10 falácias no debate sobre o aborto

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1. O feto não pode ser levado a sério como pessoa

Antes de conhecer mais a fundo o debate sobre o aborto, eu não tinha nenhum interesse no feto (bebê não-nascido). Quando era mencionado, eu aceitava sem criticar que o “feto” era apenas uma espécie de esperma superdesenvolvido, sem nenhum valor ou valia. A retórica pró-aborto havia me convencido que o bebê no útero era, de alguma forma, uma classe totalmente diferente de humano, diferente de você ou de mim, como se o simples ato de sair do ventre e respirar oxigênio conferisse a humanidade a alguém. Eu não tenho certeza se considerava isso racional no momento, mas apoiava o aborto, porque eu tinha sido levado a acreditar que não havia nada em jogo na destruição de um feto humano.

A realidade mudou minha opinião. É claro que o bebê não nascido, só por causa do fato de existir dentro do útero, não se torna uma classe especial de seres humanos, nem deixa de algum modo de ser uma pessoa. Por qualquer critério científico que se queira, uma vida humana completa é formada no momento em que um espermatozóide fertiliza o óvulo. A criatura formada está viva – crescendo, amadurecendo e substituindo as próprias células que morrem. É humano – já é original e diferente de qualquer outro ser humano que já existiu, da espécie homo sapiens sapiens, com 46 cromossomos humanos, e só pode evoluir para um ser humano adulto, nunca para outra criatura. E é completo – a pessoa em questão vai crescer muito ao longo dos anos que se seguem à concepção, mas tudo o que é adicionado é apenas a replicação do que já existe. Não há nenhuma dúvida científica de que um bebê de 23 semanas de gravidez no interior do útero é tão humano e tão vivo quanto um bebê que nasceu prematuro com 23 semanas de gravidez e está fora do útero. No entanto, a um é dado o pleno direito legal que todos nós normalmente temos, e o outro pode ser morto, como se fosse uma mera inconveniência [Nota do tradutor: O artigo é de outro país. No Brasil atualmente o aborto é sempre crime, sendo suspensa apenas sua punição quando não há outro meio para salvar a vida da mãe ou quando a gravidez resulta de estupro].

É óbvio porque o lobby pró-aborto fala sempre em termos de “feto”. Parece muito menos pessoal e menos humano falar de “eliminar um feto” do que de matar um bebê. Todos os tipos de eufemismos médicos já foram alguma vez utilizados: conjunto de células (quem de nós não é um aglomerado de células?), bolha de protoplasma, e assim por diante. Eles vão chamar a criança por nascer de qualquer coisa, menos de “bebê”.

Alguns defensores do aborto argumentam que seu lado fala de fetos, enquanto o outro lado fala de bebês, de acordo com suas agendas. Portanto, não há razão para dizer que um determinado lado é desonesto em seu uso da linguagem para se adequar ao seu argumento – um lado usa termos médicos e o outro lado usa termos mais emocionais, isso é tudo. Mas isso ignora a realidade de como as pessoas falam no dia a dia. Quando uma mulher está grávida, todas as perguntas são voltadas para um bebê, e não para um feto. Ninguém fala sobre o chute do feto na barriga da mãe. Nenhuma mãe que sofre um aborto espontâneo fala sobre a perda de seu feto. É só quando a discussão se volta para o aborto que os termos médicos são utilizados para descrever o bebê que vai ser morto. Apenas na hora de defender o aborto é que desumanizamos o bebê para que o argumento de matá-lo se torne mais fácil de aceitar. Essa não é uma tática nova. De “Untermenschen” a “Nigger” (1), fanáticos sempre inventaram termos que podem usar para evitar descrever como ser humano aqueles que querem matar. Mas chamar um judeu “Untermenschen” não faz dele menos humano, e chamar um bebê de “feto” (uma palavra que ironicamente significa na verdade “pequena criança”) não a fará nem um pouco menos humana.

