Aridez Espiritual – Onde foi que eu errei?

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Diferentemente do que muitos pensam, a aridez da alma não é algum tipo de “castigo” e nem sempre é consequência de algo mau que fazemos. Aliás, não raramente é um belo presente divino!

Você já teve a (infeliz) experiência de tentar acelerar um veículo com o freio de mão puxado? Já tentou correr dentro de uma piscina? Ou já viveu qualquer outra situação na qual era muito difícil fazer algo simples, que em outros tempos você realizaria com imensa facilidade? Pois é. Essa situação existe também na vida espiritual. A ela damos o nome de “aridez”.

A aridez espiritual possui este nome justamente para remeter a uma ideia de deserto, em que a pessoa se vê inserida em uma “secura” total, isolada, sem o frescor das árvores ou da água límpida. É uma fase completamente distinta do início da conversão, em que rezamos com imensa facilidade, temos o gosto por ir à igreja, passamos os dias pensando em Deus. No “deserto”, ao contrário, a pessoa até consegue (e deve) continuar com toda a assiduidade religiosa, mas fará isso na base do esforço e sem grandes empolgações.

Os exemplos práticos da aridez espiritual são diversos: dificuldade de rezar; distrações insuportáveis na Santa Missa; preguiça indescritível na meditação do Terço; aquela adoração de 30 minutos que parece se arrastar por horas; falta de criatividade na hora de falar com Deus, dentre tantas outras dificuldades relacionadas. Parece que tudo se torna mais interessante do que a concentração na oração, até mesmo o inseto que passeia pelo chão, ou a piada engraçada ouvida na última semana.

O mais curioso desse tipo de “secura” é que a nossa razão permanece intacta: ainda sabemos o que é certo, temos condições de discernir o que é Graça e o que é pecado. Porém, por algum motivo, isso não parece ser suficiente. Eu sei que a oração é fundamental para a minha alma, mas ainda assim é difícil me recolher. Eu sei que o meu Senhor, o Deus Soberano, está Se oferecendo novamente naquela Missa, mas não consigo me concentrar com intensa devoção.

É justamente aí que surgem as nossas indagações. O que eu fiz para estar assim? Onde foi que eu pisei na bola? Será que eu não amo mais o Senhor? Teria Deus me abandonado?

Todavia, precisamos nos recordar que esse tipo de aridez é de natureza espiritual, razão pela qual não a conseguiremos compreender com uma lógica puramente humana. Nesse sentido, e para consolar um pouco nossos corações, precisamos compreender que a “secura da alma” somente acontece por permissão de Deus. Sim, é isso mesmo!

Nesse ponto, faz-se prudente distinguir aqui os dois principais motivos da aridez espiritual. É evidente que, na verdade, poderiam ser enumeradas dezenas de razões, mas todas elas, de algum modo, poderiam ser inseridas dentro destas duas principais: a aridez para a nossa salvação, e a aridez para o nosso amadurecimento.

Distinção dos principais motivos da aridez espiritual 

O primeiro caso (da “secura” enviada para a nossa salvação) é de simples compreensão. Se você vê um filho sonâmbulo caminhando rumo ao precipício, não tentará lhe acordar com voz afável e carinhos – pois é provável que continue dormindo. Ao contrário, agirá com violência se for necessário, com a finalidade de salvar a vida do seu amado filho. Do mesmo modo, um “cristão desajeitado”, que flerta sempre com o pecado mortal, pode receber um período de secura espiritual como uma forma de “chacoalhão” por parte de Deus. De fato, é preferível um curto tempo de dificuldades neste mundo do que uma eternidade inteira no inferno.

Quanto ao segundo caso (da “secura” enviada para o nosso amadurecimento), este é o real objetivo desse texto. Muitas vezes já estamos firmes na caminhada, com o pecado já vencido e uma vida fundada em apostolados, mas, mesmo assim, Deus pode vir e “fechar a torneira” das consolações. Nesse caso, qual o objetivo do Senhor?

Talvez a nossa resposta esteja na história de Santo Antão. Em determinado momento de sua vida, o grande santo asceta passou a ser atacado fisicamente pelo demônio, o qual tentou vencê-lo sem sucesso por meio de inúmeras tentações. Antão permaneceu firme durante todos os ataques, sempre enfrentando o inimigo com valentia e muita fé. Ao final de tudo, quando Antão já estava bastante debilitado, o Senhor finalmente apareceu e afugentou o demônio. O santo, então, perguntou onde Deus estava durante todo aquele tempo, e por que não o ajudou. O Senhor respondeu: “Antão, eu estava aqui, mas queria te ver lutando”.

Não há dúvidas acerca do crescimento espiritual que aquelas lutas trouxeram a Santo Antão. Do mesmo modo, o Senhor muitas vezes nos permite batalhas árduas na aridez espiritual, simplesmente porque quer nos ver crescendo em santidade. Ora, não há dúvidas de que uma oração feita com luta e com o sacrifício da vontade tenha mais valor para Deus do que aquela feita no gozo das consolações – ainda que esta última tenha durado por mais tempo e estivesse livre de distrações.

Tantas vezes a aridez é um remédio enviado pelo Altíssimo, para que não caiamos no orgulho. A grande verdade é que o homem não vai muito longe sem a ajuda da Graça. Apesar disso, às vezes nos iludimos em pensar que é na nossa própria força que nos santificaremos. Nesse sentido, um tempo de secura é mais do que recomendado, para que nos recordemos da nossa própria miséria e da necessidade que temos do Senhor. Santa Teresa D’Ávila disse algo semelhante em uma de suas obras: “Porque muitas vezes Deus quer que seus eleitos sintam a própria miséria, ele afasta um pouco seu favor, e não é necessário mais do que isso a fim de que nos conheçamos bem depressa” (Terceiras Moradas, Capítulo II, Castelo Interior).

De qualquer maneira, devemos aquietar o nosso coração, uma vez que “sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8, 28). O Senhor não nos permitirá uma aridez maior do que possamos vencer. Porém, quando passarmos por estes momentos de secura, devemos ser bastante honestos com nós mesmos e com Deus, a fim de que possamos perguntar com sinceridade: O que Deus quer de mim nesse tempo?

Acima de tudo, devemos ser agradecidos pelo presente – por mais difícil que seja o reconhecimento. De fato, os filhos não costumam agradecer aos pais quando estes lhes forçam a tomar um remédio amargo. Porém, o nosso Pai do Céu jamais errou ou errará nas doses, e sabe bem como curar qualquer doença.

Portanto, um período de aridez não deve ser motivo de murmurações ou de desânimo; também não deve ser encarado como um castigo impiedoso de um Deus insensível. Muito pelo contrário, é uma época de graça, em que somos convidados a lutar por Deus com todo o nosso empenho, apesar da aparente falta de motivação.

Santa Teresinha, a mestra da pequenez, nos recorda na “História de uma Alma” que o Divino Sol permanece sempre brilhando, ainda que esteja escondido atrás de pesadas nuvens. Que, a exemplo de Teresinha, possamos nos manter firmes na fé no Senhor – ainda que todos os nossos sentidos gritem o contrário. Afinal, a aridez apenas nos recorda que não é neste mundo que seremos plenamente saciados.

Rafael Aguilar Libório 
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator 

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