A cruz vai acontecer com Cristo ou sem Cristo

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cruz

Falar sobre cruz e sofrimento nos dias atuais soa como um verdadeiro absurdo. Vivemos em tempos em que o prazer e o bem-estar são cultuados ao extremo. Inseridos nesse mundo hedonista, que rejeita qualquer tipo de sofrimento, seja em que grau for, será que ainda somos capazes de enxergar nas nossas cruzes algum sentido e a manifestação do amor de Deus por nós?

Colhendo os frutos do sofrimento

Mesmo sendo cristãos, muitas vezes, demoramos a acolher as cruzes que a vida nos propõe por acreditar que não suportaremos vivê-las. Por medo do sofrimento, deixamos de conhecer os benefícios que elas podem nos trazer.

O sofrimento é inerente à vida humana. Assim como a alegria, o amor, a ira, a tristeza…  o sofrimento faz parte da natureza humana. Todo homem e toda mulher passam por cruzes em alguns momentos de suas vidas. Elas são inevitáveis. Porém, podemos escolher se sofreremos as cruzes rejeitando-as e ignorando-as, quando possível, ou se aprenderemos com elas, colhendo frutos de fortaleza, sabedoria e maturidade.

Quem nunca conheceu uma pessoa madura, forte e realizada, que passou por uma grande tribulação? Os sacrifícios e sofrimentos, grandes, mas também os pequenos e cotidianos, quando vividos com amor, fé e esperança no Senhor, nos moldam, nos amadurecem, nos elevam e nos realizam. Quem não se sente profundamente feliz tendo realizado um trabalho árduo e colhido seus frutos? Ainda que o mundo inteiro o aplauda, só quem o realizou sabe o quanto custou e conhece seu verdadeiro valor!

O sentido do sofrimento

A psicologia explica que o homem é capaz de encontrar sentido em seu sofrimento. Viktor Frankl, médico psiquiatra austríaco e fundador da escola de psicoterapia da Logoterapia – Teoria do sentido da vida – vivenciou sua própria teoria nos campos de concentração nazistas, em busca do sentido da vida.

“Porque o que importa, então, é dar testemunho do potencial especificamente humano no que ele tem de mais elevado e que consiste em transformar uma tragédia pessoal num triunfo, em converter nosso sofrimento numa conquista humana. Quando já não somos capazes de mudar uma situação (…), somos desafiados a mudar a nós próprios”.  1 

Ele ainda diz que: “Ao aceitar esse desafio de sofrer com bravura, a vida recebe um sentido até seu derradeiro instante, mantendo esse sentido literalmente até o fim. Em outras palavras, o sentido da vida é um sentido incondicional, por incluir até o sentido potencial do sofrimento inevitável”. 2

Diante de uma situação de sofrimento inevitável, como uma doença grave, uma perda profunda, um desemprego duradouro ou uma grande frustração, é possível transcender e buscar sentido na dor e na cruz. O que essa situação espera de mim? O que posso aprender com ela? Qual a minha missão diante dessa situação? Missão que é própria de cada um, para qual se é insubstituível e não há como ser trocado por outro. O homem é único e exclusivo, só ele pode realizar o que se espera dele. Este fato o torna responsável por sua vida e pela continuidade da vida diante dos desafios e cruzes.

A sabedoria da Cruz

No entanto, é na Cruz de Cristo que o sentido encontra-se em sua plenitude. Sendo os sofrimentos e as cruzes inevitáveis, com Cristo ou sem Ele, elas farão parte da nossa vida. Mas podemos escolher vivê-las com sabedoria, dando sentido a elas.

É próprio do ser humano rejeitar o sofrimento. Cristo, em Sua humanidade, também teve medo e clamou, no Monte das Oliveiras: Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice!” 3 Porém, Ele acolhe a vontade do Pai: Todavia, não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres”. 4

O Amor de Cristo transcendeu o sentido da Cruz. O que era tragédia, a morte de Jesus, transformou-se na Salvação dos homens.

Amando nossa cruz diária, independente de seu tamanho, em espírito de oferta e sacrifício, também nós, nos tornamos capazes de transcender seu sentido, redimindo o mundo e a humanidade, através da graça de Deus.

“O grande segredo da vida cristã, São Paulo nos revela em 1Cor 1,18: “ A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina”. O segredo é este: fazer da Cruz não um peso, mas uma graça; é amar a Cruz, pois ela nos revelará o Reino dos Céus”. 5

Que o Espírito Santo nos dê a coragem e a sabedoria divina para que sejamos capazes de viver nossas cruzes e sofrimentos com verdadeiro sentido, colhendo os frutos de amor e salvação em nossas vidas, na Igreja e no mundo.

Adriane Luz 
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator

  1. Em busca de sentido, Viktor E. Frankl, página 136.
  2. Em busca de sentido, Viktor E. Frankl, página 138.
  3. e 4. Mt 26,39.
  1. RVESP Título V, Cap III, Seção II, parag. 24.

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