A intervenção divina na cura da depressão

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A depressão é hoje, sem dúvida, um fenômeno social e patológico que afeta grande parte das pessoas. Todo mundo ou boa parte dele conhece alguém que teve ou diz estar com depressão. Neste texto, temos a pretensão de abordar não apenas aspectos clínicos e patológicos da depressão, mas, indicar e aprofundar como a fé é grande aliada no processo de cura, bem como meios que Deus utiliza no processo de cura e de retomada da fé e da vida como um todo.

A Organização Mundial de Saúde (2001) deflagrou o alerta de que a depressão alcançou índices epidemiológicos alarmantes, a tal ponto de ser uma das patologias que mais causa perdas econômicas no mundo, ao lado do câncer, de doenças cardíacas e de doenças infecto-contagiosas como a AIDS, a tuberculose e etc.

Fundamentalmente, a psicopatologia psiquiátrica afirma que a depressão é um transtorno de humor, segundo o Manual e Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais (DSM; APA, 2002, 2014), ou um transtorno afetivo, segundo a Classificação Internacional de Doenças 10ª edição (CID-10; OMS, 1993), caracterizado por um determinado quadro sintomatológico, em que estão presentes tanto sintomas psíquicos quanto corporais. São eles: humor deprimido e/ou maníaco, pensamentos negativos, culpa excessiva, ideação suicida, apatia, alterações no sono, alterações no apetite, agitação ou retardo psicomotor e fadiga. No entanto, o diagnóstico é dado a partir do preenchimento de alguns desses requisitos, de maneira objetiva e descritiva.

Outro olhar mais subjetivo, a partir da psicologia e psicanálise, considera que a depressão está ligada a um desinvestimento do sujeito sobre si mesmo, um apagamento psíquico-emocional de modo que o sujeito por si só não consegue “força” interna para gerir suas atividades e necessidades pessoais, familiares e comunitárias. Um estado de desânimo interno em que nada tem sentido, gosto e sabor; de modo, que a explicação desse estado estaria localizada na constituição do eu do sujeito, ou seja, na formação psíquico-emocional do sujeito que ocorre principalmente em sua infância. Um estado de desamparo emocional que faz o sujeito a voltar-se para si mesmo a pouca energia que sente ter.

A depressão tem destaque não apenas no âmbito da ciência como também no senso comum, ou seja, tornou-se expressão popular. Mas,  é importante destacar que tem um sentido psíquico-emocional para utilizar-se deste termo, ou seja, atualmente troca-se a palavra dor ou sofrimento, pela palavra “depressão”, ou seja, não estou sofrendo, mas, estou depressivo, como se isso já aliviasse ou explicasse o que se  sente no psiquismo e nas emoções, sendo até mesmo, já aí, um modo de não querer tratar, mas, apenas querer se aliviar com medicações e/ou compreensão social e familiar.

No entanto, para ter um diagnóstico se faz necessário um processo de avaliação e tratamento com terapia e, em muitos casos, a utilização de medicamentos.

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Pessoas focadas em si mesmas, extremamente apegadas às suas coisas, aos seus bens, às pessoas. Aqueles que colocam suas esperanças e forças nas pessoas, nas realizações pessoais, nos bens materiais estão fadados, em algum momento da vida, em sentir depressão. Ao passo que a minha vida, estando voltada para mim mesmo, fará com que eu adoeça, desanime e sinta-me deprimido.

Já aqui neste ponto, podemos indicar uma verdade que Deus e a fé vêm nos trazer, que nos é um caminho na cura para a depressão: minha vida não é minha, minha vida é para o outro e para me colocar em relação com o outro, com o meu próximo.

A depressão é caracterizada por uma fixação “narcísica” das nossas energias internas, ou seja, a grosso modo, direcionamos nossa energia para nós mesmos. Coloco-me em relação com o próximo, como o centro desta relação e quando esta não me satisfaz sinto-me frustrado, não satisfeito, não atendido em minhas expectativas e necessidades, isso pode se dar sem que eu tenha consciência racional clara das minhas intenções.

De modo que em todas as minhas relações com o mundo, em todas as inúmeras áreas da vida, possuem essa marca da necessidade primeira da minha satisfação. Quando isso não ocorre, sinto-me em um estado intenso de insatisfação ao passo que me sinto ao ponto de não existir, sou ameaçado pelas circunstâncias da vida, sou machucado pelos acontecimentos contrários à satisfação narcísica necessária ao meu “eu”. É um machucar interno, um estado de alma, sem vida e valor.

