O Vaticano e sua diplomacia.O que os telegramas do Wikileaks revelam?

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A Igreja Católica é, por natureza, prismática: raciocina, pensa e fala tendo como referência os milênios, muitas civilizações e muitas línguas, como surge dos telegramas do Wikileaks.

A opinião é de Matteo Luigi Napolitano, professor associado de história das relações internacionais da Università degli Studi “G. Marconi”, de Roma, na Itália, em artigo para o sítio La Bussola Quotidiana.

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Nas revelações do Wikileaks, os elementos de fachada que acabaram na imprensa obscureceram a substância de documentos que, sendo autênticos, dão uma visão da diplomacia vaticana bem diferente da que apareceu nos jornais.

Só podemos fazer uma rápida síntese dos elementos que escaparam da atenção midiática e que se acham nos documentos vaticanos do Wikileaks.

No dia 3 de julho de 2001, o Departamento de Estado Americano desenvolveu para as embaixadas norte-americanas no exterior um longo resumo da política vaticana. Entre os tantos elementos que aparecem nesse relatório, surgem alguns verdadeiramente interessantes: o Vaticano “apoia o desenvolvimento do Terceiro Mundo e a isenção da dívida para os países mais pobres”; opõe-se ao embargo e por razões humanitárias; favorece o diálogo entre as fés religiosas. Sobre o Oriente Médio, o Vaticano certamente tem a tutela dos Lugares Santos, incluindo Jerusalém.

Chama a atenção também aquilo que é dito a propósito da China: “A Santa Sé – escreve o Departamento de Estado – tem excelentes fontes de informação sobre os dissidentes, sobre os direitos humanos, sobre a liberdade religiosa e sobre o controle governamental sobre a população”. Se levarmos em conta as difíceis relações com Pequim na época, esse não parece ser um elemento irrelevante.

Mas é o olhar supranacional do Vaticano que fascina os norte-americanos: “Os bispos, sem falar dos grupos missionários independentes, dão à embaixada vaticana uma perspectiva única sobre os eventos dentro da China”. E a Índia? Também nesse quadrante, depois das recentes violências anticristãs, “o Vaticano, os bispos locais e as muitas organizações missionárias são e continuarão sendo observadores atentos dos abusos sobre os direitos humanos e os desenvolvimentos relativos”.

Na Coreia do Norte, também se tem notícia de organizações de ajuda católica que visitam periodicamente o país, enquanto na região dos Grandes Lagos, na África, o Vaticano apoia a obra da Comunidade de Santo Egídio, que desempenha “um papel importante nos esforços internacionais para mediar a crise, mantendo o Vaticano informado sobre os seus esforços”.

Em Cuba, depois da visita do Papa, o Vaticano espera pelo momento em que Fidel Castro deixar a cena, embora tema que “a sua substituição possa ser pior”. Mas também é verdade (e um relatório anterior, datado do dia 22 de abril, revela isto) que, segundo a diplomacia vaticana, melhores relações entre Cuba e os Estados Unidos poderiam garantir o efeito de isolar o perigo revolucionário representado por Chávez e pelos seus acólitos. Além disso, como diz um outro documento da era Obama (datado do dia 26 de junho de 2009), “a Igreja é, em Cuba, a única maior instituição independente do governo”, e “o Vaticano espera por uma transição à democracia em Cuba”.

Entre as outras atividades humanitárias, Washington sabe muito bem que o Vaticano se ocupa também do combate do tráfico de seres humanos (cita-se o arcebispo de Pescara, como particularmente ativo nesse campo), que não tem uma posição alinhada com os Estados Unidos sobre o Iraque e que combate a pena de morte.

Passando para as questões europeis (assim informa um documento de Washington do dia 18 de agosto de 2004), é evidente que o Vaticano é favorável ao ingresso da Turquia na União Europeia, assim que observar os parâmetros de Copenhague. Certamente, o então cardeal Ratzinger havia manifestado algumas reservas com relação ao porte de uma adesão dessas. Mas deve ser acrescentado (e os documentos do Wikileaks confirmam isso) que, como Papa, Ratzinger se mostra não menos decidido do que o seu antecessor em favorecer a plena participação turca na União Europeia (como prova um documento da embaixada norte-americana no Vaticano, do dia 7 de dezembro de 2006).

Não menos positivo é o quadro que se obtém desses documentos do Wikileaks quando se aborda a questão das relações entre o Vaticano e as Nações Unidas (o Departamento de Estado fala sobre isso em um relatório do dia 20 de agosto de 2004). No Palácio de Vidro, a diplomacia vaticana está comprometida em combater o turismo sexual, principalmente o que causa dano aos menores, em favorecer as ajudas para os países mais pobres, em promover iniciativas que reformem o sistema internacional, reforçando a eficácia das ajudas humanitárias, em reforçar a condenação do antissemitismo entre os países democráticos e em fazer com que, com relação a isso, as Nações Unidas divulguem uma declaração especial, assim como fez a OSCE [Organização para a Segurança e Cooperação na Europa].

