Filho de Davi, tem misericórdia de mim

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misericórdia

Nossa condição humana, por si só, nos revela que necessitamos da misericórdia de Deus, pois somos limitados, frágeis, dependentes.

Tal necessidade é acentuada por nossa condição de pecadores. E quanto mais pecadores, mais precisamos ser alcançados por Deus.

Atualmente se fala muito da misericórdia de Deus, e muitas vezes parece que a ação misericordiosa do Senhor é um ato de fraqueza ou uma postura conivente com os erros cometidos, como “Tudo bem, Deus perdoa!” ou “Não importa o que você faça, Deus vê somente o seu coração.”

Tais pensamentos não expressam a verdade sobre a misericórdia de Deus. De fato, Jesus não veio ao mundo para condenar os pecadores, mas para os salvar (cf. João 3,17). Ele nos perdoa, sim, e exige que mudemos de vida, nos convertamos, como fez com a pecadora que fora lançada a seus pés, como citado na seguinte passagem: “’Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?’ Respondeu ela: ‘Ninguém, Senhor.’ Disse-lhe, então, Jesus: ‘Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar’” (João 8,10-11).

A misericórdia é o amor de Deus colocado em movimento em favor dos homens, como nos ensina o fundador de nossa Comunidade, André Luís Botelho de Andrade.

Como podemos compreender no encontro de Jesus com a pecadora, relatado acima, Deus Se abaixa até a nossa condição de pecadores, nos perdoa e nos eleva, para que vivamos na dignidade de filhos de Deus. Não fomos criados para a baixeza do pecado, mas para vivermos à altura da vida de Deus: “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra” (Colossenses 3,1-2).

Custa-nos muito assumirmos que a misericórdia é para nós uma necessidade, pois temos o desejo de sermos bons, de acertarmos, de nos convertermos definitivamente, mas queremos alcançar tudo isso sozinhos, por nós mesmos. Quando agimos assim, veladamente o que nos move é o espírito de soberba: queremos nos salvar sozinhos.

Como o apóstolo Paulo, sabemos que precisamos fazer o bem, mas cometemos o mal (cf. Romanos 7,15-26). Esse sempre será nosso conflito na luta que travamos em nosso processo de conversão; e aqui encontramos a chave que nos faz adentrar no mistério da misericórdia, ao nos perguntarmos, assim como Paulo: “Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte?” (vers. 24).

Somente Deus pode nos salvar. Somente Ele pode nos resgatar da nossa condição de fraqueza, de pecado, e a salvação se dá justamente no lugar do pecado.

Deus deseja vir até nós no lugar onde caímos, porque, nos conhecendo, sabe que não somos capazes de nos levantar e de sairmos sozinhos. Isso é compaixão!

Papa Francisco, nesse sentido, nos ensina que “descobrimos que precisamente aquele pecado, que nos mantinha distantes do Senhor, converte-se no lugar do encontro com Ele” (2018, Festa da Divina Misericórdia), pois “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Romanos 5,20).

Clamor de misericórdia

Se Deus se dispõe a vir até nós, resta-nos elevarmos nosso clamor a Ele e pedirmos como o cego de Jericó: “Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim” (cf. Marcos 10, 46-48).

Este clamor precisa ser algo constante, pois a misericórdia não é algo que precisamos somente quando pecamos, mas uma necessidade, como já falamos, que toca toda a nossa existência humana, pois somos fracos, limitados, dependentes de Deus. Assim, a ação misericordiosa do Senhor deve permear tudo o que vivemos, pois é ela que nos sustenta.

“A misericórdia de Deus é nossa libertação e nossa felicidade. Nós vivemos de misericórdia e não podemos permitir estar sem misericórdia: é o ar para respirar. Somos pobres demais para colocar condições, temos necessidade de perdoar, porque precisamos ser perdoados” (Papa Francisco, 18/03/2020, Audiência Geral).

Decida-se por não mais lutar sozinho. Assuma quem você é e se renda a Deus, que quer vir até onde você se encontra para resgatá-lo. Não se permita mais viver sem misericórdia. Deixe romper as condições que você mesmo se impôs e respire o ar da sua libertação e felicidade.

Se há muito tempo você se encontra distante, saiba que “existem almas que a Sua misericórdia não se cansa de esperar”, como bem compreendeu Santa Teresinha do Menino Jesus.

Deus espera por você!

Para que Ele venha, tenha coragem de gritar em seu coração: Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!

Edvandro Pinto
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

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