E como Deus me livra ou me ajuda na depressão?

Primeiramente, precisamos entender e fazer a experiência de que Deus É e nós não somos; existimos n’Ele, e sem Ele não há vida em nós. Deus Se revelou assim: “Eu sou Aquele que É!”. A expressão “Deus é amor” caracteriza um Deus que é em Si mesmo doação, cheio, pleno e que Se doa incansavelmente e perenemente, sem reservas e sem medidas, para que eu e você encontremos n’Ele as forças e o jeito de se viver a partir d’Ele.

Quando eu compreendo que eu não sou, e não preciso ser em tudo, mas que há um Deus que me ama e cuida de mim em tudo, e que posso depender d’Esse Deus, saio do centro de minha vida e permito que Ele ocupe e reine neste lugar. Este já é um grande e importante passo na cura da depressão.

Faz-se importante esclarecer que há casos em que pessoas vivenciam um estado crônico de depressão, que vai além de suas forças humanas, sendo necessária uma intervenção divina, uma cura sobrenatural. São pessoas que vivenciam uma relação com Deus, que conhecem a Deus, mas que mesmo assim, vivenciam esse estado interno e, da mesma forma, a confiança neste Deus é o remédio, além, é claro, dos tratamentos psicoterapêuticos e, em muitos casos, medicamentosos. No entanto, na grande maioria dos casos, essa tomada de consciência é o primeiro estágio mesmo naqueles que já vivem a fé.

Quando fazemos a experiência deste amor e nele assim confiamos, entendemos que tudo que nos acontece é providencia e está nos planos deste Deus que nos ama. Assim, não colocamos nossas energias em nós mesmos, nas pessoas, nas famílias, no trabalho, mas, antes em Deus.

Quando a fé me leva a receber tudo o que me acontece como obra da bondade de Deus, não há em mim temor, pois é assim que a Palavra de Deus nos diz: “no amor, não há temor”; então, passo a receber tudo como graça, como providência, até mesmo, aquilo que é negativo: desemprego, traições, perdas de pessoas importantes, dentre tantas situações que assolam a vida humana. Porém, quando a fé me leva nesta certeza, mesmo que eu sofra, tenho forças que não são minhas para permanecer, e levantar-me e continuar a vida.

Num terceiro ponto, Deus me ensina que o caminho é a doação, sair de mim mesmo, dos meus “ensimesmamentos”, deixar de lado minhas necessidades e passar a me doar ao outro. A Palavra de Deus nos diz: “se tem mais alegria em dar do que em receber”, ao passo que me dou, sinto que há vida em mim. Lógico que aqui não falo de um dar egoísta, voltado a mim mesmo, mas de um se doar que é em muitos casos exigente, que me tira do meu comodismo e individualismo e me faz ir de encontro à necessidade do meu próximo. Um doar que me faça sofrer, em muitos casos. Deus Se dá, doa-Se a mim e a você, a todo momento, e nos ensina essa dinâmica. Ao passo que muitas de nossas tristezas são geradas porque vivemos a vida presos em nós mesmos.

Outro ponto em que Deus me ajuda a vencer a depressão é reconhecer que preciso do outro, que não me basto, que não sou suficiente e que preciso pedir ajuda até mesmo para encarar a depressão que me faz sofrer. Sempre achamos que seremos aquele que acolhe e, em muitos casos, seremos nós o acolhido, seremos aquele que será cuidado. Isso é manifestação do amor de Deus na vida de quem é acolhido e na vida daquele que acolhe.

Por fim, e até mesmo o caminho que leva a todos os outros acima descritos, é a oração. Muitas pesquisas científicas estão considerando a oração como meio curativo e terapêutico. Esse dado é importante porque comprova cientificamente nossa necessidade de rezar, pois não há encontro com Deus sem a oração, não há confiança sem a oração, não há saída de si para ir ao encontro de alguém sem se movimentar; e o movimentar na fé é a oração.  O caminho para se encontrar com Deus é pela oração e é por ela que se exercitará a confiança, a humildade de se reconhecer como dependente deste Deus que É e que tudo governa. Então, antes de tudo, reze em todos os momentos sem cessar, saia de si para se encontrar com este Deus que é amor.

Quando me relaciono com alguém diferente de mim, que me faz sair deste mecanismo vicioso, já é um início de cura. Ao passo que vou entendendo e permito que a minha vida não esteja alicerçada em mim mesmo, nas minhas forças.

Julio Della Torre
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator

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