A Igreja e o uso de preservativos

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Padre Paulo Ricardo

“Você para de fazer sexo fora do casamento e acabou a questão do preservativo. O sexo foi feito para ser usado dentro do matrimônio”

84 milhões de camisinhas. Esta é a quantidade de preservativos que o Ministério da Saúde distribuirá em todo o país durante o período do Carnaval – 26 milhões a mais que no ano passado. A iniciativa faz parte da campanha nacional contra a Aids e busca promover a ampla divulgação do assim chamado “sexo seguro”.

A realidade, porém, é outra: existe toda uma preocupação da Igreja diante da massiva e atual distorção da sexualidade humana. “O sexo está ficando cada vez menos humano”, afirma padre Paulo Ricardo, da Arquidiocese de Cuiabá (MT), em entrevista concedida à equipe do cancaonova.com. O sexo – como tudo mais criado por Deus – é belo e não algo doloroso, a exemplo do que inúmeras pessoas têm experimentado em suas vidas.


cancaonova.com: Recentemente o Papa foi incluído em uma nova polêmica por parte dos meios de comunicação com relação à posição da Igreja no uso da camisinha. O senhor poderia explicar esta declaração do Papa?

Padre Paulo Ricardo: Bom, a primeira coisa é a gente esclarecer que se trata de uma longa entrevista que o Papa concedeu a um jornalista alemão. Esse depoimento foi publicado num livro intitulado “Luz do mundo”. Entre as várias perguntas desta entrevista, questionou-se a posição do Papa Bento XVI a respeito do uso do preservativo. Veja: o Papa disse claramente que o preservativo não é a solução, ou seja, ele não é uma solução para a questão da Aids. O que nós precisamos entender como solução para essa questão é que a pessoa deve ter abstinência sexual, e depois deve ter também fidelidade e, finalmente, se “falhou a primeira” – e a pessoa não foi abstinente, – se “falhou a segunda” – e ela não foi fiel – então, vai fazer o quê? Usa o preservativo como última instância. Aí as pessoas dizem assim: “Mas por que a Igreja não libera o preservativo e faz uma legislação clara sobre isso?” Vou fazer uma comparação para vocês entenderem do que é que se trata: o DETRAN tem normas de como eu devo guiar um veículo nas ruas, nas rodovias. É evidente que existe uma norma: você não deve guiar na contramão. Agora, é evidente também que o DETRAN não terá uma norma a respeito das várias modalidades em guiar o veículo na contramão. Por exemplo: você resolve guiar seu veículo na rodovia Presidente Dutra, a 120 km/h, na contramão. Os outros carros começam a desviar do seu e você está quase provocando um acidente. Daí você diz: “Poxa vida! Estou pondo a minha vida e a das outras pessoas em risco! Deixe-me reduzir a velocidade”. Então, eu que estava guiando na contramão a 120 km/h, agora reduzo para 20 km/h e começo a dirigir no acostamento, ainda na contramão. Ora, é evidente que dirigir a 20 km/h no acostamento é menos perigoso que dirigir no centro da pista, a 120 km/h, na contramão! Mas, não existe nenhuma lei do DETRAN que diga isso. Por quê? Porque o DETRAN não vai legislar a respeito de uma coisa que é ilegal. Seria uma loucura fazer uma legislação para aquilo que é errado. O mesmo se dá com a Igreja. Ela diz: se você não é casado, abstinência. Se você é casado, seja fiel. Essas são as duas normas da Igreja. Agora, se você não quer ser abstinente, se não quer ser fiel ao seu casamento, é evidente que, se você quer se prostituir, certamente usando a camisinha estará sendo mais responsável do que se estivesse sem ela. Mas a Igreja não dirá: pode usar a camisinha. Ela não dirá isso. Assim como o DETRAN não dirá: pode andar na contramão a 120 km/h. O que o DETRAN diz? Não ande na contramão. E a Igreja diz: não seja infiel, não seja promíscuo. Seja abstinente.


