A ira é algo ruim?

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A ira é muito bem conhecida como um dos sete pecados capitais. Assim que ouvimos essa palavra, nossa mente já se remete a uma infinidade de sentimentos negativos. Revolta. Irritação. Cólera. Impaciência. Raiva. Ódio. Todo bom cristão sabe que a ira como paixão pode resultar em pecados graves e nos afastar de Deus. A ira contra um irmão que te irrita ou que te machuca, a ira com algum desejo não realizado, com alguma situação desfavorável… Em todos esses casos, de fato, ela não é virtuosa. Demonstra falta de bondade, paciência e mansidão.

Mas o que poucos sabem é que, no fundo, o problema da ira não se encontra na revolta em si, e sim nos motivos irracionais e nos desejos fúteis e carnais que empregamos nela. Isso significa, então, que se ordenássemos nossos desejos a ira poderia chegar a ser, de algum modo, boa?

Veja bem, o próprio Deus sente a ira! Ela é quase como Sua marca registrada no Antigo Testamento. Isso deveria responder a pergunta por si só, afinal, se o próprio Deus a sente, como ela poderia de qualquer modo ser totalmente ruim? A realidade é que a ira é um componente natural do psíquico humano, como nos diz o Catecismo da Igreja (cf. § 1764). Sendo assim, ela é neutra: não possui natureza boa nem ruim, apenas adquirindo uma faceta ou outra de acordo com nossas intenções, nossa razão e nossa vontade. Tendo em vista tudo isso, não há por que ter dúvidas em afirmar que a ira Divina é, por mais esquisito que isso possa soar, uma das mais poderosas maneiras que Deus tem de nos amar. Sua ira é contra o pecado. Sua ira é uma profunda revolta contra o mal que toca a Sua criatura. Com Sua ira, Deus rejeita o pecado com tanta intensidade que permite ao pecador sentir a amargura dos seus atos e então voltar para casa.

ira

Ao contrário do que muitos pensam, isso não muda com a vinda de Jesus. Cristo, em Sua vida terrena, experimenta a ira e, assim como todas as outras coisas que Ele toca, a santifica. “Em seguida, Jesus entrou no templo e começou a expulsar os mercadores. Disse ele: ‘Está escrito: A minha casa é casa de oração! Mas vós a fizestes um covil de ladrões!’” (Lc 19, 45-46). São Lucas narra a revolta do Senhor ao se deparar com o desrespeito e a falta de amor ao Sagrado e ao que pertence a seu Pai, no caso, o Templo. No fundo, a passagem significa muito mais que isso. Jesus usa da ira para defender aquilo que é do Reino. E é assim que devemos agir como cristãos.

Aquela ideia de pacifismo que se instalou na mentalidade cristã nos últimos anos é errônea de muitas formas. É claro que não devemos procurar pela guerra e discórdia, mas é dever de um cristão defender o que é de seu Deus e de seu povo. Manter-se passivo diante das profanações não é o chamado do cristão! Somos soldados do Reino! Isso justifica as Cruzadas, as Cristiadas, as vidas perdidas dos mártires. Eles foram movidos pela Santa Ira para ter a coragem de ir contra aquilo que os homens queriam fazer, pretendendo destruir a Igreja e a fé do povo. No final das contas, a ira pode se tornar impulso para que busquemos a santidade. Ela é combustível da força e da coragem, demonstra profundo zelo e amor pelas coisas do Alto e repulsa contra o mal que existe em nós e no mundo.

Irar-se como o Pai

“O Rei­no dos Céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam” (Mt 11, 12). De que violência Jesus está falando quando diz tudo isso? É justamente da violência contra o pecado! A violência vem da ira, da repulsa. Sabe quando vivenciamos algo tão ruim que nos faz revirar o estômago? É essa ira que devemos ter diante do pecado em nós. É essa a ira Divina que Deus Pai manifesta no Antigo Testamento e que devemos tomar posse. O pecado é tão impregnado na alma humana que arrancá-lo exige brutalidade, Jesus também nos diz isso quando manda arrancarmos a própria mão caso ela nos leve a pecar. Sem a ira, essa energia é fraca. Precisamos nos revoltar com o mal que fazemos e com as brechas que damos assim como Deus Pai sente repulsa para vencer essa batalha diária e contínua.

Irar-se como o Filho

“É que o zelo de vossa casa me consome, e os insultos dos que vos ultrajam caem sobre mim.” (Sl 68, 10). Além do ódio ao pecado que existe em nós mesmos, assim como aconteceu com Jesus no Templo, nos é necessária a ira da indignação com a infidelidade e perdição do mundo. Os Salmos, quando dizem a “vossa casa”, referem-se a nada menos que toda Jerusalém Celeste e a Obra Divina. Tamanho deve ser o nosso zelo e cuidado pelas coisas do Alto que ver homens as difamando e insultando deve nos consumir por dentro e, não parando nisso, nos impulsionar a querer levar a salvação a todos eles. A ira como  a de Cristo deve nos fazer lutar pelo cuidado das coisas de Deus, pelo respeito a Ele e Sua Igreja, e ainda gerar em nós o ardor missionário, um ardor que dói na alma quando nos damos conta dos rumos de perdição que a humanidade toma hoje.

Não se culpe, então, quando alguém age ou diz algo tão distorcido ou mundanizado perto de você e você se sente irado. O mundo não sabe mais o que é amor, o que é dignidade e o que é justo. E que bom se você se sente indignado e revoltado com tudo isso. Inclusive, pode ainda sentir-se envergonhado por fazer parte da mesma raça animal. Essa ira é a boa ira, é a ira de um coração que ama tanto a Deus e a Igreja que não suporta as tentativas do inimigo de derrubá-la.

Ela pode ser ruim se empregada pelos motivos errados, mas a ira boa é um instrumento de santidade indispensável na vida do homem numa sociedade tão deturpada como a atual. Pois bem, quando alguém mexe com nossos pais, irmãos ou amigos que muito amamos, nossa primeira reação é nos revoltarmos e defendê-los de alguma forma. A boa ira é isso: consequência do amor intenso e profundo. Se não a tivermos em nossa busca de santidade, pode ser que não estejamos amando a Deus e sonhando com o Céu da forma que deveríamos estar. Sem a ira, não lutamos contra a ação demoníaca com a mesma feracidade. Sem ela, não desenvolvemos a coragem necessária.

Não tenha medo de odiar o mundo, não tenha medo de odiar o pecado. É só assim que daremos passos reais para possuir uma alma que cada vez menos pertence a esse mundo e que cada vez mais pertence ao Reino de nosso Bom Deus.

Giovana Cardoso
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator 

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