Tradição e símbolos pascais

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“Pai!!! Mãe!!! Quem é que bota o ovo que o coelhinho traz na Páscoa? Por que o ovo é de chocolate? E por que o bolo que comemos na Páscoa parece uma pomba?” Muitos de nós podem já ter se deparado com uma criança com este tipo de questionamento. Alguns acham engraçado, e podem até ignorar a pergunta dessa criança, achando que é uma mera curiosidade sem importância, mas convenhamos que a pergunta é pertinente.

O que tem a ver Ressurreição de Cristo com coelho e ovos? Provavelmente conseguiremos inventar uma resposta, mas será que ela está correta? Assim agindo, estaremos mentindo para essa criança, talvez pelo simples fato de que talvez não tenhamos sido curiosos e até inteligentes como ela, aceitando passivamente essas tradições, sem saber seu significado, permanecendo ignorantes no assunto.
Como começaram essas tradições e símbolos pascais? Será que estamos realmente adotando um costume pagão, profanando a comemoração da Páscoa, acusações frequentemente feitas aos católicos por alguns irmãos separados? Como sabemos, tais costumes são e devem ser sempre “periféricos”, isto é, não fazem parte da essência da comemoração da Páscoa, cujo centro deve ser sempre a Pessoa de Jesus Cristo, sua morte e ressurreição. Contudo, tais costumes e tradições fazem parte da nossa cultura, e é importante termos uma noção sobre como eles surgiram para poder educar melhor a nós e às pessoas com quem convivemos.
Muitos desses símbolos, tradições e costumes surgiram há muito tempo, e pode haver certa discordância entre as diversas pessoas que pesquisaram sua origem. Alguns desses símbolos surgiram em culturas pagãs da Europa (principalmente entre os povos bárbaros). A religião cristã, ao evangelizar e entrar em contato com essas culturas, absorveu esses símbolos num processo de inculturação, fazendo uma releitura destes à luz de Cristo, retirando deles o que era contrário ao Evangelho e dando-lhes um novo significado. Aqui estão talvez as explicações mais aceitáveis do aparecimento de alguns destes símbolos, lembrando que não abordaremos os símbolos litúrgicos, mas os que estão mais relacionados aos costumes populares.
O cordeiro: é o símbolo mais antigo da Páscoa. Na primeira Páscoa, celebrada pelo povo hebreu, no Egito, cada família sacrificou um cordeiro, alimentando-se dele, de pães sem fermento (ázimos) e ervas amargas, gesto que foi repetido e celebrado pelas diversas gerações do povo judeu até os dias de hoje, como recordação do grande feito de Deus em prol de seu povo: a libertação da escravidão do Egito, e posteriormente aliança feita entre Deus e o povo judeu na páscoa da antiga lei. Assim, o cordeiro tornou-se animal símbolo da Páscoa. Os cristãos, ao celebrarem a Páscoa, também adotaram a simbologia do cordeiro, porém com um novo significado. Este é o próprio Jesus, o Cordeiro de Deus, como proclamou João Batista, que foi sacrificado na cruz pelos nossos pecados, e cujo sangue nos redimiu: “morrendo, destruiu nossa morte, e ressuscitando, restituiu-nos a vida”. Relembrando o profeta Isaías: “Brutalizado, ele se humilha, não abre a boca; como um cordeiro é arrastado ao matadouro, como uma ovelha emudece diante dos tosquiadores: ele não abre a boca. Ele foi transpassado por causa de nossos crimes e não abriu a boca” (Is 53, 5-7). O cordeiro é símbolo da mansidão, da pureza, da obediência, da docilidade.
O coelho: Essa tradição surgiu entre os povos do norte da Europa. O coelho era símbolo de algumas deusas dos povos germânicos, saxônios, celtas e escandinavos, deusas relacionadas à fertilidade. Como sabemos, o coelho ou a lebre é um mamífero roedor, animal extremamente fecundo, com ampla e rápida capacidade de reprodução, chegando a gerar de 4 a 8 vezes por ano. Como os índices de mortalidade durante o período frio do ano eram altíssimos na Europa antiga, o símbolo do coelho surgiu como representante de vida nova, de proliferação e de abundância. No processo de inculturação, ele passou a simbolizar a Igreja que, pelo poder de Cristo, é fecunda em sua missão de propagar a Palavra de Deus a todos os povos, além de simbolizar também a ressurreição, pois remete à idéia de vida nova.
