Otimismo

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“O Reino dos Céus é semelhante ao homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo e semeou o joio no meio do trigo e foi-se embora. Quando o trigo cresceu e começou a granar, apareceu também o joio. Os servos do proprietário foram procurá-lo e lhe disseram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Como está cheio de joio?’ Ao que este respondeu: ‘Um inimigo é que fez isso’. Os servos perguntaram-lhe: ‘Queres, então, que vamos arrancá-lo?’ Ele respondeu: ‘Não, para não acontecer que, ao arrancar o joio, com ele arranqueis também o trigo. Deixai-os crescer juntos até a colheita. No tempo da colheita, direi aos ceifeiros: Arrancai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado; quanto ao trigo, recolhei-o no meu celeiro’” (Mt 13, 24-30).

Ao lermos esse texto do Evangelho segundo Mateus e fazermos um paralelo com o tema que vamos desenvolver, podemos talvez nos perguntar: “O que é que isso tem a ver com otimismo?” Aparentemente nada, pois para muitos trará uma visão sombria, pessimista, já que fala da realidade do mal coexistindo e crescendo com o bem. Contudo, esse texto é um bom teste para analisarmos como nós enxergamos os fatos e as realidades da nossa vida e do mundo. O papa João Paulo II, no seu livro “Memória e Identidade”, ao comentar esse texto, mostra-nos uma visão que é exatamente o contrário desta: “Na realidade, a parábola pode ser tomada como chave de leitura para toda a história do homem. Com diverso sentido nas várias épocas, o trigo cresce juntamente com o joio e vice-versa, o joio com o trigo. A história da humanidade é o palco da coexistência do bem com o mal. Isso significa que se o mal existe ao lado do bem, também o bem persevera ao lado do mal e cresce” (1).

Repetindo, o bem cresce. E por que será que damos menos importância a essa realidade? Mais uma vez: O bem persevera; e cresce. E como Jesus nos prometeu, no final vencerá! Mesmo assim, muitas vezes temos uma tendência negativista, de hipervalorizar o mal; e isso nos leva a encararmos nossas vidas de uma forma um tanto quanto sombria.

É interessante percebermos que uma mesma situação, vivenciada por pessoas diferentes, pode fazer com que elas experimentem sentimentos e tenham atitudes totalmente diferentes, até contrárias entre si. Por exemplo, uma doença grave ou uma dificuldade econômica. Para algumas pessoas, tais situações vão conduzi-las ao desespero, e até mesmo a revoltar-se e a brigar com Deus, enquanto para outras, serão ocasiões de experimentar um maior abandono e uma mais íntima proximidade com Deus. Por quê? “O mesmo fato adquire uma relevância bem diferente segundo um ou outro parâmetros mentais que parecem condicionar a vida humana: o otimismo e o pessimismo” (2).

O otimismo e o pessimismo são, portanto, duas atitudes fundamentais e opostas que acabam determinando a forma como encaramos as diversas realidades e situações da nossa vida. Essas duas atitudes são tão importantes que acabam fazendo com que joguemos luz ou trevas, vida ou morte sobre o nosso passado, o nosso presente e o nosso futuro. Para o pessimista, uma lembrança negativa ou um fracasso ocorrido no passado pode se tornar uma eterna fonte de amargura, de lamentação, de depressão, de não aceitação do que aconteceu. Já para o otimista o passado vem a ser um mestre, uma fonte de aprendizado, de amadurecimento, e até um impulso e um desejo de no futuro acertar mais e errar menos. O futuro, para o pessimista, é algo sombrio, “um campo minado”, marcado pelas incertezas, pelo medo, pela apreensão pela desconfiança, enquanto para o otimista o futuro é um terreno à espera de realizações, de felicidade, de um caminhar decidido rumo à vitória final que o aguarda, mesmo que perca uma ou outra batalha. O presente, para o pessimista, pode também ser marcado pela insegurança e pelo medo, marcado por uma constante tensão, “regido” por aquela famosa lei de Murphy, que muitos tratam como uma piada, mas que tem gerado muitas neuroses: “Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível”. O otimista, por sua vez, vive no abandono e na confiança, aprende a educar nossa memória para que esta não fique buscando coisas no passado para lamentar-se, e domando a sua imaginação, “a louca da casa”, para que ela não fique criando pré-ocupações em relação ao futuro. “A cada dia basta o seu cuidado” (Mt 6,34).

Mas, o que leva uma pessoa a ser otimista ou pessimista? Qual a característica principal que os diferencia? “Nós não podemos mudar os fatos. Mas podemos mudar as atitudes. É a atitude que filtra a realidade: o pessimista absorve o negativo: o otimista, na alquimia do seu espírito, transforma o chumbo em ouro. Para nós, há um filtro que purifica e clareia todas as intrincadas circunstâncias da vida: a Fé (2).”

Comecemos, então, pela fonte do pessimismo. “A filosofia inerente ao pessimismo é a falta de fé. Essa afirmação poderá parecer excessivamente radical e absoluta.