Nenhuma pessoa pró-vida diz que o bebê deve ter precedência sobre a mãe. Mas deixar de reconhecer que existem duas vidas humanas nessa questão é cegueira deliberada. Nas circunstâncias em que nenhuma das duas pessoas vai morrer, por que uma das vidas deve ser ceifada?

2. “Pró-escolha” é uma posição neutra sobre o aborto

Um dos argumentos estranhos que as pessoas muitas vezes fazem sobre aborto é que elas não querem tomar partido sobre o assunto – o que elas querem é que a mãe escolha se quer abortar, sendo elas próprias “neutros” sobre o assunto. Implícito nisso está a idéia de que, de um lado está um grupo de pessoas que se opõem ao aborto em quaisquer circunstâncias, e do outro lado está um grupo de pessoas favoráveis ao aborto em todos os casos, quer a mãe deseje o aborto ou não. Ser “pró-escolha”, segue-se, seria uma posição neutra e intermediária.

Este não é um argumento que dure muito tempo. Nenhuma pessoa em sã consciência defende o aborto em qualquer caso, portanto basear a alegação de neutralidade entre um argumento que existe e um argumento que não existe é claramente um absurdo. Mas o ponto chave que refuta a idéia de que a posição “pró-escolha” equivale à neutralidade é que ela afirma que as escolhas da mãe devem sempre prevalecer sobre a vida de seu filho ou filha. Ao ficar do lado da “escolha”, a pessoa declara-se contrária à idéia de que a vida humana inocente deve ter precedência sobre as escolhas de um outro ser humano, e isso se alia à idéia dos defensores do “direito de abortar”, segundo a qual o “direito da mulher de escolher” deve vir em primeiro lugar.

O debate acerca do aborto não ocorre entre aqueles que não querem nenhum aborto e aqueles que querem todos abortados, mas sim entre aqueles que querem o aborto para a conveniência de um ou ambos os pais, e aqueles que pensam que a vida humana deve prevalecer sobre a escolha humana. Na dicotomia entre vida e escolha, que forma o debate sobre o aborto, você pode ser indiferente quanto ao que tem prevalência, você pode estar indeciso, pode estar incerto, e você não pode ter opinião nenhuma. Mas o que você não pode ser é neutro, porque não há uma posição neutra. Ou a vida vem primeiro, ou a escolha vem primeiro.

3. Restringir o aborto significa impor aos outros uma moral religiosa

Muitas pessoas de todas as confissões religiosas, bem como pessoas sem religião se opõem ao aborto, mas alguns sugerem que ser pró-vida é adotar uma posição religiosa. Portanto, apoiar as leis pró-vida seria sugerir a imposição de um ponto de vista religioso sobre todas as outras pessoas, a mesma coisa que tornar ilegal o consumo de carne de porco por causa das prescrições do Alcorão (livro sagrado dos muçulmanos).

Se o aborto é uma questão religiosa, então quase tudo é. O que as pessoas costumam dizer com isso é que o aborto é uma questão exclusivamente religiosa, de nenhum interesse àqueles que não compartilham a fé das pessoas pró-vida. Como muitas religiões enfatizam o valor de uma alma humana eterna, e muitas pessoas pró-vida se expressam em termos religiosos, as duas coisas não estão desconectadas. Mas é completamente errado sugerir que uma questão ética como o aborto se torna inteiramente uma questão religiosa só porque a religião dá seu ponto de vista sobre ela. O livro do Êxodo diz que ninguém deve cometer um assassinato. Isso não significa que o assassinato é uma questão exclusivamente religiosa, e certamente não significa que as leis contra o assassinato seriam uma quebra na tradição de separação entre Igreja e Estado que existe em países como os Estados Unidos.

Não apenas é falso, é um insulto dizer que a oposição ao aborto é uma posição religiosa, ao invés de ser, em última instância, uma questão de direitos civis e humanos. Será que essas pessoas realmente acreditam que é impossível para um ateu se preocupar com o bebê não nascido? Será que honestamente acham que o supremo valor e importância de uma vida humana inocente é algo que só uma pessoa religiosa pode entender? Eu certamente espero que não.