O exemplo concreto que o Papa dá nesta entrevista é o de uma pessoa que se prostitui e começa a usar a camisinha. Bento XVI afirma que este “usar a camisinha” PODE significar um primeiro passo no caminho da moralização, ou seja, é como se o Papa dissesse que a pessoa que está guiando um veículo a 120 km/h na contramão de uma rodovia e, de repente, resolve reduzir a velocidade e andar pelo acostamento, este ato é considerado um primeiro passo no caminho da moralização de um sujeito que está começando a ficar sensato. Mas ele ainda não ESTÁ sensato. Ele ainda não está vivendo dentro das normas da lei. Assim também como a pessoa que se prostitui e usa camisinha não está vivendo dentro das normas da Igreja, das normas de Deus, da moralidade. Ela vive uma vida imoral. Agora, se a pessoa vai viver uma vida imoral, é melhor usar o preservativo – para não sair contaminando os outros com o vírus do HIV – do que “sair por aí” prostituindo-se sem usar camisinha. Trata-se de um mal, porém, uma coisa que, aos poucos, está moralizando aquela pessoa. Foi simplesmente isso que o Papa disse.
cancaonova.com: Por que a Igreja é contra o uso de preservativos?
Padre Paulo Ricardo: A Igreja não é contra o uso de preservativos. Ela é contra o sexo fora do matrimônio. É isso que as pessoas não entendem. O sexo foi feito para ser usado dentro do matrimônio. Acabou. Uma vez que você tem o matrimônio, para que vai falar de preservativo? As pessoas dizem assim: “A Igreja quer matar as pessoas! Ela quer que as pessoas façam sexo e se contaminem!” A Igreja não quer nada disso. Ela simplesmente quer que as pessoas parem de fazer sexo fora do casamento. Você para de fazer sexo fora do casamento e acabou a questão do preservativo. Então não se trata de ser contra o preservativo. Trata-se de ser contra o sexo fora do matrimônio. Um sexo que não está no vínculo do amor perfeito do matrimônio. Essa é a realidade [pregada pela Igreja]. E uma vez que você está dentro do matrimônio, a questão do preservativo torna-se ridícula.
cancaonova.com: Quais consequências enfrentaremos, enquanto sociedade, incitando nossas crianças e jovens a começarem sua atividade sexual cada vez mais precocemente?
Padre Paulo Ricardo: A realidade é que o sexo está ficando cada vez menos humano e cada vez mais animal. A sexualidade humana é diferente da sexualidade dos animais. Quando Deus criou os animais, por exemplo, os mamíferos, Ele criou com um limite para o sexo deles chamado “período do cio”. Ou seja, quando a fêmea está no cio, eles mantêm relação sexual. Quando a fêmea não está no cio, eles param. Com o ser humano Deus não deu um “período do cio”. Para o ser humano Ele deu a razão, a inteligência, a alma, o espírito. Então, para o ser humano, o sexo nunca é somente um ato irresponsável. Ele [ser humano] é sempre um ato no qual ele está fazendo alguma coisa espiritualmente. Dessa forma, eu estou machucando-me espiritualmente – ou machucando outra pessoa espiritualmente – quando eu faço o sexo de forma irresponsável. E isso não está sendo ensinado aos jovens. Os jovens acham que ter uma relação sexual é como “comer um hambúrguer”, ou seja, uma coisa totalmente inofensiva. Mas isso não é verdade. O sexo tem consequências. Dentro do sexo está incluída a vida de uma terceira pessoa – que é uma criança que pode nascer – em segundo lugar, está incluída a minha capacidade de amar e a capacidade da outra pessoa com a qual estou tendo a relação sexual, portanto, o centro da minha vida, que é o amor. Nós viemos a este mundo para amar. Os cães não amam. As galinhas não amam. As vacas não amam. Mas os seres humanos amam! E quando não conseguem amar ficam frustrados. Quando você pega crianças, adolescentes, e os joga no “mundo do sexo” dessa forma irresponsável, você está ferindo a alma das pessoas e as pessoas estão se tornando cada vez mais “animalizadas”, perdendo sua grandeza de alma, sua dignidade humana naquilo que é a relação sexual.
