Você sabe lidar com a frustração?

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frustração

A palavra frustração vem do latim frustratĭo, ōnis ‘contratempo, falha’, e é designada para nomear o sentimento que ocorre quando alguma coisa que era esperada não acontece; pode ser um desejo, um sonho, um plano ou uma vontade. É quando a expectativa não é correspondida.

É inerente ao ser humano realizar planos. Toda pessoa tem sonhos: um emprego melhor, ter a casa própria, encontrar um amor ou seguir a vida religiosa, ter filhos, fazer uma viagem… A lista de sonhos e planos pode ser a mais variada e infindável que se pode imaginar. Muitos passam a vida correndo atrás de seus sonhos, mas será que estamos preparados para os contratempos da vida? Até a pessoa mais organizada já passou por alguma situação que fugiu do controle. E será que estamos preparados para viver a frustração?

“Agora dizeis: Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, ficaremos ali um ano, comerciaremos e tiraremos o nosso lucro. E, entretanto, não sabeis o que acontecerá amanhã! Pois que é a vossa vida? Sois um vapor que aparece por um instante e depois se desvanece. Em vez de dizerdes: Se Deus quiser, viveremos e faremos esta ou aquela coisa” (Tg 4,14-15).

A frustração está intimamente ligada a tudo o que foge ao nosso controle. Pode ser pequena ou grande, tudo dependendo da importância que atribuímos às coisas.

Deus, em Sua Providência tudo dispõe para nosso bem, daí a importância de em tudo depender do Seu querer, como nos lembra São Tiago. Se Deus o quer, nós também deveremos querer, mas se Ele não deseja algo também não devemos desejá-lo, essa é a lógica da santidade: conformar-se à vontade de Deus. No entanto, essa conformação pode soar como uma renúncia ao próprio eu, como uma negativa ideia de anulação pessoal. Porém, o plano divino é outro. Sabendo de nossa fragilidade e conhecendo aquilo que realmente pode nos fazer felizes, enquanto nosso Pai e Criador, Deus nos indica Sua vontade como via privilegiada de bênção para nossa vida e de conquista de uma felicidade realmente verdadeira.

A cruz, sinal máximo de nossa salvação e demonstração claríssima do amor de Deus pela humanidade, é também um exemplo de frustração. A análise do mistério da cruz sob um ponto de vista meramente humano é um fracasso, pois Cristo pregou, ensinou, fez o bem, mas no fim morreu estendido como um bandido no madeiro. Como tudo aquilo que é de Deus e que revela a Sua ação, também a cruz que para muitos é sinal de vergonha e infâmia, para nós que conhecemos a Ele é sinal de glória e salvação, pois esconde um mistério nessa aparente derrota. Trata-se do mistério de um Deus que não morre, mas que dá a Sua vida gratuitamente e depois retoma a vida que deu quando quer e como quer.

Como lidar com a frustração?

Para os apóstolos, a experiência da cruz foi um fracasso, porque, ao que tudo indicava, toda a obra de Jesus acabava ali. As curas, as pregações, tudo encerrou-se por ali e mesmo o Mestre tendo dito que voltaria, as coisas pareciam não dar sinais de vitória. Daí se compreende o diálogo que se estabeleceu no Caminho de Emaús (Lc 24,13ss), quando Jesus Ressuscitado se pôs a andar junto de dois de seus discípulos disfarçado e perguntou do porquê da tristeza de ambos, ao que eles replicaram que “Jesus, que fora um profeta poderoso em palavras e ações havia sido condenado à morte e tudo havia acabado”.

Ainda no caminho, Jesus os anima falando-lhes das Escrituras, até que aceita o convite de ficar junto deles que O reconheceram no partir do pão. Nesse momento, toda treva se dissipa e aquilo que parecia complexo, sem solução, frustrante, se converte em alegria e confiança de que as palavras do Mestre realmente foram cumpridas. Essa passagem evangélica nos ensina muito sobre a frustração numa ótica cristã, pois nos instiga a andar com Jesus, mesmo que não O reconheçamos de momento, ou seja, devemos cultivar uma íntima vida de oração com Deus, mesmo que não entendamos tudo ou consigamos processar tudo aquilo que entendemos ser necessário à nossa vida espiritual.

