II Domingo da Quaresma – A transfiguração do Senhor

| 21 de março de 2011 | 0 Comentários

“O Evangelho da Transfiguração do Senhor põe diante dos nossos olhos a glória de Cristo, que antecipa a ressurreição e que anuncia a divinização do homem. A comunidade cristã toma consciência de ser conduzida, como os apóstolos Pedro, Tiago e João, «em particular, a um alto monte» (Mt 17, 1), para acolher de novo em Cristo, como filhos no Filho, o dom da Graça de Deus: «Este é o Meu Filho muito amado: n’Ele pus todo o Meu enlevo. Escutai-O» (v. 5). É o convite a distanciar-se dos boatos da vida quotidiana para se imergir na presença de Deus: Ele quer transmitir-nos, todos os dias, uma Palavra que penetra nas profundezas do nosso espírito, onde discerne o bem e o mal (cf. Hb 4, 12) e reforça a vontade de seguir o Senhor.” (Bento XVI, Mensagem para a Quaresma de 2011).

O Papa nos propõe, para esse domingo, algo bem concreto: distanciar-nos dos boatos da vida quotidiana para imergir-nos na presença de Deus. Logicamente, não podemos pensar que Bento XVI utilize a palavra “boatos” como sinônimo de “fofoca”. É muito mais! Esses “boatos” não se referem necessariamente a pecados, ainda que poderiam sê-lo. E, no entanto, esses boatos tem que ver com as feridas do pecado das quais falávamos na semana passada. Depois do pecado original, ou seja, o pecado que os primeiros representantes do gênero humano cometeram, a natureza humana foi ferida. A ignorância, a malícia, a concupiscência e a debilidade do ânimo são as quatro feridas que nos fazem cair nos “boatos da vida”. Quais? Poderíamos fazer uma lista enorme de ocasiões de pecado, distrações do que realmente vale a pena, tentações, questões ambientais malsãs, vícios, pecados. Mas não é o caso. O importante é que tenhamos bem claro que devemos afastar-nos de tudo aquilo que nos aparta de Deus.

Cada pessoa precisa ir vendo quais são essas coisas que poderiam levá-la a afastar-se de Deus. O cristão foi curado pela graça; a sua inteligência e a sua vontade, também as suas paixões e tudo aquilo que tem que ver com o seu ânimo, foram lavados pela graça de Deus e elevados pelas virtudes da fé, da esperança e da caridade, virtudes estas que nos permitem alcançar a Deus. No entanto, levando esse tesouro da graça e das virtudes em nós, não podemos esquecer-nos de que somos “pessoas que caminham rumo a Deus” e enquanto estamos a caminho poderia acontecer que, por um ou outro motivo, nos afastássemos de Jesus: caminho, verdade e vida (cfr. Jo 14,6). E isso seria terrível! Sair do caminho de Deus é perder-se!

Mas também poderia acontecer algo mais sutil: estando no caminho de Deus, seguir nos “boatos” da vida, ou seja, buscar-nos a nós e viver uma vida cristã pela metade. O Evangelho da Transfiguração nos diz que temos que viver “totalmente no céu e totalmente na terra”. Isso significa que enquanto temos a cabeça e o coração totalmente em Deus, os nossos pés estão bem apoiados na terra e tendo os pés em terra firme, em meio das nossas ocupações, não nos esqueçamos do Senhor. “Corações ao alto”, diz o sacerdote em cada Santa Missa. Nós respondemos dizendo que “o nosso coração está em Deus”. Mas, o nosso coração está realmente em Deus? Não somente durante a Missa, mas também noutros momentos, nas vinte e quatro horas do dia.

Sabe-se que o rei visigodo Leovigildo, no século VI, ameaçou o bispo de Mérida, Marona, com o desterro. Caso o prelado permanecesse fiel à fé católica e não se fizesse ariano, iria ao exílio. O arianismo era uma heresia muito estendida nesse período e que consistia em não aceitar a divindade do Filho de Deus. O bispo, ao ser ameaçado, disse ao rei: “eu não temo as ameaças. O exílio não me intimida de maneira alguma. O sr. poderia me enviar para um lugar onde Deus não está?” O rei disse ao bispo: “imbecil! Em que lugar Deus não estará?” Então o bispo continuou o seu raciocínio: “como o sr. sabe que Deus está em todas as partes, por que ameaçar-me com o desterro? Para onde eu for desterrado não me faltará a ajuda de Deus. Isso é tão certo que quanto mais o sr. me aflija, tanto mais a misericórdia de Deus me auxiliará e a sua clemência me consolará”.

O único desterro que seria realmente exilio para esse bom bispo era um lugar onde Deus não estivesse, mas como Deus está em todas as partes, é possível aproveitar sempre o auxilio e a clemência de Deus. Em meio dos boatos da vida, sejamos conscientes da presença de Deus. Ele está cuidando de nós continuamente, não abandonemos o Senhor porque ele não nos abandona nunca.

Pe. Françoá Costa
presbiteros.com.br

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Category: Doutrina da Igreja

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