A Mentira Nossa de Cada Dia

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A mentira é algo tão infiltrado em nosso dia-a-dia que ela se assemelha a um alimento, ou melhor, a algo que nos vicia… Desde o amanhecer somos tentados a nos alimentar da mentira. Ainda na cama e vem ela se insinuando, nos tentando convencer que sua proposta é uma verdade… afinal de contas, nossa noite foi mal dormida, o dia anterior… uma catástrofe, e isso é uma boa desculpa para dormirmos um pouco mais; e para justificar tal atraso já nos surge a solução: uma mentira – talvez uma mentirinha, bem pequenina, que não faz mal a ninguém, não é? E assim se sucedem, durante todo o dia, mentiras, talvez grandes – ou cabeludas, como dizemos – talvez pequenas, quase sem importância, praticamente inofensivas. Mas são mentiras, todas elas. São como o único cigarro que se voltou a fumar, quando já se tinha parado; como o único copo de cerveja, quando se está lutando para deixar o alcoolismo… e vão nos viciando, até tornar-nos dependentes.

mentir
Por que mentimos? Toda essa tendência à mentira vem da marca do pecado original e a mentira tem como finalidade, desde sempre, amenizar um suposto sofrimento ou fazer alcançar um beneficio que não se tem direito. A mentira quer ser verdade; sempre se disfarça de verdade e assim nos engana. Desde o inicio foi assim… desde lá somos enganados por algo (e alguém) que se parece com a verdade, mas que não é. Essa é a grande arma do Inimigo. A mentira quase sempre é lógica e é desenvolvida pela lógica e por isso nos convence de que é verdade… E como bons cristãos temos em nós o firme propósito de sermos fiéis a Deus. Entretanto, trazemos em nós esta marca de pecado que nos leva a nos amar mais do que a Deus. Prezamos mais por guardar nossa imagem, nossa suposta reputação – que na verdade não corresponde ao que as pessoas vêem – do que zelarmos pela verdade e a assumirmos em nossa vida, diante de Deus, da Igreja, dos homens; ou ainda, prezamos mais pelo dinheiro, pelo sucesso, pela conveniência, do que pela honestidade, pela sinceridade, pois não podemos sair no prejuízo.

Tudo isso é causado pela inversão de valores que sofremos (e absorvemos, quase sempre) em nosso dia-a-dia. Outro fator ainda que nos leva a mentir é a comparação e a inveja. Dizemos (ou somos movidos por este sentimento): Fulano conseguiu tal coisa pois disse que tinha uma baixa renda. Acho que também vou me cadastrar nesse programa e ver se consigo tal desconto, afinal, estou tão apertado financeiramente este mês… se conseguir isso posso comprar o computador que tanto desejo! Ou ainda: Beltrano faltou e justificou sua falta ao patrão dizendo que tinha ido ao médico, quando na verdade foi fazer entrevista em outra empresa. Então, também vou fazer isso: vou ao médico bem cedo, pego atestado e depois faço a entrevista naquela empresa. Estes são exemplos de mentiras que possivelmente praticamos em nosso dia-a-dia. Devemos estar atentos às nossas atitudes e vigiar para não cedermos a tentação de abraçarmos a mentira e suas facilidades.

Da mentira se originam outros males como a traição, a corrupção, o latrocínio, o roubo, o estelionato, a falsificação, entre muitos outros. Nada de bom pode sair de uma mentira, portanto, nada justifica uma mentira.
O Diabo é o pai da mentira; o mentiroso é filho dele. Certa vez, vi na TV Canção Nova uma chamada falando sobre o pecado, que mostrava primeiramente uma taça com vinho que tinha um pequeno furo, simbolizando o pecadinho; depois aparecia outra taça com vinho com um furo grande onde o vinho vazava rapidamente, simbolizando o pecadão. Então vinha a grande “sacada”: eis a diferença entre pecadinho e pecadão: NENHUMA. Assim acontece com a mentira. Não há diferença entre uma mentira grande e uma pequena: todas são mentiras. É claro que as conseqüências serão maiores, quanto mais grave for a mentira e quanto maior número de pessoas atingir. Para representarmos melhor isso, podemos recorrer a outra figura: aquele que calunia uma pessoa assemelha-se ao que atira um saco de penas do alto da torre da igreja da cidade; ele pode desculpar-se, arrepender-se, porém o estrago está feito e dificilmente trará novamente a dignidade da pessoa caluniada, tão quanto conseguirá recolher todas as penas atiradas novamente ao saco.

Como todo vício, mentir é progressivo. Se não se tem um projeto de se livrar desse vício, ele vai nos levando, nos afundando cada vez mais numa vida vazia, de ilusão. Hoje conto uma mentira. Amanhã, conto outra para sustentar a primeira. E assim se vai mentindo… a mentira vai se alastrando em todas as áreas de nossa vida: na profissional, com o pretexto de resguardar a imagem, ou por orgulho, ou por inveja; na vida matrimonial, com o pretexto de encobrir traições, defeitos, misérias, passado; na vida pessoal moral e social, por vergonha de se ter pecado, por medo ou por egoísmo (quem já não atendeu a um telefone pedindo que dissessem que não estava em casa!), para levar vantagem em tudo, para se afirmar perante os outros (isso fazemos desde crianças!). Tudo isso vai se aprofundando; as pessoas já não confiam mais em nossa palavra, ou até em nossas atitudes – nem nós mesmos confiamos em nós. E tudo parece acabar num poço sem fundo.

Contudo, o homem também trás em si o desejo da verdade. Não fosse assim, não existiria o Direito, a Moral, a Ordem, a Lei. E esse desejo, que vem da sede de Deus, de algo que transcende o próprio homem, é que o leva a sair deste poço e romper com este ciclo de mentiras; é a Verdade que o leva a assumir sua verdade. Alimertar-se da sua verdade.
Alimentar-se da Verdade! Este sim deve ser o pão nosso de cada dia!

Edgard Gonçalves
Consagrado na Comunidade Católica Pantokrator

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