A ressurreição na vida do cristão

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Mais uma vez nosso coração se alegra diante do grande mistério sobre o qual se fundamenta a nossa fé cristã: a Páscoa, a Ressurreição de Cristo! Vivemos este momento todos os anos… a cada ano recebemos a imposição das cinzas, escolhemos uma penitência que nos ajude a mergulhar no espírito da Quaresma, vivemos esses quarenta dias nos quais procuramos rezar mais, fazer uma pequena revisão de vida que nos ajude em nosso processo de conversão.

Chegamos, então, à tão aguardada Semana Santa, tempo no qual nos parece que toda nossa vida é envolvida pelo mistério de Cristo. Vivemos cada dia com Ele, desde a Sua entrada gloriosa em Jerusalém, sob a aclamação do povo, passando pela Santa Ceia, Sua ultima refeição com os discípulos, na qual Ele nos deixou Seu próprio Corpo e Sangue, pelo sofrimento e agonia no Jardim das Oliveiras e pela traição de um dos Seus, até chegar à Cruz, onde Ele nos amou até o fim, foi obediente até o fim. Experimentamos o silêncio do Sábado Santo… uma sensação estranha de ausência de Deus, mas sabemos que neste dia fazemos memória da descida de Cristo à mansão dos mortos para resgatá-los, e por isso ao mesmo tempo vivemos a expectativa da grande Vigília Pascal.
Nesta celebração saboreamos a alegria da vitória da luz sobre as trevas! O Círio Pascal que avança e dissipa a escuridão nos insere neste momento de grande júbilo. Celebramos a vitória de Cristo sobre a morte, Ele que é a Luz do mundo! Cantamos «Aleluia» com toda a força, quase explodindo de alegria! Em seguida, vivemos e experiência do Cristo Ressuscitado, durante toda a oitava da Páscoa, juntamente com todos aqueles a quem Ele quis Se revelar – os Apóstolos, Maria Madalena, os discípulos de Emaús.
Vivemos este lindo caminho todos os anos… e depois de termos celebrado e vivido intensamente este tempo tão forte, o que realmente muda em nossas vidas? De maneira concreta, que diferença faz a Ressurreição de Cristo em nossa vida? Essa pergunta pode parecer chocante, mas é essencial que reflitamos sobre ela. Muitas vezes, vivemos estes momentos fortes de celebração, cantamos com fervor a vitória de Cristo sobre a morte e apenas alguns dias depois (talvez ainda durante a Oitava da Páscoa) já nos encontramos novamente esmagados pelo peso de nossas obrigações e afazeres, derrotados pelas dificuldades da vida, novamente sem alegria e esperança.
Sim, Cristo ressuscitou dos mortos! Ele venceu a morte, reabrindo ao gênero humano as portas do Paraíso! E essa é uma verdade que tem o poder de mudar concretamente a nossa vida, pois a Ressurreição de Cristo não é algo a ser celebrado apenas uma vez por ano, mas um fato que dá sentido à existência humana e que, portanto, nos sustenta em cada dia de nossas vidas.
Mas como isso se dá? Em primeiro lugar, a vitória de Cristo sobre a morte nos traz a certeza de que a morte não é o fim, de que fomos criados para a eternidade. Deus nos chamou à vida eterna, que poderia ser explicada como um “instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade”. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo – o antes e o depois – já não existe. Podemos somente procurar pensar que este instante é a vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastidão do ser, ao mesmo tempo em que ficamos simplesmente inundados pela alegria. Assim o exprime Jesus, no Evangelho de João: «Eu hei de ver-vos de novo; e o vosso coração alegrar-se-á e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (16,22).» (1).