Portanto, restringir o aborto não é imposição de moral religiosa. Mas seria errado no sentido de que se impõe algum tipo de moralidade? Bem, o problema com este argumento é de que toda lei é a imposição de uma moralidade. A lei que proíbe o roubo impõe sobre os outros uma moralidade anti-roubo. Ninguém tem um problema com isso, porque ninguém é realmente um relativista moral na prática. Nós todos sabemos que os indivíduos têm certos direitos que ultrapassam a vontade dos outros de fazer o que quiserem. Sejam os direitos “lockianos” à vida, à liberdade e à propriedade, sejam os direitos mais expansivos do “Ato de Direitos Humanos da Europa”, todos nós aceitamos que alguma proteção individual deve ser garantida. Para o nascituro, as pessoas pró-vida pedem apenas o direito mais básico de todos – o direito à vida. Não se trata de impor a ninguém, mas se trata de evitar a maior imposição de todas: uma execução de uma pessoa inocente, sem nenhum crime, e culpado apenas de ser um inconveniente. Essa seria a verdadeira imposição, o verdadeiro caso de uso de força ilegítima.

Ironicamente, as pessoas pró-aborto sempre acusam os seus adversários daquilo que elas são mais culpadas. São elas que querem fazer leis com base não num critério objetivo como a proteção da vida humana inocente, mas nas avaliações subjetivas da mãe. Experimente dizer a alguém que defende o aborto que o aborto deveria ser ilegal porque mata, e eles vão dizer que isso não importa, porque só mata um feto. Explique que um feto no útero é um ser humano em qualquer definição científica, e eles vão dizer que ele não está vivo. Diga-lhes que o bebê no útero está de fato vivo, e eles vão dizer que o bebê pode ser uma vida humana, mas não é o que eles consideram uma pessoa. Então, eles se defendem através de uma noção totalmente arbitrária e subjetiva do que merece e do que não merece o direito à vida, baseada em sua própria noção do que seja uma pessoa humana. Esse é um caso verdadeiramente injusto de imposição de moralidade, tão grande quanto justificar a escravidão porque, embora o negro seja um ser humano esteja vivo, ele não é uma pessoa, no sentido que você considera.

4. “Eu nunca faria um aborto, mas os outros devem ser livres para escolher” ou “Se você não gosta de aborto, não faça um”

Não é inconsistente alguém que nunca lutaria boxe na vida querer que o boxe continue juridicamente legal. Alguém pode odiar o gosto do café, mas isso não significa que seria preciso proibi-lo. Sempre se pode simplesmente parar de bebê-lo. Não seria necessariamente hipócrita para alguém que odeia a caça à raposa continuar a acreditar na liberdade dos outros para a caça. Alguns tentam estender este princípio liberal ao aborto: eles argumentam que não é preciso se opor ao aborto só porque existe alguém que acha o aborto imoral, de mau gosto e mau.

Tendo classificado o boxe, o café e a caça como três coisas que uma pessoa pode de forma bastante consistente não gostar, sem com isso acreditar que eles deveriam ser proibidos, devemos analisar algumas coisas que uma pessoa não pode se opor de forma consistente sem as querer proibidas. Um exemplo claro seria o estupro. Seria completamente absurdo dizer “Não gosta de estupro? Então não cometa nenhum”. Isso acontece porque quando alguém está dizendo que acha o estupro errado não está simplesmente falando em discordar com as escolhas que os outros fazem, como pode ser o caso com a caça, mas porque ele é contra a própria idéia de que alguém venha forçar uma mulher a fazer sexo com ele.

A questão é se o aborto entra na primeira categoria – uma questão de escolha, como o boxe ou beber café, sem direitos fundamentais envolvidos – ou na segunda – uma questão de direitos fundamentais da pessoa, que não podem ser negociados e não se referem apenas às preferências de uma pessoa. Qualquer que seja o lado que se tome nesse debate, o aborto não se encaixa na primeira categoria, como as duas afirmações acima erroneamente sugerem.

