Uma campanha para o nosso coração

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Todas as vezes que penso em solidariedade me vêm à lembrança aqueles outdoors sobre campanhas, seja de agasalho na época de inverno ou de brinquedos na época do Natal. Mas será que a solidariedade é sempre algo tão extraordinário que pode restringir-se a campanhas esporádicas? A solidariedade é uma virtude que está relacionada com a generosidade, com a compaixão e com a misericórdia. Só é solidário quem é capaz de colocar-se no lugar do outro, quem dá espaço ao coração para sentir uma dor que não é sua, mas pela qual se deixa tocar.

A solidariedade é uma forma sublime de amar, amor que não é sentimentalismo, mas é atitude concreta, é decisão em favor do outro. Não podemos reduzir nossa experiência de solidariedade quando fazemos aquela faxina no armário e tiramos tudo o que não usamos, mas sequer pensamos no outro que vai usufruir daquele nosso bem, talvez porque o objeto desse bem seja muito mais nós mesmos, talvez porque a tal faxina vai liberar espaço para uma nova coleção que virá ocupar as gavetas e ao mesmo tempo esvaziar a culpa que o acúmulo traria para nossa consciência.

Abaixo as campanhas de solidariedade? Não, na verdade o que queremos abordar é especialmente a solidariedade como uma virtude, e a prática das virtudes deve ser uma constante na vida do cristão. “Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um. Unidos de coração, freqüentavam todos os dias o templo” (At 2,44-46a). O livro dos Atos dos Apóstolos nos traz a imagem da primeira comunidade cristã, e revela a experiência de homens e mulheres que são profundamente identificados com Cristo. A partilha e a solidariedade não eram gestos exteriores, mas demonstram uma experiência interior profunda. Sua vivência era marcada pela solidariedade, porque aquela comunidade descobriu o valor do Cristo, descobriu o valor dos bens e entendeu profundamente o sentido da partilha.

“Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros, que estavam a caminho da salvação”(At 2,46b-47). Como fruto desse encontro com o Cristo, percebemos uma comunidade ativa e atraente, uma experiência autêntica tira toda passividade diante das necessidades e dramas que tocam a vida do outro e cativam, atraem o gosto por ser de Cristo, fazem brilhar a glória e a alegria da vida cristã.

Talvez a prática da comunidade de Atos dos apóstolos nos pareça estranha ou radical demais para o Cristianismo de hoje. Precisamos nos perguntar como nossa identificação com o Cristo nos permite uma distância tão grande do outro, da necessidade do próximo que é meu irmão… “Com efeito, a experiência que o crente tem de um Deus solidário é o que o impele a viver a solidariedade com os irmãos. A história da salvação é a história da revelação progressiva que Deus faz de si mesmo ao homem como um Deus que entra em sua vida até compartilhá-la plenamente em Jesus de Nazaré”(1).

É estranho pensar como nos tornamos capazes de nos acostumar com as necessidades dos outros; tantas vezes a necessidade do outro não nos atinge mais. O individualismo ganhou tais proporções em nossos corações que nossa consciência vai ficando como que amortecida, anestesiada para o impacto da necessidade alheia. Cada dia que passa nos tornamos mais e mais sensíveis às nossas próprias necessidades e não temos o mesmo movimento crescente para a necessidade do outro.

É interessante que quando passamos por alguma necessidade, mínima que seja, quanto a indiferença do outro nos agride, o simples fato de chegar em casa cheios de sacolas e, nos vendo, ninguém correr em nosso socorro, nos escandaliza. Como o outro não viu o que eu precisava? Era tão simples me ajudar. Não custava nada esse gesto de solidariedade. Isso demonstra que temos um senso de solidariedade, só precisamos afinar nossa sensibilidade para o outro.

Há em nós uma capacidade de fazer esse movimento em direção ao outro, na verdade, fomos feitos para isso, fomos feitos para o amor, essa é a maior e mais bela vocação do homem. Amar, dar-se, servir. Só o amor e a doação nos realizam, só somos plenamente felizes se nos doamos ao outro.
No fundo, pressentimos essa vocação, nós nos sentimos tão bem quando fazemos a experiência de uma oferta generosa, especialmente aquela escondida, que fugiu dos olhos e dos elogios dos outros, no fundo porque aspiramos esse bem.

