O perigo de andar na linha do precipício

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Diante das realidades quase distópicas que vivemos, há uma construção social configurada no maniqueísmo como forma de manter a sobrevivência, ou há um bem total ou há um mal, ou é a luz ou a treva – e muitas vezes tal acepção namora o radicalismo que pode cegar. No entanto, quando olhamos pela ótica da vida cristã e por uma autêntica busca pela santidade, essas antíteses são esclarecedoras, porque há a verdade e há a distorção. Dessa forma, bem sabemos que aquilo que vem do Pai pouco consegue dialogar hoje com o mecanismo e as escolhas do mundo, infelizmente são realidades quase paradoxais e há a necessidade de escolha. Ademais, há essa linha muito tênue entre verdade e distorção, linha fina e perigosa que se chama relativismo, e andar sobre ele é caminhar na linha do precipício. 

Dar um nome para a linha que pode nos derrubar na distorção nos arranca do abstrato e nos encarna, além desse nome relativismo se aplicar a todas realidades, idades, gêneros, etnias, tempo de caminhada com Deus, mais ou menos horas de oração e afins. Todos podem caminhar sobre ele e muitos estão a andar nesse arriscado caminho, porém contempla principalmente a realidade de muitos, inclusive desta que vos escreve, os jovens. Mas antes é preciso conhecer sobre essa linha, para saber então qual é todo esse perigo que intitula esse texto e qual o porquê desse termo tão bonitinho e conceitual ser responsável por tanto.

Verdade ou precipício 

Esse termo é tranquilamente encontrado nas aulas de filosofia e sociologia, e nelas está relacionado ao conceito de relativismo cultural, que tira o homem de uma visão etnocêntrica sobre outras realidades. No espectro filosófico o relativismo está dentro de correntes de pensamento mais céticas, e funciona como um instrumento para não aprisionar pontos de vista no absolutismo e soberania de uma verdade construída pelo homem. Sendo assim, não vamos nos apegar ao relativismo cultural e a essa subjetividade intelectual – ela pode ser a nossa linha tênue, mas não é o cerne que procuramos –, pois vamos olhar pelo antro principal que o cristianismo carrega: nós temos pela nossa fé uma Verdade Absoluta, e não uma verdade construída por filosofias humanas.

Há então o aspecto basilar, nós somos crentes e detentores de uma Verdade única, a Verdade Divina e perfeita que sobrepõe todo o logos humano, a Verdade que não está só no pensar, mas que abraça as nossas ações, escolhas, comportamentos, anseios, palavras, uma Verdade que é Verbo e que se encarnou. Crer e viver nessa Verdade com todo o coração, é estar muito longe do precipício, é andar no Amor, mas Deus em todo o Seu mistério de bondade nos dá a liberdade. E com ela, eu e você somos os únicos responsáveis por tornar ou não o “verus” absoluto em nossas vidas, ou eu e você somos os únicos responsáveis por relativizar e subjetivar essa verdade e cair na distorção. 

E isso acontece de forma muito sutil, percebe que nesse jogo paradoxal o antônimo de verdade muitas vezes não é a mentira, porque é uma palavra que nos assustaria muito, mas aos poucos vamos distorcendo a verdade em nós, aquilo que somos chamados a ser, a nossa identidade, o amor e a intimidade. Andar na tênue linha, fomentando o relativismo naquilo que agimos, pensamos e falamos, é distorcer a Verdade de Deus em nós, e ao nos depararmos já caímos há muito tempo nesse precipício. Às vezes a queda é muito feia e brusca, mas na maioria das realidades vamos nos conformando, caindo na indiferença, pecando de pouquinho em pouquinho e já há o fundo, pela nossa liberdade mergulhamos nas ocasiões de pecado que de longe, usando a lente do relativismo não são nada demais.

Óculos da Distorção

E com essa metáfora vamos exemplificar quais são os pensamentos que desencadeiam o relativismo, e as atitudes que o confirmam. Vou dar um testemunho sobre a forma que vivi por muitos anos da minha vida, mergulhada nesse relativismo e – mesmo que não achasse – caída no precipício, era extremamente acostumada a andar nessa linha e sentia que estava tudo bem. Nasci numa família muito católica e fui educada na Verdade de Cristo, mas passei quase toda a minha vida na liberdade de não a assumir como Absoluta e o relativismo foi se instaurando sutilmente. 

Não fui uma adolescente revoltada, nunca adentrei numa rebeldia comportamental e supunha que tinha uma ótima relação com Deus, me sentia muito espiritualizada e achava que estava tudo certo, não dava trabalho para os meus pais, não fazia nada de errado e não era irresponsável, estava ótimo. E sem perceber estava andando na linha do precipício e cambaleando para cair, o meu esquema de raciocínio era “já que eu não faço as coisas super nocivas e rebeldes que as pessoas da minha idade, qual o problema de…” e por aí foi, me deparei num ceticismo, em nós que eu mesma formei e num distanciamento muito concretizado com Deus. A minha liberdade foi andar nessa linha, e assim me perdi no absolutismo da verdade que eu criei para mim mesma. 

Eu era a senhora de mim e promovi a teoria da compensação, essa era a minha didática comigo, se não usava drogas, bebia, tinha uma sexualidade desregrada, qual era o problema de alimentar o orgulho, o julgamento, a superioridade, não rezar, eu já era tão comportadinha! E isso foi tão sutil, eu fui me enterrando sem nem perceber, fui negando a minha identidade e aquilo que Deus criou para mim por um apego a mim mesma. Me deparei com um sofrimento que não era chamada a ter e responsabilizava Deus por ele, quando na verdade era fruto da minha escolha e da minha liberdade. 

O perigo de andar na linha do precipício é a sutileza na qual vamos caminhando em direção a ela, e a queda e os erros são maquiados. Vamos nos conformando com esse lugar e ele não parece nocivo, mas já estamos mergulhados na frieza espiritual e no relativismo que nos coloca como senhores de nós mesmos. Esse é o caminho que nos vincula à distorção e a ausência da verdadeira felicidade. Precisamos ter uma determinada determinação por Deus e tomar verdadeiramente a decisão de trilhar um caminho não mais longe do precipício, mas já longe da linha da infelicidade e orgulho.

Ana Clara Gonçalves
Engajada da Comunidade Católica Pantokrator

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