O poder do Sangue de Jesus

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Tornou-se muito comum clamar o poder do Sangue de Jesus em nossas orações, tanto pessoal como comunitária. Invocamos constantemente esse Sangue Poderoso, pedimos sempre que o poder do Sangue de Jesus nos lave de todo pecado e proteja da tentação do inimigo.

Mas, um questionamento: clamamos porque cremos e conhecemos o que é verdadeiramente o poder do Sangue de Jesus, ou porque se tornou uma rotina em nossas orações? Entendemos profundamente o poder desse Sangue Redentor?

É sobre isso que queremos mergulhar nessa caminhada, desbravar esse caminho que está diretamente ligado à nossa vida espiritual, à nossa fé.

Iniciemos nossa caminhada: o caos

Em Gn 1,2, a Palavra de Deus nos diz: “A terra estava informe e vazia, as trevas cobriam o abismo”; é a descrição do caos. Tudo o que está fora de Deus está no caos; e no princípio era assim. Mas, quando Deus começa a agir na obra da Criação, Ele vai ordenando todas as coisas, harmonizando, dando sentido, função, separando umas das outras, dando identidade a cada coisa, tudo em um sincronismo perfeito. Já não é mais o caos; agora se torna Criação de Deus, Criação perfeita, pois Deus é perfeito (cf. Gn 1-3).

 A Glória de Deus

Assim como está a alma para nós, nosso princípio vital, sem ela não temos vida, assim está a Glória para Deus: ela é, podemos assim dizer, “o princípio vital de Deus”, e Ele não tem outra vida, senão a Sua Glória. A verdadeira Glória pertence só a Deus e Ele não divide com nenhum ídolo (cf. Is 42,8).

Lúcifer (significa portador da luz), quando foi criado, era o mais belo de todos os anjos, e Ele se encantou com sua própria beleza, “sua glória” e, na grande prova dos anjos (cf. Ap 12,7-9), ele liderou os que quiseram se rebelar contra o Criador, achando que uma vida fora do ‘domínio tirano’ de Deus seria mais feliz (cf. o livro “Tratado de Demonologia”, de José A. Fortea). Mas, ao perder a batalha, foi precipitado ao mais profundo abismo (cf. Is 14,15);   e ele, então, percebeu que a beleza que ele ostentava não pertencia a ele, mas sim ao Criador, e ele se torna a mais feia e aterrorizante criatura. A glória que estava nele era o reflexo da Glória do Criador. De certa forma, pela sua soberba e ambição, ele foi enganado.

E, assim, ele enganou nossos primeiros pais no Paraíso (cf. Gn 3,1-7). A fruta que estava na árvore do centro do Jardim era muito bela, muito agradável ao paladar; era a árvore da ciência do bem e do mal, exclusiva a Deus; mas o Demônio seduziu nossos primeiros pais e os tornou ávidos pela glória e pelo poder, “pois sereis como deuses”; e eles comeram, enganados pelo Demônio, mas perceberam que nela também não estava a Glória de Deus em sua essência, mas era também o reflexo da Glória como era em Lúcifer, e aí perderam a fagulha da Glória que estava neles na explosão de amor da obra da Criação. Feridos pelo pecado da desobediência, foram expulsos do Jardim do Éden.

A Parábola do Filho pródigo relata com perfeição tudo isso: o filho mais novo representa nossos primeiros pais que estavam na casa do Pai e usufruíam da sua riqueza, mas, ávidos de autonomia da riqueza (glória), pedem a parte que lhes toca, “o fruto da árvore do centro do jardim” e partem. E, como não tinham a verdadeira glória, tudo se vai dissolutamente e eles se encontram em uma dignidade menor que a dos porcos, animal rejeitado pelos judeus como impuro. O homem, assim, volta ao caos, está fora do ordenamento de Deus, do Criador.