Parecem ser interessantes, mesmo nas recíprocas diferenças, os relatórios do Vaticano com a Espanha de Zapatero. No dia 19 de julho de 2007, por ocasião da viagem do Papa à Espanha, a embaixada norte-americana no Vaticano nota que Bento XVI “optou por um respeitoso diálogo sobre os ataques abertos contra a política do governo espanhol sobre o casamento dos gays, sobre o divórcio e sobre o aborto”. A mensagem papal, em que se reafirma o pensamento da Igreja, é dirigido “a todo o mundo ocidental, e não só à Espanha”.

Certamente, há diversos outros problemas que, aos olhos norte-americanos (mas são olhos de observadores externos, acima de tudo), parecem estar irresolvidos: como por exemplo o problema das relações judaico-católicas, junto com a questão da beatificação de Pio XII, Mas, às vésperas da viagem de Bento XVI à Terra Santa, um relatório da embaixada norte-americana junto à Santa Sé (datado do dia 27 de janeiro de 2009) nota como os responsáveis das relações judaico-católicas estão muito atentas a essas relações e que o Pontífice apostou tudo nessa partida, dado que as boas relações entre católicos e judeus “podem contribuir para combater o antissemitismo”.

Portanto, não deve surpreender que, aos olhos de Washington, o Vaticano goza de um prestígio diplomático totalmente particular. Em uma previsão à visita do novo presidente norte-americano Obama a Roma, pela embaixada norte-americana no Vaticano, do dia 26 de junho de 2009, indica-se que “o Vaticano é o segundo nos Estados Unidos no número de países com os quais mantêm relações diplomáticas (188 e 177 respectivamente)“, que o Papa imediatamente se alegrou e saudou o presidente pela sua eleição, que o L’Osservatore Romano é um jornal amigo e que o Vaticano aprovou particularmente a posição de Obama sobre os direitos humanos e sobre o fechamento da prisão de Guantánamo.

A embaixada informa também ao presidente que o Papa é promotor da liberdade religiosa em nível internacional e que aprecia o apoio norte-americano nesse campo. Bento XVI, além disso, “goza do respeito até dos não católicos” e é, assim, “um megafone moral sem comparações”.

O Vaticano, reforça-se nessas notas “foi muito explícito acerca da proteção dos povos mais vulneráveis do mundo pelo dano causado pela crise financeira global” e também acolheu positivamente o apelo do presidente Obama para “eliminar as armas nucleares”. Do ponto de vista religioso, a Santa Sé “trabalhou durante décadas pelo melhoramento da compreensão com o mundo islâmico” e, depois do 11 de setembro, também iniciou debates interconfessionais, como também depois do discurso de Regensburg.

Com relação às mudanças climáticas, são interessantes as observaçõres norte-americanas (apenas do dia 21 de janeiro de 2010) sobre a posição do Vaticano: este quer que o processo de Copenhaguen siga em frente e se preocupa com a proteção do meio ambiente.

Nenhum surpresa e muitas surpresas, se poderia dizer, nesses telegramas do Wikileaks. Frequentemente, houve um interesse maior pelas “luminárias” midiáticas, sem um interesse pelos pontos de reflexão que esses documentos podiam oferecer. Em nossa modesta opinião, mesmo a partir de uma leitura superficial, a diplomacia sai confirmada desses documentos, com um prestígio moral e diplomático verdadeiramente notável.

Mas o que escapou à maioria é também um outro elemento, que chamaríamos de perspectiva. A Igreja Católica é, por natureza, prismática: raciocina, pensa e fala tendo como referência os milênios, muitas civilizações e muitas línguas, como surge também dos telegramas do Wikileaks. Ter concentrado a atenção (e, o que é pior, preparado teses) só sobre o que pensavam os norte-americanos pareceu-nos totalmente fora de questão. Razão pela qual, mais uma vez, o estudioso deve ser cauto, porque ainda está desprovido dos instrumentos necessários para uma comparação, possível só com a abertura do maior número de documentos possíveis.

O que lemos no Wikileaks, como disse o diretor da Sala de Imprensa vaticana, reflete apenas as percepções dos autores desses documentos. Que não são necessariamente infundados, como vimos em uma investigação mais profunda. Mas que, porém, ainda não estão confirmados pela necessária comparação de cartas, tão cara aos historiadores. Mas também a muitos jornalistas.

Fonte: Blog Shalom – Carmadelio

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