Para o cristão isso é uma sublime forma de identificação com o seu Senhor, aquele que doou generosamente sua vida em favor de cada pecador, que foi solidário até o fim com cada uma de nossas dores, nossas necessidades e nossas mazelas. “A revelação definitiva da solidariedade de Deus com o homem se concretiza no mistério da Encarnação e da Páscoa. Ao compartilhar a condição humana, Deus torna transparente o amor que dedica ao homem (cf. Fl 2, 6-8), amor que leva a dar sua própria vida para sua completa libertação (cf. Jo 15,13). A solidariedade humana assume, assim, conotações da partilha (ser-com) e do dom total de si (ser-para). O Deus cristão é segundo a feliz expressão de D. Bonhoffer – o Deus pobre, despojado, impotente, mas é, sobretudo o Deus para os outros” (2)

A solidariedade não se restringe aos gestos de doação de bens materiais, mas especialmente à partilha da vida como um todo, às necessidades afetivas, espirituais, emocionais, à partilha da dor em toda a extensão da vida humana.

Todas as vezes que abrimos as portas da nossa vida para nos dar, ao mesmo tempo deixamos entrar uma brisa de esperança e fé no homem, nos outros e em nó mesmos. Pequenas aberturas e gestos são suficientes para fazer ventilar a fé na nossa vocação à comunhão, na capacidade de nos comprometermos uns com os outros. Toda experiência de doação autentica e pura é geradora de paz e de deleite para a alma.

“O mistério trinitário encontra aqui seu fim último. È o mistério de um Deus que vive em comunhão de pessoas que se constituem no recíproco dar-se. Deus é amor porque é Trindade e é trindade porque é amor. O crente que se tona partícipe da experiência do amor divino está obrigado por isso a apresentar-se transparente em sua vida cotidiana sua conotações essenciais “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo, 13,34). A solidariedade assume, como conseqüência, o caráter de instância ética, converte-se em dever de transferir para as relações com os homens o sentido e a lógica de tal experiência”(3).

Que nos abramos, então, a uma nova experiência de solidariedade, inauguremos no nosso coração um tempo novo de contínua campanha por um coração mais solidário.

Leia também: O autoconhecimento

Lilia Márcia Borges Gonçalves
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

2 COMENTÁRIOS

  1. Lilia,DEUS seja louvado pela sua vida,fui profundamente tocada pela sua formação,oro e peço a DEUS para me manter em estado de amor,sabe Lilian eu amo viver,eu amo as pessoas,sempre tive algo dentro de mim que me impulsiona para o outro,mas sempre sofri muito com isso por achar que o coração do outro esta sentindo o que eu estou sentindo,fui pega de surpresas tristes e doloridas pelo ato das pessoas comigo,quantas vezes dizemos ou pensamos,nossa eu não esperava isso…vç não tem tamanha insensibilidade,maldade no coração e acha que o outro tambem não,por isso sou muitas vezes pega de surpresa.ai chegou um tempo que de tanto apanhar sem perceber começei a me fechar,acho que inconcientemente tentava me defender.
    até que chegou o grande dia em minha vida,o divisor de aguas,o encontro tremendo…pessoal com o amado de minha alma,aquele que sempre me impulsionava a fazer algo de bom por alguem,por gostar de ver o outro bem,sem segundas intençoes,sempre gostei de lavar a louça na casa de meus amigos depois de uma refeição,sabe coisas assim simples mas que me faz bem,dar um lugar no onibus,ajudar uma pessoa na fila do banco,conversar com aqueles que ninguem gosta de conversar,só para ele se sentir nem que seja um pouquinho amado,no encontro com JESUS tudo isso foi muito purificado,ele me amou tanto,me ama tanto,tem me amado de maneira tão intensa que cada vez mais o desejo do meu coração é de amar as pessoas,tenho o desejo em meu coração que todas as pessoas que passarem por mim experimemtem JESUS,e hoje entendo que as pessoas experimentam JESUS quando são amadas,pois ele é o amor,por isso Lilian sua formação me tocou muito,quando vç diz que {só é solidario quem é capaz de colocar-se no lugar do outro,quem da espaço ao coração para sentir uma dor que não é sua,mas pela qual se deixa tocar}aprendi isso que o mestre JESUS Lilian,que la na cruz se colocou em nosso lugar,sentiu toda nossa dor,pagou o preço de nossos pecados,nos curou,e seu coração foi não somente tocado,mas transpassado,ele se deu por inteiro,obrigado Lilian,por através desta sua formação como canal de graça em minha renovar minhas forças para amar,e tenho tentado,e peço a DEUS que seja sem sessar,não somente em determinadas épocas do ano como voçê disse,um grande abraço,que DEUS te abençoe.
    IZABEL.

  2. Querida Izabel

    Fico muito feliz por seu comentário. Obrigada pelo carinho. Rogo a Deus por você também, para que Ele sempre dê sentido a todas as suas buscas e seus gestos de amor. Que a graça do Espírito Santo e a intercessão da Virgem Maria sempre te sustentem de não te deixem desanimar.

    Fraterno abraço

    Lilia

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