Deus não abandona a obra de Suas Mãos, por isso nos envia seu Filho único para nos salvar

O Verbo Eterno, ao Se encarnar, toma em Seu Corpo o Sangue, a vida do homem, unida à Sua vida divina: é a união hipostática. Em uma explicação simplória, Jesus é 100% Deus e 100% homem, duas naturezas unidas em uma Pessoa (a Igreja confessa assim que Jesus é inseparavelmente verdadeiro Deus e verdadeiro homem, como lemos no Catecismo, parágrafo 469). Para isso, o Verbo precisa Se encarnar em um corpo puríssimo, livre do pecado, por isso, na Virgem Maria foi adiantada a obra da Redenção.

Para nos criar, Deus precisou de uma fagulha de sua Glória. A Criação foi a “explosão da Glória” de Deus, que sustenta todo o criado. Para nos salvar, também precisaria, conforme lemos no prólogo de São João: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua Glória, a Glória que o Filho único recebe de seu Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14), não toda a Glória (cf. Fl 2), mas também uma fagulha de sua Glória, podemos assim dizer, pois o próprio Jesus depois vai nos dizer: “Pai, concede-me junto de ti a Glória que tive antes da criação do mundo”. Só junto do Pai Ele tem novamente a plenitude da Glória.

A Redenção

O mundo jazia sob o Maligno, vimos isso quando Jesus é tentando no deserto e Satanás lhe faz três propostas, mas vamos nos ater a esta: “O Demônio transportou Jesus a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua glória e lhe disse: ‘Dar-te ei tudo isso se, prostrando-te diante de mim, me adorares’. Respondeu-lhe Jesus: ‘Para trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus. E só a Ele servirás (Dt 6,13)’ ”(Mt 4,8-10). É a velha tática de Satanás, mostrando a Jesus a “glória” do mundo, mas não funcionou.

É muito interessante perceber que em todo o Evangelho Jesus também vai fazendo uma proposta a Satanás. Na sua pedagogia da vida pública e na “guerra das ideias” que eles vão travando, Jesus oferece sua vida pelo mundo, o que é prontamente aceita por Satanás, e o cume dessa proposta está na entrega de Jesus por Judas. Importante ressaltar que Jesus se entrega livremente; Judas é apenas o meio.

Em forma de fábula, isso é descrito no Livro de C. S. Lewis, “O Leão, a feiticeira e o guarda roupa”, quando o leão oferece sua vida em troca da vida de Edmundo. O leão é a figura de Jesus e Edmundo é a figura da Humanidade.

Jesus não aceitou a proposta feita por Satanás na tentação do deserto, mas o contrário foi aceito por Satanás e novamente ele é traído por sua ambição e soberba. Como sempre, os soberbos e ambiciosos falham, pois creem nas suas forças.

Detalhando a Redenção em três mistérios: Resgate, Justificação e Reconciliação.

A Escritura nos diz que que fomos resgatados a preço de sangue, pelo Precioso Sangue de Jesus (cf. 1Pd 1,18). O Sangue Precioso de Jesus foi a paga, por isso foi todo derramado por nós. Jesus oferece algo muito caro para nos resgatar e aqui está a grande jogada: Jesus ao morrer na Cruz, oferece, dá Sua vida, dá Sua Glória e aí Ele, com Sua sabedoria, derrota o Demônio (cf. Cl 2,13-16). Jesus o expôs ao ridículo, triunfando dele pela Cruz.

No livro de C.S. Lewis acima citado, ele coloca de maneira extraordinária essa situação: “Explico: a feiticeira (figura de Satanás) pode conhecer a magia (a palavra magia aqui é no sentido de fábula, não de crença) profunda, mas não sabe que há outra ainda mais profunda. O que ela sabe não vai além da aurora do tempo. Mas, se tivesse sido capaz de ver um pouco mais longe, de penetrar na escuridão e no silêncio que reinam antes da aurora do tempo, teria aprendido outro sortilégio”.

