O que te assombra?

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Quais os seus medos? O que te assombra? Suas lembranças, seu passado, sentimentos? Muitas pessoas vivem presas ao passado por medo de mais sofrimentos, não se sentem capazes de enfrentar a si mesmas e se libertarem. São tantas situações vividas, feridas, traumas que as deixam desconfortáveis e controlam suas vidas.

Na verdade, o passado nos assombra quando existem conflitos, sentimentos reprimidos que muitas vezes se expressam através dos sonhos, angústia, doenças físicas e até psíquicas. Relacionamentos amorosos, familiares, coisas que as pessoas falaram sobre nós e nos causaram dor: “ela é feia”, “não era pra ter nascido”, “você não presta pra nada”. Tudo isso gera em nós muitas feridas, sentimentos que ficam guardados em nosso inconsciente e nos assombram; quando menos percebemos, a lembrança está ali presente, nos fazendo sofrer.

É preciso que voltemos nosso olhar para Deus e não mais para essas situações ou pessoas que nos fizeram sofrer. Adentrar em um processo de cura interior, que nada mais é que deixar o Senhor adentrar nossa história. Quando revivemos nossos traumas com Deus, que derrama seu amor em nossos corações, somos curados; cura interior é justamente isso.

Uma prática essencial nesse processo de cura interior é o perdão: perdoar as pessoas que nos fizeram sofrer, assim como a nós mesmos e muitas vezes até o próprio Deus; abandonar todos os sentimentos de ódio, mágoa, rejeição, e tomar posse da própria vida, que antes estavam nas mãos de outros, afinal, quem os sente são os mais prejudicados.

É preciso voltar a Deus o olhar, entregar-se ao seu amor para ser liberto, restaurado em todo o ser, para viver todo o potencial da nossa vida. É um processo de sarar as feridas da alma, causadas por fatos ruins do nosso passado, mas que não têm o poder de determinar a nossa vida.

Não há quem conheça a história de Santa Teresinha do Menino Jesus e não se encante com sua vida, seu testemunho que nos impulsiona a buscar a santidade. No entanto, o que poucos sabem é que ela viveu situações muito difíceis em sua vida. Nasceu frágil e foi cuidada nos primeiros meses de vida por uma ama de leite, pois sua mãe não podia amamentá-la. Depois voltou para sua mãe, mas quando Teresa tinha apenas 4 anos, sua mãe faleceu de câncer e seu pai mudou-se com as outras 4 filhas para outra cidade.

Com uma personalidade frágil e delicada, após a morte da mãe, ela “elege” a irmã mais velha, Paulina, como mãe, mas ela logo ingressa no Carmelo e, mais uma vez, Teresa se sente abandonada por essa presença materna, sem contar as humilhações que sofreu no colégio, que a fizeram interromper os estudos e ter ensino em casa.

O sofrimento a assombra. Teresa adoece seriamente, tem febre alta, alucinações. No seu livro, História de uma alma, ela conta que sofria de uma doença que a deixava de cama, sem forças, nem vontade de fazer nada, uma doença que naquela época era um mistério, não se sabia de onde vinha. Ela conta como foi curada em seus escritos:

“Dia 13 de maio de 1883, festa de Pentecostes. Do leito, virei meu olhar para a imagem de Nossa Senhora, e, de repente, a Santíssima Virgem apareceu-me bonita, tão bonita que nunca vira algo semelhante. Seu rosto exalava uma bondade e uma ternura inefáveis, mas o que calou fundo em minha alma foi o ‘sorriso encantador da Santíssima Virgem’. Todas as minhas penas se foram naquele momento, duas grossas lágrimas jorraram das minhas pálpebras e rolaram pelo meu rosto. Eram lágrimas de pura alegria… Ah! pensei, a Santíssima Virgem sorriu para mim, estou feliz… (…) Fora por causa dela, das suas intensas orações, que eu tivera a graça do sorriso da Rainha do Céu…”

Se Santa Teresa acabou tão bem, por que estamos tão preocupados?

Outubro é o mês do santo rosário. Nossa Senhora nos faz um convite para que, a cada novo dia, possamos refletir sobre os mistérios de Cristo, acompanhando na meditação e no silêncio da oração contemplativa os mistérios de sua paixão, morte e ressurreição. Rezando o rosário, unimos nosso sofrimento ao de Cristo, com a Virgem Santíssima e toda a Igreja, inclusive Santa Teresinha, que, por tudo que viveu, pode interceder por nós do céu.

Nenhum mal nos assombra mais, porque estamos unidos a Jesus que nos cura por suas chagas. O sangue e a água que jorram do lado aberto de Cristo nos lavam, nos curam e nos saciam. O Senhor nos salva em nossas dores, visita nossa história e restaura-nos, devolvendo o sentido da nossa vida, nossa esperança; nos dá coragem para vivermos sem o medo que outrora nos assolava.

Peçamos à Virgem Santíssima que interceda por nós nesse processo de cura interior. Que ela venha sorrir para nós como sorriu para Santa Teresinha. Nossa história não mais será lugar de traumas, medos e sofrimentos, mas lugar de louvor e gratidão a Deus por seu amor poderoso que nos faz livres e felizes.

Vanessa Ozelin de Oliveira
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator

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