Profeta Elias: Um itinerário de vida espiritual

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Profeta

Em nossa caminhada espiritual, padecemos muitas vezes da estagnação, em outras situações de estarmos sem direção, e em muitos casos de um esfriamento. Isso tudo acontece por falta de traçarmos em nossa vida um itinerário objetivo. Sem esse itinerário, ficamos sem a bússola que nos indica o objetivo final, o céu, o transcendente. Por tudo isso, o Profeta Elias é um personagem bíblico que tem um itinerário bem definido e muito rico para ser explorado.

Profeta Elias é o inspirador da Ordem dos Carmelitas, mas pode com certeza inspirar muitas outras comunidades religiosas, movimentos e ser um itinerário de santificação. Vamos pegar somente parte de sua vida e tentar definir um caminho bem claro que seja útil para nosso enriquecimento espiritual e santificação.

Um texto extraordinário do Profeta é com certeza o relato da vitória sobre os profetas de Baal, um ídolo, quando Elias clama fogo do céu e Deus responde manifestando assim ser Ele o Deus vivo e verdadeiro (I Rei 18). A fé de Elias é muito inspiradora e a partir deste episódio vamos começar nosso caminho.

Essa experiência de Elias nos remete em muito às nossas experiências, ainda que manifestadas de outras maneiras, ou o desejo que temos de imitá-lo. Quantas vezes que de maneira diferente fizemos grande experiência de Deus em nossa vida, revelando seu amor, sua vitória em muitas situações? É um marco na conversão de todos fazer uma experiência do amor poderoso de Deus, mas ao mesmo tempo não basta só essa experiência, ficar estagnados nela, vivendo de um saudosismo. Aí está o grande mal de quem não tem um itinerário definido, que é capaz de permitir o mover de Deus para desafios maiores.

Elias, após essa vitória extraordinária, precisa fugir da perseguição da Rainha Jezabe, adoradora de Baal. Foge para o deserto (cf I Rei 19). Aí podemos perguntar: Onde está o Deus que o atendeu pelo fogo? Posso te responder que está muito mais presente nesse momento desafiador, e é aí que entra nossa cegueira espiritual, achamos que temos que viver só de coisas boas, de grandes manifestações de Deus.

Purificação e autoconhecimento

Essa grande manifestação nos mostra quem é Deus, isso fica muito claro, mas você já se perguntou quem é você? Santa Terezinha diz que ela é aquilo que Deus pensa dela. Mas o que isso significa para nós?

Para entendermos precisamos de purificação e do autoconhecimento, e o Profeta teve que passar por isso. Com a perseguição, ele é obrigado a fugir, se desinstalar e ir para o deserto onde tem o desejo de morte. E olha que interessante: quando vemos a manifestação poderosa de Deus ficamos maravilhados, mas quando começamos a enxergar o que verdadeiramente somos, nossas misérias, nosso nada, temos o desejo de morte, porque esse é o fruto do pecado em nossas vidas.

O fracasso

Por que nos é tão necessário passar pelo fracasso? Ele está presente em todos os personagens bíblicos, em uns de maneira mais clara e em outros de forma mais velada. Está em Abraão que não consegue esperar o filho da promessa e tem, com a escrava, um filho. Está em Moisés que mata um egípcio, em Davi que adultera, em Paulo em Atenas, etc.

O fracasso é um grande remédio para nos libertar de nossa soberba, de querermos ser igual a Deus conforme nossos primeiros pais no paraíso, nos revela que somos pó e ao pó voltaremos, que em tudo dependemos de Deus.

Tristeza

Temos dois tipos de tristezas: a escravizante, da qual temos que buscar cura e libertação, e a que podemos chamar de espiritual, também presente na vida dos personagens bíblicos e na vida dos santos. A tristeza é a grande metamorfose de nossa vida, nela está a revelação do nada que somos, de nossa miséria. E essa tristeza é muito rica, pois nos leva a essa transformação necessária, à frustração com nossos limites, mas ao mesmo tempo, após o processo de purificação por ela exercida em nós, nos abre a grande alegria de tocar o eterno, mesmo que seja por pequenas frestas.

Solidão

Outro elemento muito necessário para nossa purificação e autoconhecimento é a solidão que de todas as maneiras tentamos fugir. Mas aí está um grande engano espiritual, pois ela é necessária em nossa vida. É verdade que fomos criados para viver em comunidade, mas é também bem verdade que minha resposta de conversão é pessoal, e não serei capaz de dar uma resposta concreta se não experienciar a solidão da qual o próprio Jesus é mestre. Vemos isso em muitos momentos de sua vida, no deserto, no Getsêmani e na Cruz, em especial.

E o profeta faz todas essas experiências acima, elas fazem parte de seu itinerário até a chegada ao monte Horeb. Não basta somente a experiência do poder de Deus, é preciso das experiências mais profundas das misérias humanas, e quanto mais profundas forem, maior será a experiência da purificação, da libertação.