cancaonova.com: O Ministério da Educação, em parceria com o Ministério da Saúde, com a Unicef e a Unesco, lançou uma cartilha intitulada “Caderno das Coisas Importantes” que, dentre outras coisas, faz uma apologia à masturbação e ao sexo precoce entre adolescentes e jovens. Esse material foi elaborado para ser distribuído nas escolas públicas. O que o senhor pensa disso?
Padre Paulo Ricardo: Veja, o que acontece é o seguinte: as crianças e os adolescentes precisam ser educados. E precisam ser educados para pôr um freio em seus instintos animais. Não existe somente o instinto animal do sexo. Por exemplo, existe o instinto animal de comer. E eu preciso educar meu filho a comer bem, a se alimentar de forma sadia. Existe o instinto animal de sobrevivência. E esse instinto não pode ser desregrado. Porque, do contrário, a pessoa sai por aí batendo em todos e matando as pessoas, simplesmente porque se sente agredida. A sociedade precisa ensinar o indivíduo a colocar limite em seus instintos. Ora, essa cartilha está ensinando exatamente o contrário! Ela está dizendo: “Não tenha limites! Faça o que quiser e você será feliz!” É como se eu dissesse assim: “Coma o que você quiser e sua saúde continuará boa”. Mas isso é uma mentira! É simplesmente falso. Se você comer o que quiser, acabará prejudicando sua saúde. Se você fizer o sexo que quiser, terminará fazendo mal a si mesmo e as outras pessoas. Na verdade, essa “Cartilha das Coisas Importantes” está ensinando as coisas menos importantes. Seria importante ensinar aos nossos filhos a amar. E amar significa o quê? Significa eu frear minhas vontades, meus caprichos, para então dar minha vida para o outro ser feliz. E isso essa cartilha não ensina. O ser humano não pode ter uma vida desenfreada. E se existe uma coisa importante que os nossos educadores precisariam ensinar para nossos filhos é que, se você não tiver freio, a vida vai pôr freio em você! Você quer ser feliz? Precisa então aprender a frear. Filhos e filhas que não têm freio, terminarão em desastre. E essa cartilha é a receita para o desastre em nosso país.
cancaonova.com: Padre Paulo Ricardo, muito obrigado por nos conceder esta esclarecedora entrevista. Para finalizar, peço que que o senhor deixe sua mensagem final e sua bênção aos internautas que nos acompanham.
Padre Paulo Ricardo: Quando tratamos da sexualidade, nós estamos tratando, na verdade, da nossa capacidade de amar. E a capacidade de amar significa que você não pode ser muito “espaçoso”. Se você está no banco de um automóvel, precisa dar espaço para a outra pessoa que está do seu lado. É preciso aprender a se contrair para dar espaço para o outro. Na vida, precisamos pôr freio e dar espaço para o outro ser feliz. Não podemos ensinar nossos filhos a sair por aí usando pessoas, como se elas fossem coisas. Porque é isso o que está acontecendo com esta “pseudo” educação sexual. Educar para a sexualidade é educar para o amor, educar para o limite, educar para a capacidade de eu dizer: “Não sou o centro do mundo”. Existe o centro do mundo, mas não sou eu. O centro do mundo é Deus. Que Deus o abençoe e o faça continuar neste caminho de aprendizado do amor, de quem sabe que tem seus limites e que precisa dar espaço para os outros e, sobretudo, para Deus. A bênção de Deus Todo-Poderoso: Pai, Filho e Espírito Santo desça sobre vós e permaneça para sempre. Amém.

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