Saia um pouco do “Piloto automático”!

0
piloto automatico

O “piloto automático” é uma ferramenta tecnológica bastante utilizada nos aviões e até nos carros mais modernos. Talvez você já tenha visto em algum filme a cena em que o piloto aciona um “botão vermelho” e a aeronave passa a voar sozinha, com a mesma velocidade e direção que foram calculados inicialmente.

O interessante é que nós também – os seres humanos – temos uma espécie de “piloto automático” dentro de nós. E isso é bom, pois foi feito por Deus! Segundo os cálculos mais recentes, o coração humano bate em média 104 mil vezes por dia, e quase nunca nós paramos para pensar nele. Imagine se ele precisasse de um comando consciente do cérebro para continuar batendo… Graças a Deus temos o nosso piloto automático!

E poderíamos mencionar diversas outras coisas que fazemos sem “pensar”. Nós estamos o tempo todo respirando, as nossas células estão se multiplicando e o estômago está separando aquilo que é nutriente daquilo que será descartado. Até as nossas reações mais espontâneas, como um sorriso ou um grito de dor, são produzidas de maneira automática.

O grande problema, porém, é quando nós abusamos desta função tão importante. Existem certas situações e escolhas que demandam uma reflexão mais profunda e não podem ser deixadas para o “piloto automático”. Na prática, basta olhar ao nosso redor para perceber que muitos já acionaram o tal “botão vermelho” há bastante tempo.

POR QUE FAZEMOS O QUE FAZEMOS?

Certa vez, ouvi uma historinha bem interessante e que nos servirá de reflexão. Conta-se que, em determinada vizinhança, um gato foi visto correndo pela rua. Dois cães avistaram o gato e começaram a correr atrás dele. Um terceiro cão (que não viu o gato) resolveu correr atrás dos dois primeiros pensando: “Eles devem ter uma boa razão para correr tanto”.

Um quarto cão resolveu seguir os três primeiros. Aí um quinto, um sexto… no fim, eram dez os cães correndo desesperadamente pelo quarteirão. Até que o gato finalmente conseguiu fugir. Os dois primeiros cães (que tinham visto o gato) desistiram da caçada e resolveram parar. Contudo, aqui entra o fenômeno peculiar: todos os outros oito cães continuaram correndo, sem parar e sem saber o porquê estavam fazendo aquilo.

Parece ser uma historinha muito simplória, mas às vezes é a história de muitos de nós. Há pessoas que passam anos perseguindo metas que não fazem muito sentido, mas elas não param para pensar sobre isso. Há comportamentos antigos que mantemos rigorosamente, sem saber de onde vêm ou o porquê fazemos.

Às vezes, coisas que inicialmente eram boas se tornam o contrário com o passar do tempo – e, ainda assim, são mantidas por conta de um comodismo ou de orgulho. Dou até um exemplo bíblico: no Antigo Testamento, Deus mandou o povo guardar o dia do sábado. Ele queria ensinar que era preciso manter um dia para o descanso e para cultuar o Criador.

Com o passar dos séculos, o povo passou a deturpar o sentido do mandamento do sábado. Coisas mais simples passaram a ser proibidas. Chegou-se ao cúmulo de proibir que se fizessem atos de caridade em dia de sábado! Jesus percebeu que o “piloto automático” estava ligado e fez questão de renovar o ensinamento, chamando-os a uma reflexão honesta: “Pergunto-vos se no sábado é permitido fazer o bem ou o mal; salvar a vida, ou deixá-la perecer” (Lc 6, 9).

QUAIS SÃO NOSSOS HÁBITOS AUTOMÁTICOS?

Nos seus “Exercícios Espirituais”, Santo Inácio de Loyola nos ensina que não basta fazer o que é certo, mas é preciso fazer também pelas razões certas. Cristo já havia ensinado isso ao alertar sobre as pessoas que gostavam de rezar para serem vistas pelos outros  ou as pessoas que davam grandes esmolas para serem elogiadas (cf. Mt 6, 1-5).

Significa que é preciso abandonarmos o “piloto automático” e pensar com sinceridade: “O que eu faço de bom?” e “o porquê eu o faço?”. Vou às missas do domingo porque realmente quero participar do grande sacrifício do calvário e me alimentar do Corpo de Cristo ou simplesmente porque aprendi a ter este costume?

Procuro servir ao próximo pelo seu valor enquanto filho de Deus ou porque a minha imagem fica melhorada diante dos outros? Quando me perguntam se creio em Deus, eu respondo imediatamente que sim. Mas qual foi a última vez que eu dediquei um tempo razoável para conversar a sós com Ele?

E não são apenas os hábitos bons que devem passar pelo crivo da análise. Isso também serve para os hábitos mais “mundanos” (especialmente para estes, aliás). Já parei para pensar se as músicas que eu ouço todos os dias são condizentes com os mandamentos do meu Senhor? As conversas e piadas indecentes mantidas com colegas de trabalho são compatíveis com a figura de um bom cristão?

REASSUMIR O CONTROLE E ENTREGÁ-LO A DEUS

Perceba como nós temos uma terrível capacidade de viver quase tudo no “piloto automático”. Felizmente, contudo, existe um modo bastante eficaz de sair deste estágio de automatismo. Este modo se chama oração.

A oração não é apenas um momento em que recitamos frases prontas (embora elas também sejam muito importantes). Oração é, especialmente, se colocar na presença de Deus e apresentar a Ele qual é a sua verdade. Isso mesmo: a sua verdade! Dizer a Deus quais são as suas maiores misérias. Quais os seus desejos mais íntimos. Apontar coisas que ninguém mais sabe e que estão guardadas no profundo do seu coração.

Quando nos deparamos com a nossa verdade, percebemos fatalmente quais são os “pilotos automáticos” que criamos ao longo do tempo. E Deus tem a capacidade de converter tudo isso. Ele é o Deus Poderoso que tudo pode mudar, que tudo pode ordenar.

Procure fazer esta experiência, de modo especial ao final do seu dia. Escancare sua verdade diante do Senhor com um bom exame de consciência. Procure apontar onde foram seus erros e acertos, e onde poderá melhorar para o dia seguinte. Você não precisa “pilotar” tudo sozinho. Ele é seu copiloto, sua bússola, seu radar.

Que a Virgem Santíssima te ajude a dar voos cada vez mais altos!

Rafael Libório
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

Deixe uma resposta

Por favor, insira seu comentário!
Por favor, insira seu nome aqui.