposta do Reino, mudando nossa maneira de ver, pensar, agir.

É tempo de examinar nossas ações atuais e passadas e lamentando-nos profundamente dos nossos pecados. Só assim poderemos voltar nossos corações genuinamente para Nosso Senhor, que sofreu, morreu e ressuscitou pela nossa salvação. Além do mais esse tempo nos serve para renovar nossas promessas batismais, quando morremos para a vida passada e começamos uma nova vida em Cristo.

A vivência da Quaresma que se inicia com a força simbólica da Quarta-Feira de Cinzas resgata uma meta que deve ser a primeira em nossa vida: a salvação, a vida eterna. Hoje em dia, será que nós, cristãos, estamos de fato preocupados com a nossa salvação ou nos deixamos cegar e envolver pelos valores da transitoriedade dessa vida terrena? Vivemos como quem espera o céu ou como se tudo terminasse aqui mesmo? Se você quer saber em que uma pessoa crê, não olhe para as suas idéias ou suas palavras, mas para sua conduta, pois ela aponta para a meta que a pessoa tem. E a meta diz o que a pessoa é e aquilo em que ela crê. Segundo um antigo provérbio italiano, entre o dizer e o fazer há no meio um oceano. Vivemos como quem almeja a vida eterna?… A celebração da Quarta-Feira de Cinzas nos insere nessa reflexão profunda, que pode mesmo mudar a rota de nossa vida.

Dentro desse espírito está o jejum. Como ouvimos na Liturgia nesse período, “com o jejum elevas o espírito (Prefácio IV)”. O jejum, ao qual a Igreja nos convida neste tempo forte brota da exigência que o homem tem de uma purificação interior que o desintoxique da poluição do pecado e do mal; que o eduque para aquelas renúncias saudáveis que libertam o crente da escravidão do próprio eu, que o tornem mais atento e disponível à escuta de Deus e ao serviço dos irmãos na caridade. Por esta razão o jejum e as outras práticas quaresmais são considerados pela tradição cristã armas espirituais para combater o mal, as paixões negativas e os vícios.

Oficialmente, o jejum e abstinência de carne são obrigatórios aos cristãos batizados entre 18 e 60 anos na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa. A Igreja propõe o jejum e as demais abstinências principalmente como forma de sacrifício, mas também como uma maneira de nos educar, a fim de percebermos cada vez mais a centralidade de Deus em nossa existência. Dentro do espírito de penitência e mortificação que dão a tônica da vivência quaresmal, com vistas a reordenar nosso interior, nossas faculdades e potências a Cristo, está o esforço de cortar de nossos pensamentos, conversas e procedimentos tudo o que Lhe desagrada, bem como a prática do silêncio, a busca por momentos de solidão e, sobretudo, o recolhimento que favoreça em nós o espírito de oração. As penitências devem ser escolhidas livre e conscientemente dentre aquelas vivências – espirituais ou materiais – que de fato promovam em nós algo de concreto em nossa conversão. Talvez precisemos fazer penitência da língua, da fofoca, da maledicência. De toda forma, um bom começo é buscar a purificação dos pensamentos, pois, como nos ensinam os padres do deserto, é a partir do pensamento que começa o pecado; se nós nos policiamos com relação ao que pensamos, teremos uma chance maior de conversão verdadeira. Reze, pedindo ao Espírito Santo que lhe indique a penitência que você precisa nesta Quaresma e Ele não deixará de socorrê-lo. E não se esqueça de contar com o auxílio sempre oportuno de seu Anjo da Guarda nesse combate espiritual.

Com essa disposição de espírito e firme vontade, acolhamos as Cinzas e iniciemos esse tempo favorável da Quaresma. Peçamos à Maria Santíssima que nos acompanhe para que, no final desse tempo, possamos contemplar o Senhor Ressuscitado interiormente renovados e reconciliados com Deus e com os irmãos. Por meio de uma oração mais intensa e profunda e um coração contrito, não hesitemos em buscar reencontrar a amizade de Deus, perdida pelo pecado.

Encontrando o Senhor, experimentaremos a alegria do Seu perdão e de Sua infinita misericórdia e uma nova chance de recomeçar. Somente CRISTO pode transformar qualquer situação de pecado em novidade de graça. Uma nova vida nos espera na Páscoa! Avante!

Kátia Maria Bouez Azzi
Consagrada na Comunidade Pantokrator

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Category: Artigos Pantokrator

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