Subtraia da Cruz a sua força para vencer o mal que há em você

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Cruz

Quantas e quantas vezes nos encontramos sem força para vencer o mal que nos assola, vencer as tentações, as provações e as dificuldades da vida? Onde buscar essa força, e como lutar com essa força que às vezes parece tão abstrata? Que esse texto seja um pequeno roteiro que nos leve ao encontro da força necessária para a vitória.

Vivemos em um mundo onde somos induzidos a buscar solução mágica para tudo, a um click de um controle remoto, em um tempo quase que instantâneo. Não temos tempo para sofrer, para combater o sofrimento, precisamos nos livrar dele o mais rápido possível. Essa é a linguagem do mundo para nos vender as suas facilidades sedutoras, mas sem eficácia, o famoso placebo.

Se queres realmente encontrar a solução, só existe uma, da qual emana toda a eficácia capaz de ser resposta a todos os nossos males e sofrimentos, é a Cruz de Cristo. Não existe outra fórmula mágica, o que existe fora a Cruz são só placebos.

O paraíso

No paraíso, nossos primeiros pais viviam em perfeita comunhão com o Criador; o homem foi criado em estado de justiça original(1), ou seja, tudo o que lhe era necessário Deus o fez. Mas também foi criado com o livre arbítrio, capaz de tomar as suas decisões, e foi onde a Serpente sedutora os enganou, oferecendo-lhes o fruto da árvore do centro do jardim do qual Deus os havia proibido de comer. E ao comerem, pecaram, desobedeceram a Deus; o pecado entrou no mundo, e perderam a comunhão perfeita e foram expulsos do paraíso.

O fruto da Cruz

Mas o Pai, em seu eterno amor pelo homem e pela mulher, no momento da desobediência promete a redenção: “porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela, esta te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar disse Deus a Serpente” (Gen 3,15).

Na Cruz de Cristo, se cumpre a promessa do Pai. Ele se torna o fruto, não mais da árvore frondosa do centro do jardim, mas fruto da Cruz, fruto doce que ao primeiro momento parece ser amargo, de mui feio aspecto, mas na sua essência é doce, agradável e seu “after taste” se prolonga no paladar trazendo paz, cura e restauração. Ao contrário, o fruto do paraíso que tinha mui belo aspecto e parecia ser prazeroso ao paladar logo se torna amargo, azedo e sua consequência desastrosa, tira a comunhão perfeita com o Pai.

O movimento da Cruz

Nós dizemos que um fruto pertence à sua árvore, exemplo da manga que pertence à mangueira. Cristo é o fruto que brota da Cruz, mas neste caso a Cruz pertence a Cristo e não Cristo pertence à Cruz. E Cruz não é simplesmente duas hastes de madeira seca na qual foi pregado Jesus, existe em torno dela todo um movimento, que mistura morte e vida. Movimento da morte onde está a traição de Judas, a negação de Pedro, o julgamento iníquo, a libertação de Barrabás, a fuga dos discípulos, o escarnecimento de Jesus, etc. E o movimento da vida onde está Verônica que em um ato de piedade enxuga o rosto de Jesus, toque de quem associa sua vida, sua dor a Dele, reflexo do Bem no meio do Mal. Tem o Cirineu que ajuda a carregar a Cruz, ou seria na verdade o contrário, Jesus o ajudando a carregar sua dolorosa Cruz? Que mistério é esse de associação de vidas que se entrelaçam, do homem marcado pelo pecado com Jesus com as marcas do pecado do homem, que gesto de intercâmbio maravilhoso, onde um se perde no outro. Tem as piedosas mulheres que mesmo diante de toda contrariedade permanecem fiéis aos pés da Cruz sem nada entender. Nelas refletiam a Fé de Maria, embora em Maria, mesmo na dor profunda da espada que lhe transpassava o coração, tinha clareza de tudo, nelas apenas a noite escura da fé, sem nada entender para depois do Tudo, tudo receber. Como é bela a noite escura da fé sem consolação, sem regozijo, mas certa da vitória. Tem José de Arimatéia, o rico que soube passar pelo buraco da agulha(2), que tocou o Fruto da Cruz e dele saboreou, tocou o corpo Santo do Senhor tomando-O em seus braços junto com Maria, a Senhora da piedade, e com ajuda de Nicodemos, príncipe dos sacerdotes, que veio perfumar o corpo mais perfumado que poderia existir. Ao contrário de nossos corpos que se decompõem e exalam um terrível odor, o corpo do Senhor exala um suave e agradável perfume, mesmo estando dilacerado. É o perfume da Redenção que atinge todo aquele que Nele crer: “somos para Deus o perfume de Cristo” (2cor 2,15).