O cristão é alguém que tem um rumo, que sabe para onde caminha. E alguém que embarca no navio da vida conhecendo o ponto de chegada dessa viagem; sabe que, chegando ao termo a vida terrestre, encontrar-se-á com o seu Criador, Aquele por Quem foi amado, resgatado e sustentado durante toda a vida, e também Aquele a quem amou e buscou encontrar todos os dias. Sim, a vida cristã precisa ser um alegre caminhar rumo à patria celeste, rumo ao encontro definitivo com Deus, quando O veremos face a face, tal como Ele é (cf. 1 Jo 3, 2). Dessa forma, o cristão, fortalecido pela fé na Ressurreição de Cristo, precisa ser no mundo um autêntico sinal de esperança, que é “a virtude teologal pela qual desejamos como nossa felicidade o Reino dos Céus e a Vida Eterna, pondo nossa confiança nas promessas de Cristo e confiando, não em nossas forças, mas no socorro da graça do Espirito Santo” (2).
Tudo isso tem uma implicação concreta e diária para nós. Sabemos que a vida é cheia de dificuldades, de desafios, de sofrimentos que nos vêm quando menos esperamos. E é justamente nesses momentos que a fé na Ressurreição de Cristo e a esperança precisam “fazer a diferença”. “Santo Agostinho diz: Aos cristãos não é poupado o sofrimento, aliás, a eles cabe um pouco mais, porque viver a fé expressa a coragem de enfrentar a vida e a história mais em profundidade. Contudo só assim, experimentando o sofrimento, conhecemos a vida na sua profundidade, na sua beleza, na grande esperança suscitada por Cristo crucificado e ressuscitado” (3). Cristo passou pela humilhação, pelo sofrimento mais cruel e profundo; Ele conheceu a morte para depois chegar à ressurreição. E hoje Ele caminha conosco, para nos conduzir, através dos combates da vida, até a vida eterna. “O verdadeiro pastor é Aquele que conhece também o caminho que passa pelo vale da morte; Aquele que, mesmo na estrada da derradeira solidão, onde ninguém me pode acompanhar, caminha comigo servindo-me de guia ao atravessá-la: Ele mesmo percorreu essa estrada, desceu ao reino da morte, venceu-a e voltou para nos acompanhar a nós agora e nos dar a certeza de que, juntamente com Ele, acha-se uma passagem. A certeza de que existe Aquele que, mesmo na morte, me acompanha e com o seu «bastão e o seu cajado me conforta», de modo que «não devo temer nenhum mal» (cf. Sl 23[22],4)” (4), alimenta a nossa esperança.
Mas não pensemos que a esperança nos leva, em função do desejo pela vida eterna, a um desprezo da vida presente. Não, pelo contrário, pois Deus confiou o mundo aos homens e mulheres! A virtude da esperança, porque nos lança na busca do eterno, nos faz descobrir o sentido da vida presente, que é dom de Deus; e nos revela a sua real beleza e o valor verdadeiro de cada coisa, enquanto presente de Deus para nós! Ela nos faz experimentar, em mistério, já aqui na terra, a graça e a alegria do céu, porque nos faz viver nossa vida terrestre na presença de Deus! Assim, o cristão é feliz porque espera a plenitude do que já experimenta neste mundo, e espera “porque é fiel quem fez a promessa” (Hb 10, 23). E feliz porque sabe que sua vida tem um sentido, uma direção, porque sabe que Deus tem preparado para aqueles que O amam coisas que os olhos não viram, que os ouvidos não ouviram e o coração humano jamais imaginou (cf. 1Cor 2, 9). É feliz ainda porque não caminha sozinho, mas acompanhado por Aquele que venceu a morte e nos abriu o caminho para o santuário eterno (cf. Hb 10, 19-20). E o mundo que nos rodeia geme como em dores de parto, aguardando ansiosamente a manisfestação dos filhos de Deus (cf. Rm 8, 22. 19); tem sede de um testemunho de verdadeira alegria e esperança diante das tribulações, dos sofrimentos da vida! Deixemos, pois, que o Cristo Ressuscitado nos tire das trevas, que a Sua vitória sobre a morte se concretize em nossa vida hoje e a cada dia, a fim de que sejamos para este mundo luzeiros que apontam o caminho da verdadeira vida!

(1) BENTO XVI, “Carta Encíclica Spe Salvi”, 2007, n.12.
(2) Catecismo da Igreja Católica, n. 1817.
(3) BENTO XVI, “Audiência Geral de 05 de novembro de 2008”.
(4) BENTO XVI, “Carta Encíclica Spe Salvi”, 2007, n.6.

Anelisa Savani
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

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