O que seria esse saber além da aurora do tempo? Ou seja, do que é temporal? É adentrar na vida do Pai que só Jesus tem, “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). É desvelar a misericórdia de Deus, ainda velada, cantada nos Salmos, pré-anunciada na luta de Jacó com o Anjo (cf. Gn 32,24ss), quando Deus Se deixa “vencer” pelo criado, anunciada publicamente por Jesus na Parábola do Filho Pródigo e consumada no alto da Cruz. A plenitude da misericórdia, até então velada, é plenamente manifestada.

Jesus na Cruz, na noite do caos, toma sobe Si nossas enfermidades (cf. Is 53,4), e era necessário fazer isso, para que nós pudéssemos suportar a Sua Redenção, senão ela seria um remédio forte demais que nos aniquilaria devido ao pecado. Cada ferida no Corpo Santo de Jesus foi causada pelos nossos pecados, é como que se fôssemos atirando sobre ele todos nossos pecados, e Jesus vai absorvendo tudo, purificando nosso caos em Seu Corpo Santíssimo e puríssimo que, terrivelmente ferido, depois jorra como sangue e água de Seu Coração transpassado… dele jorra a Humanidade redimida.

E aí está o segredo de tudo, no Sangue Precioso de Jesus; ali está a Sua Glória, Glória na qual o inimigo não tem participação, pois ele abdicou com decisão definitiva e irresoluta, de uma vez por todas. Por isso ficou impossível para ele receber o “prêmio” oferecido por Jesus em nossa troca (ele não entende da magia mais profunda, que é a gloriosa misericórdia). Fomos comprados, resgatados pelo Seu Sangue.

E só isso não basta: Jesus também nos justificou, ou seja, Ele Se fez justiça de Deus pelos nossos crimes, a paga desses crimes, a sentença que nos condenava, Ele aboliu ao encravá-la na Cruz (cf. Cl ,14). E pela Sua ressurreição Ele nos reconciliou com o Pai, abriu caminho para que pudéssemos voltar à Casa Paterna.

O Sacrifício Recapitulador

Na vocação El Shaddai-Pantokrator, é muito caro para nós o tema do Sacrifício Recapitulador. E o que vem a ser isso?

Veja que o Sangue de Jesus na Cruz vai caindo na terra, o homem veio do pó e esse Sangue Poderoso vai reordenando todo criado ferido pelo pecado. Porque a Redenção não é uma obra isolada, como se Deus abandonasse a primeira; é, na verdade, a restauração da Criação ferida pelo caos do pecado. O pecado não tem o poder de tirar a perfeição do criado, ele é capaz apenas de ferir, tirar seu brilho e não a sua essência.  Um exemplo simplório: uma obra de arte, um quadro belíssimo, se jogarmos sobre ele um copo de tinta, iremos encobrir a sua beleza e perfeição, mas a beleza e perfeição ainda estão lá, basta um restaurador remover essa tinta que não faz parte da essência da obra e ela volta ao seu original.

Só nós, obra-prima do Criador, somos dignos o Sangue de Jesus e de todo Seu poder libertador e salvador. Clamemos com toda autoridade sobre nós porque, ao tomar sobre Si nossas dores, Jesus nos fez dignos desse Sangue; é ele é com certeza para nós cobertura e proteção.

Assim é a obra do Sacrifício Recapitulador: ele reordena todo criado novamente, mostrando-nos que a obra de Deus é perfeita, capaz se ser restaurada e, mais ainda, ela pode ser elevada, pois a obra da Redenção é superior à Criação, como nos ensina nossa doutrina. Vemos isso na Parábola do filho pródigo, que volta para casa e o pai continua rico, em nada empobreceu; e o filho perdoado tem sua condição elevada em relação à primeira, ele se torna sacerdote com vestes novas, também profeta com as sandálias aos pés e, por fim, rei com anel nos dedos (cf. 1Pd 2,9).

O Sangue de Jesus é o penhor da vitória de Jesus em nosso favor na Cruz. Nós, sim, herdeiros que somos da Glória de Deus, somos merecedores desse glorioso Sangue. É vida de Deus que jorra em favor do criado, é Redenção, é Recapitulação, é Libertação.

Elias Gobbi
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

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