Se alguém afirma que a vida humana inocente é sagrada e valiosa e que este valor permanece, independente das preferências dos outros, então o aborto é claramente uma questão de direitos individuais. Ninguém pode afirmar que o aborto é uma violação dos direitos individuais e ao mesmo tempo ter o pensamento que ele deve ser legalizado mesmo assim. Isso é que é tão absurdamente hipócrita naqueles que afirmam ser pessoalmente contra o aborto, mas ainda o desejam legalizado. Pela lógica, a única razão para se acreditar pessoalmente que seria errado cometer um aborto é pensar que o bebê que iria morrer tem direito à vida. Mas se o bebê no seu próprio ventre tem direito à vida, por que não qualquer outro bebê? Se o bebê em seu ventre é um ser humano inocente, como pode isso mudar para os bebês que terminam nos corpos daquelas que estariam dispostas a fazer um aborto? Será que o corpo sabe na concepção se a mãe é pró-vida ou pró-aborto, para produzir um bebê humano, no primeiro caso, mas não no segundo? E se a mãe mudar de idéia no meio da gravidez? É aqui que o absurdo dessa posição se torna clara. Eles estão, essencialmente, argumentando que o direito à vida de alguém deve depender do ponto de vista que sua mãe adotou a respeito do aborto – que seus próprios filhos têm direito à vida, mas os filhos de mulheres pró-aborto não. Se isto não é hipocrisia, nada mais é.

Da mesma forma, dizer que os opositores do aborto devem simplesmente “não cometer um” é perder completamente o argumento. As pessoas pró-vida não estão dizendo que é sua preferência pessoal que os indivíduos tenham direitos, mas sim que a vida humana inocente deve ser protegida, seja no corpo de uma fervorosa pró-vida ou de uma mulher sem escrúpulos em seu sétimo aborto. Não faz sentido de modo algum argumentar que, se alguém não gosta de escravidão, então não precisa comprar um escravo. No entanto, esse mesmo argumento foi muito utilizado nos Estados Unidos no século 19, e é usado agora como uma defesa do aborto. Ou o aborto é assassinato ou não é. Contornar essa questão e fingir que é apenas uma questão de preferência, como escolher entre marcas de detergentes, revela ignorância ou desonestidade.

5. O aborto é, em última análise, uma questão de direitos da mulher

Uma das tentativas mais desesperadas e fracas para vencer o debate sobre o aborto e calar os opositores pode ser vista naqueles que argumentam que, já que os homens não podem engravidar, e por isso não podem fazer um aborto, então a questão não tem nada a ver com eles. Em seguida sugerem que as opiniões dos homens não têm o direito de ser ouvidas de modo algum, ou então que o aborto beneficia as mulheres em relação aos homens.

A resposta a isso é um fato biológico simples: metade dos bebês não nascidos é do sexo feminino. Assim, para cada menino abortado, em média uma menina morre também. A relação, na verdade, é menos favorável às mulheres em países onde os meninos são mais valorizados do que meninas. Por exemplo, na Índia, tornou-se comum entre as mulheres pagar por um exame de ultra-som barato, e depois pagar por um aborto barato se o bebê for do sexo feminino. Em seguida, elas repetem tudo até que venha um menino. Assim, a idéia de que o aborto é uma vitória para as mulheres é desmentida pela realidade de milhões de meninas sendo mortas da forma mais brutal e cruel.

Bem, está certo, talvez o aborto mate pelo menos tantas meninas quanto mata meninos, mas com os homens incapazes de engravidar, são as mulheres as que têm abortos e, normalmente, são elas que no final decidem. Portanto, a questão cai para as mulheres decidirem, não os homens. Mas esse argumento é contrário a todos os princípios democráticos. Nós não exigimos que só os recrutas exponham os seus pontos de vista e seu voto sobre as questões relativas à guerra. Também não exigimos que somente os doentes tenham voz na área da saúde. A democracia dá a todos voz. Basta ver aonde esse argumento vai levar, para ver suas grandes falhas. Argumentar que, porque só as mulheres podem cometer aborto, então elas devem ser as únicas a decidir as leis relativas a ele é equivalente a argumentar que as leis de estupro só devem ser determinadas e discutidas pelos homens, porque só eles podem cometer esse delito. Democracia significa que todos têm uma palavra a dizer, quer o problema os afete ou os beneficie diretamente quer não.

