Quaresma tempo de verdadeira conversão

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A Quaresma é o tempo propício para nossa verdadeira conversão, inspirada nos quarenta dias que Jesus passou no deserto jejuando e orando (cf Lc 4,1-9).

Para entendermos com profundidade este texto, temos que fazer uma correlação com a Paixão de Cristo.

Tanto as ações do deserto como da Paixão visam a três dimensões: a primeira é voltada para si mesmo, a segunda, voltada para o criado e o próximo e a terceira diz respeito a Deus.

Entendendo melhor

Depois de jejuar por quarenta dias, Jesus teve fome e a primeira investida de Satanás foi desafiá-lo a transformar as pedras em pães para atender a sua necessidade pessoal. Mas Jesus resiste e diz: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus”. Mostra-nos que o bem de que mais precisamos não são os materiais, mas sim os bens espirituais.

Relacionada a essa mesma tentação, no Getsêmani Jesus é tentando novamente no momento da suprema angústia. Satanás investe na vontade de Jesus; o inimigo, por ter a sua vontade corrompida quando na grande prova desconfiou de Deus, tenta fazer o mesmo com Jesus como fez com os nossos primeiros pais no paraíso. No paraíso, incitou Adão e Eva pela vontade a provar do fruto que não era permitido a eles comer. Mas Jesus resiste até o sangue, pois mesmo diante da provação, suou gotas de sangue, mas permaneceu firme: “Pai se é de teu agrado, afasta de mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua” (Lc 22,42).

Talvez essa tenha sido a mais difícil decisão de Jesus: Aderir a sua vontade, não à da carne, mas à vontade de Deus.

Para nós, diz muito a questão da conversão da vontade. Ela é o primeiro passo para a verdadeira conversão. É muito interessante notar em nossa vida espiritual que quando fazemos a experiência do amor de Deus, nós nos encantamos, nós nos maravilhamos, mudamos de vida e começamos a segui-lO com toda empolgação.

Mas, passado um tempo, vem a nós uma tristeza que muitas vezes não conseguimos detectar sua razão e origem. Mas posso confirmar com certeza: é o momento do nosso Getsêmani. É o momento da conversão da nossa vontade, de darmos o primeiro passo rumo a essa verdadeira conversão.

Quando não convertemos nossa vontade, consumimos muitas forças nas nossas lutas e isso nos cansa muito; é o principal motivo do cansaço espiritual.

Nós podemos optar pela firme decisão dessa conversão verdadeira, ou ficamos remoendo as experiências do passado e flertando com os encantos do mundo, estagnados, em uma luta infrutífera e sem crescimento espiritual.

 A conversão é da vontade, não de um simples bom desejo, boa intenção, mas como Jesus, é levar a cabo a nossa firme decisão: “Pai, afasta de mim este cálice, mas, todavia, não se faça a minha mas a tua vontade”.

Exorcizamos assim a possibilidade de Satanás usar de nossas brechas para nos levar ao pecado, de nos derrubar na caminhada, na vocação.

É nossa primeira vitória; ela diz respeito a nós mesmos, aos prazeres.

Mas Satanás não desiste: vai então investir na segunda possibilidade que ele tem e que diz respeito a todo o criado (obra da Criação) e ao próximo (criado à imagem e semelhança de Deus).

Jesus no deserto, ele propõe todos os reinos da terra, domínio sobre tudo e consequentemente sobre todos. Mas o Senhor resiste: “Adorarás somente ao Senhor Teu Deus e só a Ele prestarás culto”.

Na Paixão de Cristo, o Demônio vai tentar mostrar a Jesus que não vale a pena todo o Seu sacrifício mostrando toda fragilidade humana (traição, negação, julgamento iníquo, desprezo, humilhações, açoites, cusparadas etc) e a natureza em desarmonia (o madeiro da Cruz de uma árvore seca, morta). Mas o Senhor resiste e permanece fiel.

Assim também acontece conosco, quando convertemos verdadeiramente nossa vontade: Satanás vai nos tentar através da obra da Criação, principalmente através do nosso próximo. Isso percebemos muito na vida comunitária. É um tempo em que aparecem os erros das autoridades, o desprezo dos irmãos, humilhações, sentimento de desvalorização, em que enxergamos com clareza os pecados dos irmãos, enfrentamos alguma situação de fatalidade, até desastres naturais em nossas vidas e com nossos familiares etc. Muitas vezes essas situações são reais; em outras tantas, existe certa ficção arquitetada pelo inimigo.

Mas, como em Jesus, a nossa vitória está na caridade. Jesus não desistiu da Cruz por amor, nunca por nossos merecimentos. Se formos esperar pelos merecimentos dos irmãos para amá-los, nunca conseguiremos amar, pois são fracos, inconstantes. Precisamos amar na adversidade, no firme propósito da caridade e tendo como mola propulsora a humilhação; ela faze parte de nossa vida e é a grande mestra para humildade, pois o Senhor atende a um coração humilde.

Na terceira investida de Satanás está nossa relação com Deus. Ele vai tentar nos mostrar que não vale uma vida de sacrifício por Deus, pois quando “mais precisamos” ele não nos atende. Assim acontece na Cruz; Jesus exclama: Pai, por que me abandonastes?” Esse sentimento muitas vezes é verdadeiro, do Deus que Se “esconde”, como aconteceu na Cruz : “Elói, Elói, lamá sabactáni?”, que quer dizer: “meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (cf. Mc 15,34.).

Nesse estágio, o inimigo vai nos levar a tentar a Deus como Jesus no deserto, mas nossa resposta tem que ser igual à de Jesus na Cruz: “Tudo está consumado.Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. Não de desafiar ou tentar Deus.

Essa é a provação da fé. Nós, Comunidade Pantokrator, estamos vivendo no ano vocacional, o Ano da fé: “ Deixai irradiar a fé sobre os homens”.

Esse deixar irradiar a fé passa pela provação da noite escura da alma, em que os sinais não são frequentes, e às vezes nem existem, em que somos chamados a uma solidão fecunda. Não temos os confortos espirituais, a exemplo da vida dos santos, em especial, Santa Madre Tereza de Calcutá. Essa provação, penso eu, tem níveis diferentes de pessoa para pessoa, mas o que conta para Deus é nossa fidelidade, mesmo no seu escondimento, permanecendo firmes, irradiando a alegria da certeza da vitória.

Isso é Quaresma, é recapitulação, é reordenar todas as coisas em Cristo Senhor.

Elias Antonio Breda Gobbi
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator 

2 COMENTÁRIOS

  1. Realmente passar pela provação não é nada fácil, mas temos que estar confiantes em Deus, pois Ele nos ama e quer que nós tenhamos vida eterna.

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