O segundo passo seria ouvir, ou seja, precisamos desenvolver a virtude da humildade que nos ajudará a sempre querer aprender e a não confiar em nossas próprias forças, sempre buscando ouvir o que outros têm a nos dizer, sobretudo quando nos falam de Deus e podem ser usados por Ele para transmitir-nos Sua vontade. E por fim, devemos cultivar a vivência sacramental, que unida à oração e a uma atitude decidida de não lamentar-se, mas de sempre se mover, de sempre se colocar em movimento para governar a própria vida, nos levará a desenvolver uma outra virtude: a fortaleza, que nos predisporá a cumprir a vontade de Deus para nós e que nos conduzirá à felicidade. Seremos felizes não por não termos problemas, mas sim pelo fato de que aprenderemos a lidar e a conviver com eles e superá-los.

No Evangelho de São Mateus, capítulo 6,10, ao ensinar os apóstolos a rezar, Jesus coloca entre as petições do Pai-Nosso a de que “seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu”, ou seja, Ele nos oferece a chave para a superação daquilo que não sai ao nosso gosto ou que foge ao nosso controle. Tudo o que acontece, seja bom, ou seja ruim, só acontece por permissão de Deus, para sempre daí tirar um “bem maior”, como nos lembra Santo Agostinho.

Cruz, exemplo máximo de frustração

A cruz foi o exemplo máximo de frustração. E como nós conseguimos vencer toda esta situação de nossas próprias cruzes diárias? Tirando o bem maior, em tudo.

Claro que este exemplo foi algo extremo, mas o que quero dizer é que experimentamos a frustração todos os dias. Suponhamos, que você se arrumou para sair de casa e na hora de sair derrubou café na roupa, pronto: você se frustrou! Já não pode mais sair com a veste que havia programado. Outro exemplo (já aconteceu muito comigo), você sai para jantar e o restaurante que você escolheu está fechado, pronto: frustração! Vejam que a frustração pode acontecer em nossas vidas de diversas formas, seja ela em situações extremas, difíceis de serem superadas, ou apenas corriqueiras do dia a dia. Todos estamos sujeitos a enfrentar pequenas ou grandes derrotas na vida cotidiana. O fato é a maneira com que lidamos com as nossas emoções, como nos relacionamos com os outros, com nós mesmos e com Deus. Se estamos ou não preparados para isso.

Deus precisa estar no centro de nossas emoções. No que diz respeito às nossas frustrações, podemos posicioná-lO em dois lugares distintos. Se estamos em busca da nossa maturidade, do nosso encontro profundo com Deus, Ele não apenas será nosso porto seguro nos momentos difíceis, mas através do Seu Espírito nos dará meios (aqui leia-se dons) para agirmos sempre de acordo com Seu Plano para nós. O fim último de nossas ações será sempre o amor a Deus e aos homens, assim em cada decepção saberemos tirar o bem, um aprendizado, uma lição, e isso vai nos dando “musculatura” para nos posicionar frente à vida e à nossa história.

Por outro lado, nossa fragilidade humana e imaturidade podem colocar Deus como culpado de todos os males de nossa vida. Essa atitude pode nos afastar d’Ele. Daí a necessidade de uma compreensão equilibrada da Sua ação. Se por um lado há quem culpe Deus por tudo, por outro há quem se julgue tão capaz de controlar todas as coisas que não admite erros ou imprevistos. Ambas as posturas são equivocadas, pois devemos lidar com a realidade como ela é: cheia de altos e baixos, cheia de imprevistos, erros e incoerências.

Mas apesar disso, Deus está sempre conosco e pode nos ajudar a dar sentido a todas as coisas e a extrair o bem de cada uma delas. Tudo depende de nossa atitude de querer ser diferente, de querer se aproximar de Deus e fazer Sua vontade, conquistando assim a verdadeira felicidade que não é um misto de sentimentos bons, mas sim a plena convicção de saber quem somos e qual é o sentido de nossas vidas.

Renata Andrade de Ramos Tonon é casada, mãe, jornalista e consagrada da Comunidade Católica Pantokrator

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