6. Nenhuma pessoa pró-vida pode com sinceridade aceitar a pena de morte

Algumas pessoas argumentam que há uma contradição aqui, já que a opinião pró-vida tende a aparecer mais na direita política, que normalmente é mais simpática à pena capital. Como alguém pode ser pró-vida e ainda a favor da pena de morte?

A resposta é que, assim como o termo “pró-escolha”, o termo “pró-vida” talvez não seja o termo mais preciso para descrever a oposição ao aborto. A maioria das pessoas se opõe ao aborto por conferir um valor especial à vida humana inocente. Eles acreditam que ela é sagrada, ou ainda que seu valor não pode ser ignorado simplesmente por ser um inconveniente. Eu não sou pró-vida na medida em que eu me oponho ao término de toda e qualquer vida, porque eu como carne e não sou contra matar animais para esse fim. Nem sou pró-vida humana no sentido de que me oponho a tirar uma vida humana em qualquer circunstância. Na guerra, aceito que se atire no inimigo e, quando um assassinato foi cometido, eu estou disposto a aceitar a execução do assassino. A palavra chave é inocente. Simplesmente não é possível para um bebê não nascido cometer um assassinato. Portanto, não há contradição em aceitar a execução de assassinos e se opor à execução de bebês inocentes. O mesmo princípio inspira ambas as convicções: que a vida humana inocente é tão valiosa que não deve ser destruída, e que aqueles que tiram uma vida humana inocente deveria pagar um preço elevado.

Não são aqueles pró-vida e pró-pena capital que são inconsistentes, mas aqueles que são a favor do aborto e se opõem à pena capital. Sua posição é a de executar o inocente e proteger o culpado.

7. É hipócrita ser pró-vida se não se adota bebês ou se ajuda no seu sustento

Assim como o argumento feminista, esse tipo de acusação tenta encerrar o debate, dessa vez, sugerindo que se deve demonstrar pessoalmente um compromisso para com as crianças que resultariam da restrição do aborto. Certamente, é uma coisa maravilhosa se alguém pode e está disposto a ajudar nesses casos. Mas argumentar ad hominem que porque alguém não vai ou não pode botar em prática as suas convicções em termos de ajuda direta, isso é um argumento errado, é confundir o argumento com o argumentador. Se algo é mais ou menos verdadeiro, isso não depende de quem o diz. Acusações de hipocrisia são fáceis de se fazer por aí, mas, embora possam prejudicar a reputação dos acusados, não afetam o seu argumento.

Dizer que uma pessoa não pode ser contra o aborto se não estiver disposta a adotar uma meia dúzia de crianças é como dizer que não se pode apoiar uma guerra sem se oferecer para lutar, ou que não se pode ser contra a escravidão sem estar disposto a alimentar e vestir muitos ex-escravos. Apoiar o direito à vida, à liberdade e à propriedade de uma pessoa não significa que se tem que apoiá-las de outras formas. Uma injustiça é uma injustiça.

Novamente, a maior hipocrisia vem da posição geral da esquerda política. Se um homem engravida a mulher, eles dizem, então é justo que ele assuma a responsabilidade pelo bebê. Mesmo que o pai não o queira, ele ainda assim deveria pagar pensão alimentícia para ajudar em sua alimentação, vestuário etc. Ele escolheu se arriscar a engravidar a mulher, então ele deve – dizem-nos – assumir a responsabilidade pelas conseqüências.

Isso tudo soa bastante razoável, e seria, se eles aplicassem o mesmo argumento para as mulheres. Mas eles não o fazem. Eles não dizem que a mãe escolheu se arriscar a engravidar e que agora deve assumir a responsabilidade pelo bebê que resultou. Em vez disso, dizem que a escolha sobre a vida ou a morte do bebê depende inteiramente dela, e que ela pode determinar essa escolha segundo sua própria conveniência. Essa é a verdadeira hipocrisia e inconsistência.

