A cura da memória

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No sentido religioso, a cura da memória tem um papel importante na relação com Deus, pois permite reviver os fatos à luz do amor de Deus. 

Fazer memória é diferente de contar uma história. Quando contamos uma história o nosso coração fica de fora, é algo superficial; quando fazemos memória, todo o nosso ser, o que sentimos e cremos, volta-se para esse momento, ou seja, é viver novamente. Tem um exemplo que gosto muito que é o nascimento de uma criança. Se você for ao hospital, encontrará todos os dados históricos: hora que nasceu, com quantos quilos, tamanho, dados dos pais, quem foram os médicos, etc. Se pedirmos para a mãe contar esse momento, ela pode até dar esses dados, mas vai dizer muitas coisas adicionais: “eu estava muito feliz, você nasceu rápido, era bem gordinho, quase não chorou”, o coração dela voltará a esse momento. Isso é fazer memória. 

Acontece que esse “fazer memória” nem sempre é fácil pelo fato de não ter sido muito bom ou fácil de lidar com a situação vivida. Há pessoas que querem esquecer o passado, algumas não gostam nem de mencioná-lo, e sem perceber, estão negando a própria história. Isso é muito ruim e prejudicial, porque no fundo a pessoa se torna escrava disso, escrava de uma coisa que não quer nem ouvir e nem falar, mas que no fundo não tem como eliminar, é como um “congelar” o passado. Percebe que é uma atitude não muito inteligente, pois mais cedo ou mais tarde, isso terá consequências. Há também o inverso, pessoas que ficam presas ao passado, remoendo tudo que viveu sem nenhum objetivo construtivo, não conseguem viver o presente, isso seria lidar de forma leviana com a própria vida. 

Jesus em muitas passagens não dava chance para as pessoas ficarem presas, remoendo ou até mesmo negando o próprio passado. A exemplo da mulher adúltera, em Jo 8,1-11, Jesus disse: “vai e não tornes a pecar”. É um recapitular extraordinário, vemos na passagem que Jesus permite que a mulher faça memória do seu passado, por mais doloroso e humilhante que fosse, Ele a ajuda a ordenar isso com muita caridade. 

Vale ressaltar que é importante fazermos a leitura do nosso passado com propósitos, ou seja, buscando autoconhecimento ou uma cura interior, com a finalidade de ordená-lo para o amor, de maneira que ao recordar, que isso não lhe traga mais um peso, um sofrimento ou não te escravize mais. Que o sentimento que fique seja de uma ferida cicatrizada e não de uma ferida sangrando. Foi esse o caminho escolhido por muitos santos, inclusive por Santa Teresinha do Menino Jesus, que teve a história marcada por muitas perdas e sofrimentos, mas soube unir tudo isso ao sofrimento de Cristo e entoar louvores de misericórdia.

Esse caminho de cura só é possível pela graça de Deus!

O passado é a única coisa que possuímos em nossa memória e ele é sempre um mistério que apenas Deus é capaz de conhecer nos detalhes, portanto, por nós mesmos não chegaremos a uma conversão completa ou a uma cura perfeita. O melhor caminho é querer retomar a sua história, fazer memória dos fatos e acontecimentos e abrir esses processos, darmos o nosso sim, permitir que Deus haja plenamente em nós e confiar na ação de Deus. Tudo isso só é possível em oração, unindo tudo isso ao mistério de Cristo.

 Deus é a fonte de toda a cura!

Convido você a assumir de forma madura o seu passado, com responsabilidade, firme disposição e docilidade ao Espírito Santo, a abrir alguns processos. Em oração, em forma de louvor, vá fazendo memória da sua vida: “eu Te louvo, Senhor, pelos meus pais; Te louvo, Senhor, pelo meu emprego; pelas situações difíceis que já enfrentei; Te louvo, Senhor, pela cura da doença quando eu era criança”. Enfim, proclame esses louvores, por mais que doa e você não queira lembrar, às vezes a perda de alguém querido ou algum rompimento de relação, seja de amizade ou namoro, tenha coragem de proclamar: “Senhor, eu te louvo por isso, pelo tempo que pude conviver com essa pessoa”. Uma coisa importante nesse momento é ir anotando as memórias feitas. O Espírito Santo de Deus trará muitas coisas ao seu coração. Segundo Amedeo Cencini¹ vale a pena escrever a própria história, porque absorve-se muito mais que simples ler ou pensar. A escrita constrange o homem a ser mais claro e concreto, além de levar adiante, de modo ordenado e progressivo, uma reflexão que “faz escavações” dentro dos acontecimentos. Um outro louvor importantíssimo é com a criação: “Senhor, eu te louvo pela criação, fez o primeiro homem e mulher à Tua imagem e semelhança, e assim também, me criastes à Tua imagem e semelhança”. O Senhor sonhou com você, Ele te quis, desde o ventre da sua mãe. Recordo aqui a passagem Is 49 versículo 1: “O Senhor chamou-me desde meu nascimento; ainda no seio de minha mãe, ele pronunciou meu nome”, e no versículo 16, passagem do nosso Carisma, Deus ainda reforça essa predileção: “Eis que estás gravado na palma de minhas mãos”.

Esse retomar a história sob a luz do Espírito de Deus, é lindo! É processo de cura profunda, de reconciliação consigo mesmo e com Deus. Isso acontece porque encontramos a verdade, que é Deus. É reordenar a vida sempre para o amor, como nos ensina Santo Agostinho, é o sujeito tomar o leme da própria existência crendo que ela tem origem no amor, pelo amor e para o amor deve tender, ou seja, transformando tristeza em alegria, dor em júbilo, de morte em vida. 

Deus o(a) abençoe!

¹ Amedeo Cencini, padre salesiano italiano, é um dos iniciadores da psicologia da vida consagrada.

Ariele Castilho Russo
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator

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