Mas se aprofundarmos nos diversos matizes do pessimismo – partindo da simples inquietação até chegar ao desespero, passando pela depressão e pela ansiedade – veremos que, no fundo, está sempre presente, de uma maneira mais ou menos profunda, um afastamento de Deus” (2). Basta lermos os escritos de Friedrich Nietzsche, pai do niilismo, que declarou a “morte de Deus” (ele, por sinal morreu louco e doente), e de uma de suas “crias”, Jean-Paul Sartre, ambos ateus e principais influenciadores do ateísmo moderno, para percebermos o quanto suas vidas e suas obras estão marcadas pelo pessimismo, pelas sombras, pela tristeza, chegando Sartre a chamar sua própria vida de um absurdo, uma experiência nauseante, afirmando que “o homem é uma paixão inútil”. Jean Cau, discípulo de Sartre, resume bem essa filosofia: “Se Deus não existe, não te vejo apenas perdido, meu amigo, meu semelhante e meu próximo. Se Deus não existe, tu, meu amigo, meu semelhante e meu próximo, és para mim uma porcaria (…); não passas, homem, de um pobre excremento que fala”. Mas não precisamos ser ateus para sermos pessimistas. Como diz D. Rafael L. Cifuentes, basta sermos “um pouco ateus, basta que a fé não seja plena”.

Portanto, meu caro irmão, se sua vida está marcada pelo pessimismo, pela depressão, pela lamentação, infelizmente aí está o seu diagnóstico (ou pelo menos parte dele): você sofre de falta de fé. “Para alçar vôo por cima dos momentos penosos da existência, a fé tem que ter uma qualidade indispensável: a plenitude. Ser cristão exige coerência: ou se é ou não se é. (…) O meio-termo morno – uma fé pela metade – traz também consigo uma meia-segurança, uma meia-serenidade e um meio-otimismo, isto é, um estado crepuscular, um pouco de luz entre as sombras, tão propício para que se manifestem os fantasmas do pessimismo. Há muitos cristãos pessimistas porque há muitos cristãos mornos, tíbios.
Na realidade, há uma relação inversamente proporcional entre a fé e o pessimismo: mais pessimismo, menos fé; mais fé, menos pessimismo” (2).

A fonte do otimismo, portanto, como já dissemos, é a Fé. “Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8,28). Se verdadeiramente acreditamos nisso que Paulo nos diz, se confiamos no amor de Deus, como não sermos otimistas, mesmo passando por uma situação adversa em nossa vida? “Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que o esquecesse… Eu não te esquecerei nunca” (Is 49, 15-16). Somos verdadeiramente filhos de Deus. Se essas palavras são realmente verdade para nós, se acreditamos que Deus é bom, que Ele é fiel, que Ele é o todo-poderoso, como não enfrentarmos as contrariedades que a vida nos apresenta com bom humor, alegria, otimismo e espírito de louvor? Como diz um ditado popular: “Se a vida lhe deu um limão, faça uma limonada”. Ou ainda: “Com a mesma uva se faz o vinho e o vinagre.”

No entanto, precisamos ter muito cuidado para que o otimismo não se transforme num “providencialismo” (algo muito diferente de viver da providência de Deus), achando que basta fazermos “pensamento positivo”, e esperarmos “de braços cruzados e de papo para o ar”, achando que tudo dará certo, ao nosso favor e do jeito que queremos. É preciso lutar. Com entusiasmo. É preciso orar, aumentar a nossa fé, descobrir a vontade de Deus nas diversas situações, tentar olhar para as situações com o mesmo olhar com que Deus olha. “O otimismo cristão não é um otimismo meloso, tampouco uma confiança humana em que tudo dará certo. É um otimismo que mergulha as suas raízes na consciência da liberdade e na certeza do poder da graça; um otimismo que nos leva a ser exigentes com nós mesmos, a nos esforçar por corresponder em cada instante às chamadas de Deus” (3).

E, se nas dificuldades e tempestades da nossa vida viermos a fraquejar, se vierem a faltar a paz e fé, (como provavelmente acontecerá com todos nós, em maior ou menor grau), se o pessimismo, a angústia e o medo vierem nos assolar, que tenhamos a humildade de gritar, como os apóstolos no lago de Tiberíades, quando uma tempestade atacou o barco em que estavam: “Senhor,salva-nos, estamos perecendo.” E Jesus, dormindo tranqüilo, após ser importunado por ele responde a eles (e também a nós): “Por que tendes medo, homens fracos na fé?” (Mt, 8, 23-27).

(1) JOÃO PAULO II, “Memória e Identidade”, 2005. Objetiva.
(2) R. L. CIFUENTES, “Otimismo”, Quadrante.
(3) F. FAUS, “Otimismo Cristão Hoje”, 2008. Quadrante.

Ricardo Bidóia
Consagrado na Comunidade Católica Pantokrator

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