8. Restringir o aborto não faria diferença; significaria apenas mais mulheres morrendo em “abortos clandestinos”

Embora o argumento seja muitas vezes declarado dessa forma, claramente ele quer dizer algo diferente, com a diferença sendo mais mulheres morrendo em decorrência da restrição do aborto. Em primeiro lugar, será que as leis sobre o aborto e um clima pró-vida reduziriam o número de abortos? O melhor exemplo disso é a Polônia. Quando os soviéticos a deixaram, as tradições religiosas e humanitárias da Polônia ressurgiram. Nos anos 80 havia cerca de 100 mil abortos por ano. Em 1990, esse número era de 59.417. Então, claramente, quando as pessoas começam a acreditar que o aborto é errado, elas começam a mudar seu comportamento. Seria estranho, na verdade, sugerir que as atitudes sociais não são de modo algum afetadas pelas leis sobre aborto e pela aprovação democrática das mesmas.

Mas que dizer sobre a acusação de que o aborto significaria mais mortes em “abortos clandestinos”? Na verdade, o número decrescente de mortes por “abortos clandestinos” não foi muito afetado, nem na Inglaterra nem nos Estados Unidos, depois que o aborto foi legalizado nesses países. Também deve se enfatizar como são poucas as mortes com essa causa: cerca de três dúzias por ano em todo o território dos Estados Unidos, ou menos de um por estado. Assim, ou os abortos ilegais ou eram muito raros, ou muito seguros. Se eles são muito seguros, então não se pode argumentar que a proibição do aborto seria uma ameaça para a vida das mulheres. Se eles eram muito raros, então claramente as leis pró-vida desencorajaram, de fato, os abortos ilegais, salvando as vidas das mulheres em questão, e os bebês que foram concebidos.

Como um último exemplo desta tendência, em 1993 a Polônia proibiu o aborto, exceto em casos de estupro, incesto ou deficiência, e no ano seguinte, 782 bebês foram abortados legalmente (contra 100 mil há uma década), mas absolutamente ninguém morreu em um aborto ilegal.

9. Os abortos são justificáveis, pois eles mantêm a população limitada, diminuem o crime e poupam algumas crianças de uma vida miserável

O argumento utilitarista para o aborto é mais cruel do que a maioria dos outros, mas ele merece ser tratado. Mesmo que se admita que o feto é uma vida humana inocente, isso não significa proteção para ela, diz o argumento, porque tal proteção significaria uma população excessiva, permitindo que os bebês mais pobres nasçam e venham a cometer crimes ou fazendo com que alguém nasça em um lar infeliz.

Em primeiro lugar, deve-se questionar a idéia de que a população de qualquer país moderno ocidental é demasiadamente elevada. Na Grã-Bretanha, prevê-se que a população fique mais ou menos estável ao longo dos próximos cinqüenta anos, caindo um pouco. Para a estabilidade de uma população, cada mulher deve ter uma média de 2,1 filhos (2 para substituir ela e o pai, e 0,1 por conta de mortes no parto etc.). Na Grã-Bretanha essa média atualmente é cerca de 1,8; e são esperados 2 milhões de imigrantes durante a próxima década. Nosso problema não é que temos muitas crianças, mas sim que temos muito poucas. Grande parte da Europa moderna está agora a perdendo a sua cultura através de tantos abortos, e da necessidade de imigração em massa.

Em segundo lugar está o argumento de que o aborto afeta desproporcionalmente a sorte de certo tipo de pessoas que se tornam criminosos e, portanto, o aborto diminuiria o crime. Matar outro ser humano para conseguir essa diminuição é uma solução muito dura. Executá-los em sua infância por um crime que eles ainda não cometeram e nem poderão mais cometer é brutal. Um bom sistema de justiça criminal e de polícia bem como atitudes sociais respeitáveis combate melhor o crime. Não devemos pensar que matar inocentes é uma substituição adequada ou moral.

