Não se apegue a rotulos

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rótulos

Rótulos são apenas rótulos. São títulos distribuídos para definir ou trazer informação sobre algo ou alguma coisa, o que os torna, do ponto de vista moral, inofensivos. Em sua essência mais crua não são moralmente bons ou maus. Todavia, é notável como, a cada dia que passa, surge um novo tipo de rótulo para dividir as pessoas em categorias, como se aquilo fizesse parte da identidade mais profunda de cada uma delas. Dizem que é necessário, principalmente nos ambientes cristãos, pois quando você se encaixa em uma delas você cresceu em seu autoconhecimento. Isso não é de todo modo mentira, mas existe uma distorção que ocorre sutil e inconscientemente em cada um que faz com que, a então descoberta de si, torne-se na verdade uma prisão, ou seja, algo ruim.

Antigamente, os rótulos cresciam popularmente com os signos e a astrologia. Hoje em dia, temos uma infinidade de outras coisas. No ambiente cristão fala-se muito de temperamentos, linguagens de amor, e até mesmo de ministérios. Num futuro próximo, ainda ouviremos falar sobre os diferentes tipos de personalidades, abrangendo nossos defeitos e qualidades, ou seja, misérias e dons. É muito positivo que as pessoas se interessem cada dia mais por se conhecer melhor, pois é o autoconhecimento que nos faz entender o que precisamos para ser santos de maneira individual. Através do autoconhecimento, sei como amar com os dons que o Senhor me deu, e sei onde preciso crescer a partir das minhas misérias. 

O problema começa quando, ao me deparar com meu “eu atual”, eu me conformo com ele e o aceito como verdade absoluta e eterna em minha vida, como se jamais fosse capaz da mudança e crescimento. Esse pensamento é chamado determinismo, uma ideologia enraizada há muitos séculos no mundo e até mesmo em alguns segmentos protestantes. Quando permitimos que esses rótulos nos definam como se fossem parte da nossa essência, estamos nos aprisionando dentro deles, ferindo uma das coisas mais importantes que nos foi dada por Deus: a liberdade.

“É para que sejamos homens livres que Cristo nos libertou. Ficai, portanto, firmes e não vos submetais outra vez ao jugo da escravidão.” (Gal 5, 1). Rótulos, portanto, podem sim dizer algo sobre nós. Mas não fazem parte da nossa identidade. Quando nos apegamos a eles, estamos nos submetendo outra vez ao jugo da escravidão. Você que é colérico, não está preso à sua ira para sempre. Você, melancólico, também não está condenado ao seu pessimismo e introversão. Você, que porta o ministério de pregação, não está preso a fazer somente isso, assim como aquele irmão que porta o ministério de música também não está. Você, que se sente amado através de palavras, também pode começar a se sentir amado através de gestos. Para tudo isso, nos basta a graça do Espírito Santo.

 

O que é minha identidade, então?

Se os rótulos não te definem e fazem apenas parte do seu “eu atual”, servindo como ponto de partida para atingir o “eu ideal” (santidade), por outro lado existe sim algo imutável dentro de cada um de nós, aquilo que faz de você, você, e não algo abstrato vagando neste mundo. Chamamos isso de identidade. Nossa identidade nos é dada pelo Pai e é composta de quatro elementos: a filiação Divina (cf. Gen 1, 26), a sexualidade, o estado de vida (matrimônio, sacerdócio ministerial ou celibato consagrado) e a vocação espiritual (a um Carisma na Igreja).

A esses rótulos não há problema em se apegar, pois estes te foram dados pelo Senhor para que você descubra sua missão pessoal no mundo. O mundo hoje deseja impor outros milhões de rótulos que invalidam cada aspecto de sua identidade e do seu eu mais íntimo, pois é assim que o inimigo nos confunde e nos afasta de nossa missão. Por isso, precisamos da sabedoria em reconhecer aquilo que faz parte de nossa essência e aquilo que não faz, e assim podermos assumir nossa jornada de liberdade e santidade de maneira autêntica.

Giovana Cardoso
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator

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