Formação Humana: Identidade e Comunhão

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Uma das necessidades mais básicas do homem é ter uma auto-identidade clara, reconhecer a própria individualidade. Ter uma identidade sólida e positiva é saber quem eu sou, conhecer o meu valor e o meu papel. Significa saber por que e para que eu existo. Significa descobrir qual é a finalidade da minha vida, não uma finalidade qualquer que eu possa lhe dar, mas a finalidade que está na sua origem. De forma consciente ou não, todos trazem em si a ânsia por essas descobertas.

Amedeo Cencini diz: “É absolutamente indispensável uma auto-identidade sólida e substancialmente positiva, sobre tudo para quem deseja anunciar uma mensagem de fé em Deus e no próprio homem” (1) Isso quer dizer que o cristão precisa ter uma identidade sólida e positiva para poder testemunhar a sua fé e anunciar Cristo.

Quando temos uma identidade confusa ou mal definida é sinal de que nos conhecemos pouco, o nosso autoconhecimento é baixo, o que põe em risco qualquer anúncio de Cristo, como também a pertença a uma comunidade cristã, seja a família, a paróquia ou um Carisma. A falta de clareza da própria identidade nos faz cair em incoerências, pois nos leva a viver fora da finalidade essencial da nossa vida e nos distancia do nosso verdadeiro valor. Isso muitas vezes dificulta uma realização mais profunda das nossas vidas.

A origem da nossa identidade está em Deus, que nos criou por amor. Ele é nossa origem e nosso fim último. É também nele que está a finalidade do nosso existir. Para encontrar a nossa verdadeira identidade é preciso aceitar essa verdade e em Deus acolher todos os traços com os quais Ele mesmo definiu a nossa identidade pessoal. Nós não existimos a partir de nós mesmos, não somos auto-suficientes em nossa existência, mas somos criaturas geradas e sustentadas por Deus; somos frutos de um desígnio amoroso de Deus, nossa vida não é governada pelo acaso.

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Deus é nosso Pai, o nosso Criador, por isso só Ele pode definir o valor e delinear cada traço que compõe a nossa identidade. Assim, a nossa identidade nos é dada por Deus com elementos precisos que nós não escolhemos. Por exemplo: nós não escolhemos nascer homem ou mulher; não escolhemos ser branco, pardo ou negro; não escolhemos ter cabelo liso ou enrolado, ou a cor dos nossos olhos; não escolhemos o nosso temperamento, nem nossa saúde; nem ter nascido no lugar (cidade, Estado, país) que nascemos ou na família em que nascemos etc. Alguns dados daquilo que somos foi Deus quem nos deu e fazem parte da nossa identidade.

Há quatro elementos em nossa identidade que contêm tudo aquilo que Deus escolheu para nós, ou seja, contêm aquilo que nem nossos pais, nem a sociedade ou a educação nos ofereceram, mas aquilo que Deus escolheu nos oferecer como identidade. Esses elementos são:

§             Filiação divina: Deus escolheu me criar porque me ama como Pai. Antes de me criar Ele primeiro me amou e me desejou, por isso me criou como filho à Sua imagem e semelhança para que eu pudesse participar da sua vida, do seu amor, da sua santidade.

§             Sexualidade: Quando Deus me criou, escolheu para mim uma sexualidade que está escrita e determinada no meu próprio corpo. Não sou eu que escolho a minha sexualidade. Quem nasceu com corpo de homem, é homem e tem a sexualidade masculina. Quem nasceu com corpo de mulher, é mulher e tem a sexualidade feminina.

§             Estado de vida: Deus imprime em nossa identidade o chamado a um estado de vida: matrimônio, celibato consagrado ou sacerdócio ministerial. O estado de vida é a maneira de viver e expressar o amor divino que Deus escolheu para nós.

§             Vocação: Deus escolheu algumas pessoas para viver um Carisma específico na Igreja. Este carisma é a identidade mais profunda da pessoa, pois revela aquilo que ela deve ser e testemunhar ao mundo.

Para vivermos a nossa autêntica identidade precisamos entender o significado de cada um desses elementos. Trataremos aqui apenas dos dois primeiros.

A filiação divina é o primeiro dado da nossa identidade. Mas o que autenticamente significa assumir a nossa identidade de filhos de Deus? Significa aceitar em toda profundidade de significado que fomos criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26). Não de um Deus solitário, mas um Deus que é Amor, que é Comunhão amorosa de Pessoas (Trindade). Um Deus que generosamente deu sua vida divina a nós acolhendo em si a nossa vida marcada pela morte e pelo pecado. Portanto, ser imagem e semelhança de Deus significa que a nossa verdade mais profunda é que fomos criados para amar como Ele e viver a comunhão com Ele e com todos os homens. Essa verdade dá ao homem um verdadeiro sentido e também um valor próprio. A maior e mais profunda realização da vida do homem está na vivência da plenitude do amor e da comunhão. Somos chamados a amar a Deus e ao próximo refletindo o próprio Amor da Trindade.

Poderíamos pensar que isso é impossível para a nossa humanidade ferida pelo pecado, mas pela graça do Batismo morremos com Cristo para o pecado e com Ele renascemos para a vida divina, pois Cristo, ao morrer e subir ao Pai elevou consigo a nossa humanidade. O Batismo nos insere no corpo místico de Cristo, a Igreja, para sermos filhos no Filho para a glória do Pai. Por este sacramento tomamos parte na redenção de Cristo e recebemos a vida do Espírito para vivermos plenamente a verdade de sermos filhos de Deus. Por essa graça do Espírito Santo podemos amar com o próprio amor divino que é semeado por Deus em nossos corações.