Em terceiro lugar vem a sugestão de que seria melhor para muitos bebês serem abortados do que serem adotados ou não-desejados. A arrogância de tal posição é clara: quem são eles para decidir isso no lugar das pessoas que ainda nem sequer nasceram? O que lhes dá o direito de declarar a vida de outra pessoa tão miserável a ponto de ser cortada fora no momento mesmo de seu início?

Em última análise, a moralidade civilizada é baseada em princípios não-negociáveis: o direito à vida é um deles. Dizer que tais noções podem ser comprometidas em nome da conveniência da sociedade em geral é uma defesa monstruosa e sem sentido do aborto. Se a vida humana inocente merece proteção, então é irrelevante. Se não, então é supérflua.

10. Mesmo que um mendigo venha a morrer se eu jogá-lo fora da minha casa no frio, eu tenho o direito legal de fazê-lo

Alguns no debate sobre o aborto admitem a imoralidade do mesmo, mas o defendem legalmente como se fosse questão de controle do próprio corpo. Pode-se ter o dever de cuidar de outro ser humano, mas a lei obrigar isso é impor à pessoa uma carga que não é razoável. Pode ser cruel, no meio de uma nevasca, não aceitar que um mendigo entre em sua casa, mas a pessoa tem esse direito legal. Porém a gravidez é diferente de qualquer situação de propriedade. Para estender a analogia do mendigo, se a pessoa tivesse convidado o mendigo para entrar em sua casa, e depois tivesse sugado seu cérebro antes de jogá-lo fora no frio, a lei olharia para isso de maneira um pouco diferente. Já que na gênese de quase todos os abortos está uma atividade sexual consensual – a escolha de arriscar uma gravidez – o bebê não é uma imposição, mas um inquilino escolhido.

Pode-se perguntar também sobre os direitos e deveres legais dos pais e de seus filhos. Nenhuma mãe poderia ser legalmente autorizada a jogar seu bebê fora no frio, só porque um dia pagou pela casa, como era seu direito. Por quê? Porque a maternidade traz consigo certas obrigações legais. Nós, portanto, concedemos o direito à vida e o “impomos” a um bebê recém-nascido, e com razão, mas não para um bebê por nascer. Essa não é uma obrigação permanente, e essa mãe poderia cuidar do bebê até o ponto em que ela poderia lhe dar para adoção. Mas isso poderia muito bem ser feito também por uma mulher grávida que não deseja o bebê. O que não permitimos com os bebês de 23 semanas de gravidez e já nascidos, mesmo prematuros, é a mãe matá-los. Infelizmente, por algum motivo que ninguém consegue explicar logicamente, nós de fato permitimos que bebês de 23 semanas dentro do útero sejam “evitados” de maneira mortal para o bebê [Nota do tradutor: Nos países onde o aborto é legalizado. No Brasil o aborto é crime]. Ninguém sugere que o bebê não é uma vida humana, nem que seja culpado de um crime. Mas ainda assim deixamos a nossa própria conveniência vir em primeiro lugar.

Ao invés de falar mal do aborto, eu pensei que poderia apenas rebater alguns mitos pró-aborto. Isso acabou ficando mais estruturado e mais divertido. Espero que inspire alguma meditação. Vou encerrar com uma citação que resume a posição pró-vida de forma justa e sucinta:

“A antiga lei permitia que o aborto salvasse uma das vidas quando as duas fossem morrer caso ele não fosse feito. A nova lei permite que o aborto tire uma vida, quando as duas iriam viver caso ele não fosse feito.” – Herbert Ratner.
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(1) “Untermenschen” é um termo alemão que significa “sub-humano”, “abaixo do humano”. É um terno da ideologia racial nazista, usado para descrever “pessoas inferiores”, especialmente as “massas do oriente”: judeus, ciganos, eslavos, soviets, homossexuais ou qualquer pessoa que não fosse “ariano”. “Nigger” é um termo pejorativo usado nos Estados Unidos para se referir a pessoas de cor, a maioria afro-descendentes. Nos tempos modernos é considerado um termo racista.

Peter Cuthbertson

Traduzido de:
https://www.freerepublic.com/focus/news/785378/posts

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