Não seja estéril!

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Um dos maiores medos de toda pessoa é ter uma vida estéril. Não pense que a esterilidade diz respeito apenas à capacidade de gerar filhos biologicamente. Vai muito além! Segundo o dicionário, estéril é aquilo que nada produz, que não dá frutos, que não deixa marcas.

Existe um ditado popular que afirma que toda pessoa deve realizar três coisas antes de morrer: plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Não se assuste se você estiver longe destas “metas”, o importante é a moral que o ditado tem a ensinar, isto é: agregue algo ao mundo, faça algo pelos outros!

São Josemaría Escrivá deixou um conselho escrito neste mesmo sentido: “Que a tua vida não seja uma vida estéril. Sê útil. Deixa rasto. Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor” (Caminho, nº1).

Algumas pessoas têm uma ideia equivocada de que é orgulho querer fazer a diferença. Mas, muito pelo contrário: quem mais fez a diferença no mundo foram os santos – e todos eles desprezavam o orgulho.

OS FRUTOS SÃO PRODUZIDOS NOS QUE ESTÃO MAIS PRÓXIMOS

Porém, não se engane. Ser produtivo ou fértil não diz apenas respeito àquilo que se faz materialmente. Não é preciso criar um produto absolutamente novo ou ter uma ideia revolucionária para se considerar “alguém”. Em outras palavras, o que vale mais é o “ser” do que propriamente o “fazer”.

Vamos usar um exemplo. Santa Teresinha foi considerada pelo Papa São Pio X como a “maior santa dos tempos modernos”. Ela foi uma francesa que se tornou carmelita e morreu jovem, aos 24 anos.

Materialmente falando, Teresinha não fez empreendimentos enormes e notáveis, como a fundação de uma ordem, a construção de um lugar ou uma descoberta científica. Porém, ela foi uma luz irradiante para aqueles que viveram ao seu redor. Tocou a vida de todos, produziu sementes de santidade… A força da sua caridade continua convertendo pessoas até hoje! Teresinha é o contrário da pessoa estéril.

O QUE EU POSSO DAR AO MUNDO?

É provável que muitas pessoas se aflijam e pensem algo como “eu não tenho nada a oferecer” ou “minha vida não faz diferença”. Este é um equívoco enorme! Deus é extremamente criativo e fez dons inigualáveis para todas as pessoas.

Para que fique claro: você é irrepetível e possui um chamado específico que nenhuma outra pessoa é capaz de cumprir – nem as mais intelectuais ou talentosas que você conheça! Deus te deu uma vocação própria e existem marcas que só você pode deixar.

Não se trata apenas de uma reflexão motivacional, destas tão comuns atualmente. Trata-se de enaltecer uma verdade: a Palavra diz que nosso nome está gravado na palma das mãos de Deus (Is 49, 16). Diz, também, que ele sabe cada um dos nossos movimentos (Sl 138) e que contou cada fio de cabelo das nossas cabeças (Lc 12, 7).

Deus poderia fazer todas as coisas sozinho (afinal, Ele é Todo-Poderoso). Mas ele faz questão de contar conosco. Ele quis contar comigo para escrever este pequeno texto. Quer contar com você para algo que talvez você já saiba, talvez precise descobrir.

Existem feitos que ficam registrados na história com letras douradas: o homem que inventou o carro; a mulher que escalou o Everest; a criança que ganhou uma medalha olímpica… Coisas que passam na televisão e que às vezes ganham menções em livros didáticos.

Há outros feitos (a maioria) que estão registrados apenas no Livro da Vida e que estão reservados para a revelação do Juízo Final: o sacrifício de uma mãe para que o filho estude; a entrega do jovem, que se tornou um sacerdote; a paciência da professora, que ensinou o menino a escrever as primeiras palavras…

São José foi tudo, menos estéril, quando trabalhou silenciosamente na sua oficina em Nazaré, ensinando um ofício digno ao Filho de Deus. E nós, que “árvore” temos para plantar? Que “livro” temos a escrever.

O PERIGO DOS CONFORTOS ESTÉREIS

O mundo da pós-modernidade em que vivemos pode ser classificado como a “Era dos Confortos”. Antigamente, nossos avós precisavam se levantar da cadeira para ligar ou desligar a televisão. Hoje já é possível ter uma “casa inteligente” e programar para que o ar-condicionado já esteja funcionando ao chegarmos em casa, ou que a cafeteira ligue automaticamente quando me levanto da cama.

Do mesmo modo, posso assistir aos filmes que eu quiser sem me levantar do sofá. Até para comer um lanche ou fazer compras não preciso sair de casa – tudo é entregue diretamente na minha porta. E eu não estou dizendo que tudo isso é ruim, afinal, a tecnologia existe para servir ao bem das pessoas.

Porém, com toda a comodidade, vem um risco muito grande: o risco de querer se fechar em si mesmo. De fato, é mais confortável permanecer no meu sofá reclinável do que servir em uma pastoral da paróquia; é menos cansativo reclamar dos problemas que eu só conheço pela tela da televisão.

Se não queremos ser estéreis, precisamos aprender a ser “dom”. Ser “dom” é pensar nas necessidades dos outros antes do que na minha própria dor de dente. Ser “dom” é se colocar à disposição de pessoas que nunca poderão retribuir o favor. Mais ainda: é fazer um sacrifício escondido, onde o nosso nome não aparecerá e ninguém perceberá nada.

Para dar fruto, é preciso que nos entreguemos por inteiros. O próprio Filho de Deus nos ensinou isso com todas as letras: “Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só um grão de trigo; se morrer, produz muito fruto” (Jo 12, 24). Se eu não quero ser estéril, preciso estar disposto ao sacrifício – especialmente, ao sacrifício de uma vida de confortos fáceis e elogios.

É evidente que não é fácil (Jesus não disse que seria…). Mas é preciso que nos recordemos do que disse Tertuliano no início da Igreja, quando os cristãos eram mortos por causa da sua fé e, mesmo assim, a Igreja só crescia: “O sangue dos mártires é semente de novos cristãos”. Do mesmo modo, que o Espírito Santo nos sustente nesta caminhada, a fim de que nossos atos (por mais simples que sejam) produzam fruto de eternidade neste mundo.

Rafael Aguilar Libório
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

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