No meio deste movimento, a Cruz vai abarcando tudo, o bem e o mal, uma grande batalha vai acontecendo e ela, símbolo da maldição e o sinal da morte, sua representante legítima, vai lutando contra o silencioso Jesus. A Ela se associam os algozes, a coroa de espinho, os açoites, os cravos e a lança. Diante de tanta adversidade, parece que não tem mais jeito, a morte espalhafatosa vai agindo em um aparente domínio, enganando a tantos como hoje continuam a ser enganados.

Mas Jesus, silenciosamente, vai vencendo cada obstáculo, nele estava a dor e o peso de todo o pecado, da nossa escravidão, mas estava também o amor de um Deus que livremente se entregava, como a mais bela de todas as declarações de amor. O movimento da Cruz é um canto de lamentação que retine em nossa alma, no mais profundo da alma, para tocar na mais profunda miséria e nos libertar.

Para que pudéssemos ter sandálias aos pés, anel no dedo, Jesus permitiu ter seus pés e mãos perfurados pelos cravos. Para que tivéssemos vestes novas, Ele permitiu ser despido das suas(3). É assim que Jesus vai agindo, respondendo com amor a todo desamor, com misericórdia contra toda condenação.  É assim que Jesus santifica a Cruz, permitindo seu corpo santo ser encravo na mesma. É a luta entre o forte e o mais forte. E o mais forte vence, transformando aquela que era sinal de maldição, representante legítima da morte em sinal de salvação, fazendo dela brotar o fruto que cura nossa história, nossa vida.

O grande e derradeiro momento da Cruz é quando o soldado empunha a lança, outro sinal da morte, e transpassa o lado de Jesus. A morte em seu último grito de reinado atinge o cerne da vida, o coração de Jesus cheio de amor, a fonte que jorra água e sangue. E aquela lança que entra fria, cruel, sai santa e purificada; tocou onde ninguém antes tinha conseguido tocar. Oh, doce lança, onde posso te encontrar para também agora ser ferido por ti, ser ferido de amor.

É o grande símbolo da vitória de Jesus, Ele transformara a Cruz em sinal de salvação, em fonte de cura e libertação. Poderíamos dizer que a morte é a primeira a reverenciar a vida. A morte “viva” é vencida pelo Cristo morto.

Nos meus devaneios imaginários

Penso que no céu contemplaremos a Cruz, os cravos e a lança recolhidos por anjos para eternamente nos maravilharmos e compreendermos que com grande amor Cristo nos salvou. Penso ser ela a árvore da vida do capítulo 22 do Apocalipse de São João, a árvore que cura as nações. Penso em Jesus Glorioso no céu, mas não sem a Cruz.

Da Cruz emana toda resposta para a cura de nossas dores

Precisamos vencer todo medo e até todo asco que temos da Cruz, para dela extrair todo bem e toda força de que precisamos para vencer o mal em nós. Mas para isso precisamos nos associarmos a Jesus nesse mistério a exemplo de Verônica, do Cirineu, das piedosas mulheres, de José de Arimatéia e de tantos outros.

É preciso abraçar, e amar a Cruz, permitir ser tocado por seus cravos, e sua lança para que nossas feridas de pecados sejam purificadas por estes instrumentos outrora de castigo, mas agora de remédio curador.

É preciso ser tocado pelo Sangue que emana do corpo santo de Jesus, pois nele temos nossa redenção.

Fomos criados a imagem e semelhança de Deus. Imagem significa reflexo e semelhança, vem da raiz sangue, vida. Esta foi perdida pelo pecado, mas restaurada no sangue de Jesus que nos trouxe novamente a vida de Deus agora como vida da graça. Enxertados na videira verdadeira que é Cristo, dela beber dessa seiva doce e suave que nos liberta de todo mal. É ela que restabelece em nós a semelhança de Deus, que afugenta o inimigo que tanto medo tem do Sangue de Jesus, pois nele emana a vida de Deus em nosso favor, vida que jorra continuamente do coração aberto de Jesus.

Mas lembre-se: temos que associar nossas dores as de Cristo, não ter medo da exposição da Cruz, muito menos da escuridão da fé, nem das provações, pois são meios para o Senhor agir em nós.

Queres encontrar o Senhor? Ele nos espera em sua Cruz.

Elias Antonio Breda Gobbi
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

1 – Leo Trese – A fé explicada.
2 – Citação tirada de um texto de via Sacra.
3 – Parábola do filho pródigo.
Fontes – Sagradas Escrituras, livros, pregações e retiros espirituais.

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