Para vivermos esse chamado, Deus, em seu plano de amor, nos marcou profundamente com o chamado de comunhão selando-o em nosso próprio corpo através da diferença sexual entre o homem e a mulher. A diferença sexual é principio de comunhão no homem, é dom de amor e para o amor, isto é, a diferença torna possível que a relação entre o homem e a mulher seja uma relação de amor e de complementaridade. Ela guarda em si o mistério da relação infinita de amor própria da Trindade que o homem é chamado a participar desde já em preparação para vida do Reino. Desde o início da criação, a união entre homem e mulher prefigura nosso destino eterno de união com Cristo. Homem e mulher foram criados como dom um para o outro. Nessa dimensão de comunhão, a união do homem e da mulher no amor vivida como dom de si ao outro, tende a ser uma expressão da caridade, ou seja, encontra sua força não apenas na natureza humana, mas na graça de Deus. Na comunhão de amor entre o homem e a mulher, consegue-se a síntese harmônica entre a dimensão espiritual e a corpórea do amor. Por isso a sexualidade é uma marca profunda na identidade do homem e da mulher.

É assumindo a plena verdade e significado da própria sexualidade como dom de amor e comunhão que o homem e a mulher podem entender o sentido da sua vida e existência como dom que tende a ser doado por amor. Através do chamado de comunhão inscrito em nossa sexualidade percebemos que, como homens e como mulheres, nós não nos bastamos, que não fomos feitos para vivermos isolados. Nós precisamos de alguém semelhante a nós para derramar o nosso dom, precisamos de um outro que nos faça sair de nós mesmos para transbordar nele o dom da nossa existência, ou seja precisamos de um outro que possamos amar. Foi essa a feliz descoberta de Adão que depois de não ter encontrado na criação nada que lhe correspondesse, exclama diante de Eva que acabara de ser criada: “Essa, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2,23), ou seja, Essa, sim, é alguém que posso amar.

A experiência de comunhão representa para os seres humanos a sua força e a sua plenitude. O homem que não conhece a comunhão, que não descobriu essa necessidade de amar é um homem solitário e triste. O chamado à comunhão marcado no próprio corpo do homem e da mulher, pela diferença sexual, expressa que todas as relações humanas devem ser vividas na comunhão, já que cada pessoa na sua individualidade é única e diferente da outra.

Enraizado no nosso chamado de amar e viver a comunhão, próprio da nossa sexualidade, está também o nosso estado de vida. Por isso um discernimento claro a esse respeito depende da descoberta da necessidade de amar e de fazer da própria vida um dom de amor ao outro.

Cada estado de vida traz um modo específico de viver o amor e a comunhão com Deus e com os homens aqui na terra, para nos conduzir à verdadeira e plena comunhão na eternidade. Uns são chamados a viver o amor e a comunhão no estado do matrimônio, outros, no celibato e outros, ainda, no sacerdócio ministerial.

Quando existir o chamado da vocação a um Carisma, é também a partir dessa descoberta da necessidade de amar e de viver o dom de si que a pessoa pode melhor compreender e responder a esse chamado. Hoje em dia, a nossa identidade de filhos de Deus, bem como a nossa sexualidade, sofrem diversos ataques a fim de destituí-las do seu verdadeiro significado. O inimigo de Deus investe fortemente para tentar destruir no homem a sua identidade de filho de Deus chamado ao amor e à comunhão através da sua sexualidade, pois sabe que essa é a melhor maneira de afastar o homem de Deus, do seu fim e da sua realização. Por isso o valor da vida humana, o sentido da sexualidade, a vivência do matrimônio e também da vocação celibatária e sacerdotal estão em crise no mundo.

Conhecer e assumir a nossa identidade nos levará cada vez mais àquilo que o Pai desejou e quis em seu desígnio amoroso e eterno quando pensou em nós e nos redimiu em Cristo. Nós precisamos assumir a nossa verdadeira identidade e vivermos de forma coerente com o nosso chamado de filhos de Deus, assumindo plenamente a nossa sexualidade, estado de vida e vocação para, com Cristo e em Cristo, anunciar ao mundo o verdadeiro valor e dignidade do homem destinado ao eterno encontro com Deus.

(1)     A. Cencini, “Amarás o Senhor teu Deus”, 1998, p 17.

Luciane Bidóia
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

5 COMENTÁRIOS

  1. Boa noite, Luciane, ja a algum tempo estou a procura deste livro de A.Cencini, porfavor vc poderia entrar em contato comigo, pois desejo muito a copia deste livro. e seu artigo me instigou mais a querer ler o livro. no mais obrigado.
    ATT> juliana

    • Oi Juliana, você pode encontrar o livro através de sebos que vendem pela internet. Entre no site do Estante Virtual http://www.estantevirtual.com.br (contém várias lojas cadastradas em todo país). Coloque o título e o autor na busca e aparecerá os livros disponíveis para comprar. Eu adquiro muitos livros assim, é barato e seguro.
      Se tiver alguma dificuldade de achar entre em contato comigo novamente.
      Espero que consiga.
      Fique com Deus,
      Luciane

  2. Ótimo artigo Deus nos fez sua imagem e semelhança temos uma dignidade diante do Senhor a nossa sexualidade é a marca de Deus ser um homem é um dom maravilhoso ser mulher é um dom maravilhoso o homem é forte tem em sua essência o a graça de cuidar e proteger a mulher é bela sensível tem doçura nossa sexualidade masculina e feminina nos fazem reproduzir a alegria de Deus pois ele disse o homem deixara pai e mãe e se unira a sua mulher e os dois formarão uma só carne o dom dos filhos. Isso também esta relacionado…. Graça e Paz…

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