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Bíblia e Revelação – Palavra De Deus

O primeiro pressuposto para se entender a Bíblia é que o nosso Deus não é um demiurgo, um deus distante que abandona a sua criação e a observa de longe. Deus é amor e tem com o homem e a mulher uma relação paternal. É uma relação tão forte, tão comprometida que se pauta em uma Aliança.

Deus viveu e vive essa relação de amor com Seu povo, participa da sua história, da nossa história. Ele se revela nessa história. E essa revelação sempre acontece como ação salvífica: Deus é um pai que socorre, que se importa. É um Deus que salva, um Deus cuidador.

Portanto, a Bíblia não é um livro de preceitos, de leis, mas um romance de amor: de Deus pelo homem e do homem por Deus. Escrita por homens mas Deus é o autor. Os escritores sagrados (hagiógrafos) são homens inspirados por Deus que conseguem ver Sua ação salvífica na história.

A Bíblia é uma história de amor vivida, experienciada, não apenas contada ou imaginada. Deus não somente revelou aos escritores sagrados o Seu amor pela humanidade, mas abriu seus olhos para que vissem a realização concreta desse amor nos momentos de salvação vividos na história do povo.

E Deus Se revela por amor, para que o homem possa encontrá-l´O; e usa uma pedagogia: revela-Se em etapas, na história. O homem se separa de Deus, perde a graça e distorce a imagem divina: não reconhece mais no seu criador um Pai amoroso e preocupado, mas um ídolo que deve ser temido. A primeira reação de Adão e Eva após pecarem, descrita em Gênesis, ao se deparar com seu criador foi de medo: “Ouvi teus passos no jardim: tive medo porque estou nu e me escondi” (Gn 3,10b).

Não conseguindo mais reconhecer Deus como Pai amoroso, o ser humano começa a fazer idolatria. Então, Deus escolhe um povo  a quem vai Se revelando até a revelação  plena e definitiva em Jesus. “Deus falou na Sagrada Escritura por meio de homens e de maneira humana” (Dei Verbum, 2)

Na história do povo, suas lutas, derrotas, vitória, escravidão, luta pela terra, a mão salvadora e providente de Deus vai deixando marcas. A religião, para Israel, ocupa lugar central e vai iluminando os acontecimentos; para o povo, a experiência religiosa é fundante e estruturante.

O povo vive, e, sob a ação inspiradora de Deus, vai desvendando o sentido salvífico dos acontecimentos (leitura histórico-salvífica). Através destes escritores inspirados, Israel vai descobrindo a presença de Deus na  e através da história. A inspiração é a graça recebida de Deus e é ela que garante a verdade da escritura.

Se a Sagrada Escritura é, como dissemos, a consignação por escrito das experiências de salvação de um povo, na história, então o leitor já deve ter concluído que ela não foi escrita por uma só pessoa em um só momento, mas durante centenas de anos, conforme o povo vai vivenciando a relação do amor salvífico de Deus. Bíblia quer dizer biblioteca, conjunto de livros. E nestes livros encontramos as Etapas da Revelação.

A primeira é a da promessa: bondade infinita de Deus ao criar; ao contrário dos outros deuses, Deus cria por amor, da simples palavra; e o homem ocupa lugar central: é Sua imagem e semelhança. Nos cultos idolátricos, a imagem de deus era a de animais ou astros e o homem não tinha lugar de destaque.

Em Noé, o mal não é a última palavra e em Abraão Deus Se revela de maneira especial: Israel é o povo escolhido. Crê num único Deus (monoteísmo) que com esse povo estabelece uma Aliança.

Mas o ponto alto da Aliança no Antigo Testamento é a do Sinai. Estabelecida com a mediação de Moisés e alicerçada na liberdade, pois o Êxodo revela um Deus libertador: “Eu ouvi o clamor de meu povo”.  (Ex 3,7)

O povo conquista a terra prometida, fixa-se e, após o tempo dos juízes, estabelece a monarquia. Então surgem os profetas que vão denunciar e anunciar. Denunciar que o plano de amor e justiça de Deus não está sendo cumprido em nome do poder e ganância e anunciar a vontade e ação deste Deus que quer vida.

O cumprimento da promessa se dá em Jesus Cristo (no Novo Testamento) quando  acontece a plenitude da Revelação.

Resumindo, podemos dizer que as etapas da Revelação vão esclarecendo o Ser de Deus e Seu plano de salvação. Portanto, a Bíblia não é um livro de história, ou científico, ou de leis: mais importante do que os fatos históricos são os fatos salvíficos que foram sendo consignados por escrito, sob a inspiração do Espírito Santo. Eles tiveram uma longa história de redação, com vários escritores sagrados, em vários tempos, e foram reconhecidos pela comunidade como sagrados também pelo carisma da inspiração.

Os livros reconhecidos como inspirados compõe a Bíblia e são chamados de canônicos (cânon = lista).

São 46 livros no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento. A ordem em que aparecem na Bíblia não obedece à ordem cronológica (em que foram escritos), ou seja, o livro mais antigo da Bíblia (um dos primeiros a ser escrito) não foi o Gênesis mas uma parte do livro dos juízes, o  Cântico de Débora que foi escrito por volta de 1125 a.C.

Dos primeiros escritos até os reinados de Davi e Salomão (até 930 a.C.) foram escritos uma parte do Pentateuco (cinco primeiros livros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio), 1 e 2 Samuel.

Na época dos Reis (930 a 586 a.C.) foram escritos as Crônicas, Provérbios, vários profetas (Amós, Oséias, Miquéias, primeira parte do livro de Isaías, Jeremias, Sofonias, Naum, Habacuc), outra parte do Pentateuco e o Deuteronômio.

Na época do Exílio na Babilônia (586 a 538 a.C.), foram escritos o Salmo 137(136), alguns profetas (Jeremias, Ezequiel, a segunda parte de Isaías), a chamada história deuteronomista (Jozué, 1e 2 Samuel e Reis), obra já começada anteriormente.

Na primeira etapa do período pós-exílico (538 a 300 a.C.) foi concluído o Pentateuco, vários profetas (Ageu, Zacarias, terceira parte de Isaías, Malaquias, Jonas, Esdras, Neemias), Jó, Cântico dos Cânticos.

Maria Emília de Oliveira Schpallir Silva
Médica e Bacharel em Ciências Religiosas pela PUC-Campinas

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Category: Doutrina da Igreja, Espiritualidade, Formações

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