Tocar o transcendente

Depois de viver tudo isso, o profeta chega à caverna (cf I Rei 19,9), onde (lhe) a Palavra de Deus lhe é dirigida: “Que fazes aqui Elias?”. Ele respondeu: “Estou devorado de zelo pelo Senhor, o Deus dos exércitos” (I Rei 19,10) . Aqui está na essência do profeta a sua resposta, essência daquele que não busca mais viver do saudosismo da grande experiência do fogo que caiu do céu, mas fez um caminho para uma nova experiência, ainda maior e mais profunda. Mesmo ainda não sabendo, a resposta dele ainda está de um certo modo no legalismo, apenas para cumprir os preceitos.

O senhor pede a Elias para ele se colocar em cima do monte, e aqui está algo que precisa ser entendido. A caverna é o coração de Jesus aberto na Cruz, dele emana toda a vida da graça, mas ele também é a porta para nos colocarmos no alto do monte (que é o próprio Cristo)1, que é o transcender, ir além, tocar o mistério. Mas para isso precisamos vencer todas as nossas tempestades, terremotos e batalhas do nosso interior, frutos de nossos planos. É preciso ser tocado pela doçura da brisa suave, sinal de quem transcendeu, tocou o mistério e foi por ele tocado, de modo que nunca mais será o mesmo.  Tendo Elias ouvido isso, cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada de caverna. Uma voz disse-lhe: “Que fazes aqui Elias?” Ele respondeu: “Consumo-me de zelo pelo Senhor, Deus dos exércitos” (I Rei 19,14).

Encontramos aqui nesse texto duas situações, uma anterior “estou devorado pelo zelo” e outra posterior “consumo-me de zelo pelo Senhor”. No primeiro momento, mais legalista, está a consciência de Deus em sua vida e aqui está uma guinada que precisa acontecer. Muitos chegam até aqui, ardendo dessa consciência, mas são incapazes de tocar o mistério, subir ao monte que está na parte interior da caverna, que é o transcendente. De certa forma, é o mistério da cruz em seu interior, onde está a dimensão do eterno, onde se desvela a beleza da ação de Deus, aonde os grandes místicos chegaram, como São João da Cruz, Santa Tereza de Jesus e também Santa Terezinha do Menino Jesus.

Do coração aberto de Jesus se derrama toda a graça necessária para nossa conversão e salvação, mas também é o caminho para adentrarmos e tocarmos o mistério do transcendente. E isso não é só para os grandes místicos, nós podemos, pois está aberto a todos, não pode ser um “luxo” espiritual. E uma conversão daquele que tocou o mistério é muito mais eficaz, isso vemos em Elias a partir da experiência da brisa suave, que significa vida interior, vida que foi tocada pelo mistério e nele se consome. O arder de zelo se modifica, pois foi tocado pelo transcendente e está preparado para uma obra muito maior. Veja a nova missão dada a Elias: “Retorna o caminho do deserto, na direção de Damasco. Ali chegando, ungirás Hazael como rei da Síria. Jéu, filho de Namsi, como rei de Israel e Eliseu, filho de Safat, de Abel-Meúla, como profeta em seu lugar. Todo que escapar à espada de Hazael será morto por Jéu e o que escapar à de Jèu será morto por Eliseu. Mas reservarei em Israel sete mil homens que não dobraram seus joelhos diante de Baal e cujos lábios não o beijaram” (I Rei 19,15-18). Veja que aqui a obra de Deus é completa, abrangente, não é só pontual, mesmo que extraordinária como no momento do fogo do Céu.

Após fazer esse itinerário, Elias tem uma missão superior à primeira porque foi capaz de viver todo o processo a ele necessário, foi capaz de transcender. Um pregador um dia disse: “Por que Eliseu não é mais lembrado do que Elias?” E ele mesmo respondeu: “Porque Elias foi capaz de formar alguém melhor do que ele”.

Tudo o que celebramos em nossa fé é mistério, toca o transcendente, assim é o Sacrifício da Santa Missa, os Sacramentos, o Batismo no Espírito Santo, etc.

Precisamos da experiência do poder de Deus? Claro que sim, mas não podemos ficar só nela, precisamos progredir, alargar nossa vida espiritual, seguir em frente sob a mão do Deus Poderoso como fez Elias, enfrentar o deserto e seus desafios para adentrarmos no coração aberto de Cristo na Cruz e transcender, tocar o mistério e realizar a vontade de Deus em nossas vidas como fez o Profeta.

Elias Gobbi
Consagrado Comunidade Pantokrator

  1. Conforme oração da coleta na liturgia de Nossa Senhora do Carmo.
    Fonte: Carisma El Shadai-Pantokrator, retiros, pregações e livros espirituais.

 

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