O que faz um missionário?

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Em primeiro lugar, é importante elucidar “quem é o missionário”. Missionário é a pessoa enviada por alguém a realizar algo específico. Para nós cristãos, o missionário é aquele enviado por Deus a anunciar o evangelho a toda criatura. Essa é a missão de todo batizado. No entanto, como eu disse, esse chamado é específico, ou seja, embora todos nós, cristãos, devemos ser missionários, alguns recebem o apelo para viver de forma mais intensa o mesmo chamado.

“A origem primeira de toda missão está no Pai. O missionário é aquele que escuta a voz de Deus em seu íntimo, de tal forma, a atingir as paredes de seu coração. Se esse coração está vazio de si e do mundo, esse som irá ressoar dentro de si, ganhando uma tal força a impulsioná-lo para a missão de, simplesmente, deixar ecoar a voz de Deus no mundo. (…). A missão, assim, é uma reação à ação de Deus no coração do homem.” (doc de Missão da Comunidade Pantokrator)

Segue-me!

É desse modo que vemos nos evangelhos Jesus “convocar” os seus escolhidos. Imediatamente, ouvindo essa voz ressoar dentro de si, eles se levantam e O seguem, deixando para trás suas famílias, seus sonhos, a vida profissional, e tantas outras coisas em favor de uma necessidade. Necessidade de quem? De Deus? Não! “…o Ser divino é absoluto e basta em Si mesmo. Tal necessidade é de Deus através de Seus filhos, que podem apresentar carências de ordem material, espiritual, humana, etc. O apóstolo Paulo nos diz: “evangelizar para mim não é motivo de orgulho, é uma necessidade que se me impõe. Ai de mim se eu não anunciar o evangelho.” I Cor 9,16. “Missionário é aquele que olha o mundo com o coração do Pai e o olhar de Cristo.” Esses são os missionários chamados a renunciar tudo e viver, exclusivamente, ao serviço de Deus.

Essa forma “mais intensa” de se colocar à disposição de Deus pode, em um primeiro momento, gerar desconfiança, incompreensão ou até mesmo algum tipo de preconceito. Como se a pessoa que doa a sua vida para servir a Deus fosse alguém que não quisesse trabalhar, estudar; alguém que não quer ter compromisso, quer ficar vivendo “às custas dos outros”. Mas um verdadeiro chamado vai muito além: “Deus está na origem da missão, muito mais do que como aquele que ordena como aquele que impulsiona, entusiasma (etimologicamente entusiasmo = ação de Deus dentro). A força do missionário está em uma fé viva que nasce do encontro pessoal com Deus: “Não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido”. At 4,20

Quando Jesus envia os apóstolos à missão, Ele os orienta: “Não leveis coisa alguma para o caminho, nem bordão, nem mochila, nem pão, nem dinheiro, nem tenhais duas túnicas.” Lc 9,3. Desse modo, o missionário é chamado a viver o desapego das coisas materiais, porque o essencial lhe será dado. Deus tudo providenciará! Eles podem se entregar totalmente à obra de Deus confiantes de que o Senhor os guiará e os sustentará. E é isso que faz do missionário um grande exemplo para nós de abandono sob o olhar providente e amoroso do Pai. O próprio Jesus nos diz: “Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.” Mt 6,31-34

O missionário é gente como a gente

Pode parecer que o “missionário” é alguém diferente de nós, que vive outra realidade ou algo assim. Na verdade, o missionário é alguém comum, com seus desafios, suas imperfeições, suas rotinas, suas alegrias, suas conquistas. É alguém que luta dia a dia para viver o seu chamado, para conquistar os seus objetivos, para amadurecer e crescer na fé, na esperança e na caridade. E isso nos torna um só: o desejo de ser de Deus. O nosso objetivo é o mesmo, porém, o caminho para atingi-lo é diferente.

Não quero dizer que um caminho é melhor ou pior que o outro: eu acredito que eles se completam. Enquanto o missionário, com aquele apelo mais específico e intenso, coloca toda a sua vida ao serviço de Deus, tendo a graça de doar-se todo ao Senhor, nós, também “missionários”, que, além de sermos chamados a anunciar a Boa Nova ainda temos o compromisso com o trabalho, a família… e tudo o que implica o estar e viver no mundo. Devemos olhar para eles com um olhar de alegria, de incentivo e de caridade. Pois, se eles não renunciassem suas próprias vidas para servir a Deus e anunciar Sua Bondade e Seu Amor Incondicional, quem o faria? Estaríamos todos mergulhados em nossas vidas, em nossa falta de tempo, nosso individualismo, hedonismo e a Boa Nova não chegaria a todos os povos, à toda criatura como nos pede Jesus: “Ide por todo o mundo e anunciai o evangelho a toda criatura.” Mc 16,15

Convido você, caso ainda não conheça essa realidade, a aproximar-se de um missionário, alguém que largou tudo por amor a Deus e ao próximo e escutar seu testemunho, sua experiência do doar-se em favor do Reino. Tenho certeza que seu olhar e sua vida ganharão um novo sentido e um novo entusiasmo.

Vanessa Cícera S. Ramos
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator

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