Dia dos Namorados: “O pudor e a modéstia emocional”

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Nesse tempo, em que no Brasil celebramos o Dia dos Namorados, é propícia uma reflexão que pode nos ajudar a viver bem esse tempo de descoberta do amor mútuo e de preparação para o Matrimônio.

O Catecismo da Igreja Católica recorda que devemos guardar certa pureza de coração (cf. § 2521). O pudor preserva a intimidade da pessoa; consiste na recusa de mostrar aquilo que deve ficar escondido. A necessidade de esconder algumas coisas vem do reconhecimento de que vivemos num mundo onde existe o pecado. Na narrativa do pecado original, Deus desce no paraíso para ver Adão e Eva e estes, após o pecado, se escondem porque estavam nus.

A nudez humana nasce de uma cegueira. Antes do pecado original, Adão e Eva não tinham pecado, não tinham dificuldade de olhar para o corpo um do outro desnudo. Eles não tinham pecado. O corpo era translúcido, era capaz de ser uma vitrine capaz de conduzir até Deus. Depois do pecado original, o corpo como que ficou opaco. Olhamos para um corpo nu e a consequência imediata é o esquecimento de Deus, já não nos conduz mais para o Criador; então é necessário esconder os nossos corpos. Escondendo-os, revelamos a nossa interioridade. Quando você vê uma pessoa nua, você esquece completamente a realidade de que ela tem alma, que tem uma vocação eterna, que foi feita por Deus para o seu louvor e para viver a glória do céu. Você fica cravado com os pés na realidade da carne, na realidade deste mundo. Por isso se esconde o corpo. A atitude diante de uma pessoa bem vestida é sempre diferente. Quando você vê uma pessoa bem vestida, você sempre olha pra ela não como objeto sexual, mas começa a ver as suas qualidades espirituais, é simpática, inteligente, se apresenta bem… É necessário esconder o corpo para revelar a alma. É o princípio básico do pudor cristão.

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Existem coisas que devemos esconder por causa desse defeito do pecado original, que faz com que olhemos para os corpos uns dos outros sem amor. Com o Sacramento do Matrimônio, colocamos os dois esposos cristãos com a possibilidade de se apresentarem nus um ao outro, porque ali há tal vínculo de aliança, uma realidade de entrega mútua que permite que transcendam a realidade física carnal, que é vista de forma idolátrica; o Matrimônio é um trampolim que permite que os dois possam ir para Deus.

Mas não existe pudor somente com relação ao corpo. O Catecismo nos recorda que há ainda o pudor dos sentimentos, o que podemos denominar de modéstia emocional. Não posso colocar diante das pessoas tudo o que eu penso e sinto. Seria despudor, falta de modéstia. Devo esconder meu corpo e meu mundo interior porque estamos num mundo onde o pecado existe e as pessoas não me amam o suficiente para olhar para mim desnudo e me amar: a tendência das pessoas marcadas com o pecado é me usarem como objeto. O mesmo acontece com meu mundo interior, com meus sentimentos. É necessário cobrir com um véu discreto tudo aquilo que está dentro de mim, para que não haja o despudor de que seja proclamado ao mundo aquilo que na verdade é o segredo do meu coração e que somente deve ser revelado para aquelas pessoas que me amam o suficiente, as pessoas da minha intimidade.

É necessário distinguir o pudor ou modéstia emocional da hipocrisia. Pudor é esconder o que eu sou; hipocrisia é apresentar o que não sou, querer ser o que não está em mim. Não é hipocrisia cobrir o corpo, guardar velado o seu interior. Hipocrisia é colocar uma máscara. Infelizmente o diabo usa muitos argumentos para nos tirar da virtude do pudor dos sentimentos: não seja falso, seja você mesmo, seja natural, abra-se, exponha-se, mostre-se! É artimanha do demônio, pois, na verdade, falsidade é mostrar o que não sou. Pudor é esconder o que eu sou como um tesouro, porque tenho minha dignidade. Vestir-se com pudor é dar dignidade ao próprio corpo. Guardar o seu interior é manter a dignidade da sua alma. Devo esconder as partes do meu corpo e meu mundo interior, meus sentimentos. O coração deve ser velado (guardado, escondido) tanto quanto o corpo, porque ambos são mistérios a serem oferecidos no devido tempo. Quando uma mulher não consegue proteger seu coração, ela pode acabar se sentindo usada.

Se a exibição do corpo de uma mulher causa problemas para os homens, então ela deve ser devidamente vestida para “permanecer oculta” até que se esteja pronta a fazer de si um dom ao marido. No entanto, homens e mulheres também devem guardar os seus corações. O coração deve “permanecer oculto” até que ele ou ela esteja pronto(a) para entregá-lo como dom no casamento. A Sagrada Escritura declara que o coração é uma fonte de vida (Pr 4,23). Por que iríamos sequer cogitar partilhar esse dom e seduzir alguém a fazer o mesmo, quando as nossas intenções ainda não estão purificadas? Claramente, Deus leva a sério os nossos corações. Então, devemos nós também levar a sério.

A modéstia do corpo e a modéstia do coração são mutuamente importantes, e se aplicam a ambos os sexos. O Catecismo da Igreja Católica continua dizendo que “a modéstia (pudor) protege o mistério das pessoas e de seu amor” (§ 2522). Assim, pode-se perceber como a falta da modéstia emocional deixa o mistério da pessoa e do seu amor desprotegidos. Quando um homem revela seu coração, a mulher pode começar a se permitir ter sentimentos por ele, e então vem o problema quando não há um interesse autêntico dele, mas apenas uma permissividade temporária. O mesmo é verdade para uma mulher que partilha muitas coisas cedo demais antes de estar certa de que o homem está comprometido com ela. Ambas as ações são imprudentes. Cada indivíduo envolvido falhou em proteger a intimidade de seus corações. Tal compartilhamento de corações deve ser reservado para aquele que vai ser o(a) guardião(ã) do seu coração: seu marido ou sua esposa.

A modéstia “convida à paciência e à moderação na relação amorosa”. Portanto, mesmo se há um sentimento de amor pela pessoa, talvez apenas como amigo, cada pessoa ainda assim deve estar atenta acerca do nível de emoção que vai compartilhar, dependendo da profundidade e da intenção do relacionamento. A modéstia pede que sejam cumpridas as condições da doação e do compromisso definitivo do homem e da mulher entre si. Esse tipo de expressão de amor é encontrado no enlace matrimonial, quando homem e mulher se tornam uma só carne. Essa união se expressa em todos os níveis da pessoa. Assim, é importante cobrir nossos corpos a fim de fazer uma oferenda pura ao nosso marido ou esposa, mas é também essencial que se encubra (que se vele) também o coração através da modéstia emocional, até que tal expressão de amor (como diz o Catecismo) possa ser perseguida com nobreza, e então consumada na união sacramental.

Kátia Maria Bouez Azzi
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

Fontes:
Padre Paulo Ricardo in: www.padrepauloricardo.org.br
Jennessa Durney in: https://tob.catholicexchange.com

2 COMENTÁRIOS

  1. Tenho uma dúvida quanto a isso. Para que o homem e a mulher se unam em casamento e assim possam se entregar mutuamente, é necessário iniciar um namoro. Como um homem e uma mulher podem dar esse passo do namoro, tendo em vista que devem guardar a modéstia emocional? Não é necessário que haja certa abertura emocional para iniciarem esse caminho? Como isso funcionária na prática?

    Obrigada

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