O ovo: também simboliza o nascimento, a vida nova, a Ressurreição de Cristo. Esse símbolo surgiu durante a Idade Média, pois nessa época era proibido consumir ovos durante a Quaresma, o que fazia com que muitos deles se perdessem. Começou-se a decorar as cascas de alguns ovos, sendo os ovos coloridos distribuídos na celebração da Páscoa, costume que ainda existe, principalmente nos países do leste europeu. São famosos os da Ucrânia, chamados Pêssanka. Na Rússia, chegou-se a confeccionar ovos com materiais preciosos, verdadeiras obras-primas da joalheria, que eram oferecidos como presentes de Páscoa aos membros da família real, os famosos ovos Fabergé. Na Alemanha, alguém teve a idéia de associar o coelho aos ovos, e as crianças passaram a confeccionar ninhos que deixavam no jardim de suas casas ou em seus quartos, esperando que os coelhos os enchessem com ovos coloridos. Há também uma lenda de que uma mulher pintou alguns ovos de galinha para dá-los a seus filhos como presente de Páscoa, escondendo-os para que as crianças os achassem. Quando as crianças encontraram os ovos, viram um coelho correndo. Surgiu então a lenda de que o coelho é que havia trazido os ovos.
O ovo de chocolate: tradição surgida na França. O cacau, cujo nome científico é Teobroma cacau, significa néctar dos deuses, originário da América, chegando à Europa no século XVI. Na França, no século XVIII, teve-se a idéia de esvaziar um ovo e enchê-lo de chocolate. O sabor e força energética do chocolate sempre foram reconhecidos em toda a Europa. Ao tomar o formato de um ovo, representou mais intensamente a força rejuvenescedora da vida. O ovo de chocolate é, portanto, símbolo da vida imanente, oculta, misteriosa, que está por desabrochar.
A colomba pascal: é um bolo em forma de pomba, surgido na Lombardia, Itália. Segundo a tradição, o rei lombardo Albuíno estava prestes a invadir a cidade de Pavia, quando um confeiteiro local deu-lhe de presente um bolo em formato de pomba (colomba, em italiano), pedindo paz àquele conflito, obtendo sucesso, tornando-se a partir daí uma tradição pascal, que depois se espalhou. Simboliza também a vinda do Espírito Santo.
O girassol: tradição não muito comum no Brasil. O girassol é uma flor grande, com pétalas amarelas, recebendo este nome por estar sempre voltado para o sol. Representa a busca da luz que é o próprio Jesus e, assim como o girassol segue o sol, os cristãos são chamados a buscar Cristo, luz para todos os povos.
O maracujá: tradição surgida no Brasil, um tanto quanto esquecida, mas que foi importante na catequese dos índios. Seu nome científico é Passiflora, ou seja, flor da paixão, pois a flor do maracujá é evocativa da Paixão de Cristo. Suas pétalas são das cores vermelha e roxa, cores usadas na Quaresma e Semana Santa. Possui uma coroa semelhante à coroa de espinhos de Jesus e três estigmas, representando os cravos com os quais Cristo foi pregado à cruz. Tem cinco anteras que representam as cinco chagas de Cristo, e as gavinhas, com a quais o maracujazeiro se agarra ao suporte, simbolizam os açoites. O fruto redondo e amarelo do maracujá representa o mundo, redimido por Cristo.
Mas será que é lícito nos utilizarmos destes símbolos nas nossas comemorações pascais? Podemos nos presentear com ovos de chocolate? Não estaríamos pecando e cometendo um atentado contra o verdadeiro significado da Páscoa? Primeiramente, precisamos relembrar alguns fatos. Nas últimas décadas, o capitalismo, através do grande desenvolvimento das técnicas de propaganda e marketing, tem transformado quase tudo em fonte de lucro, além de incutir na sociedade um comportamento extremamente consumista. E a Páscoa não ficou imune a isto (assim como o Natal, o dia das mães, dos pais, das crianças, festas juninas…). Isso fez com que as tradições que citamos aqui perdessem seu sentido original, bem como a sua riqueza e força simbólica. Foi como uma inculturação ao contrário, na verdade, uma profanização. E não adianta passarmos a ignorar estes símbolos, tradições e costumes pelo fato de que eles tiram o foco de Cristo na celebração da Páscoa. Eles já fazem parte da nossa cultura, e se nós não resgatarmos o seu sentido original, eles vão continuar a ser utilizados de uma forma cada vez pior. É necessário que nós regatemos o seu sentido, primeiro para nós mesmos. Depois, para as crianças, que vêm sendo criadas desde muito pequenas com essa mentalidade consumista. Os símbolos, mesmo os não litúrgicos, os populares têm um caráter pedagógico, mas é preciso que eles sejam explicados. Eles também podem nos conduzir, especialmente as crianças, a penetrar em um ou mais mistérios de Cristo e da Igreja. Mas sempre relembrando que esses costumes e tradições populares jamais podem ser o centro da celebração da Páscoa, que deve ser sempre o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo.
Talvez assim, resgatando o verdadeiro sentido desses símbolos, costumes e tradições populares pascais, nossa sociedade aprenda que o maior presente que podemos receber na Páscoa não é um mero ovo de chocolate, mas sim receber a maior notícia que o mundo já ouviu: CRISTO RESSUSCITOU, ALELUIA! SIM, VERDADEIRAMENTE RESSUSCITOU, ALELUIA!

Fonte
Evaristo de MIRANDA, “Guia de curiosidades católicas”, Vozes.

Ricardo Bidóia
Consagrado na Comunidade Católica Pantokrator

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