Amar a Deus no necessitado

1

É comum nos depararmos cotidianamente com um número expressivo de moradores de rua. São inúmeras as situações em que somos abordados por eles seja no semáforo quando pedem dinheiro ou quando estacionamos o carro em ruas na região central. Eles são visíveis e presentes mesmo quando queremos ignorar a sua existência e colocá-los na indiferença. Cada um deles é um necessitado que deixou tudo – mesmo que este tudo não tivesse grande valor material – para permanecer nas ruas seja para beber, brigar ou procurar algo mesmo que seja incerto.

No ponto de vista social eles denunciam a ineficácia das políticas públicas para atender as parcelas vulneráveis e a falência na gestão, eles incomodam! Em uma visão psicológica/psicanalítica o mendicante opta por residir nas ruas. Foram oferecidas inúmeras possibilidades para que ele deixasse essa realidade, mas muitas vezes ele persiste nessa escolha por uma ilusória sensação de liberdade. Mas eles não se sentem pertencentes a nada, não têm referência nem lugar. Não há identificações psíquicas que sustentem uma organização neurótica para manter vínculos estabelecidos e permanentes. Eles têm apenas o limite das ruas – que na realidade não fornecem limites algum – sem segurança, amparo, estabilidade, regras morais ou leis sociais. Demonstram a solidão e fragilidade psíquica-emocional que muitos de nós vivemos, mas que é amenizada já que conseguimos manter nossos vínculos estabelecidos e protegidos. Eles nos angustiam e nos dão medo!

Diante dessa realidade precisamos ter um olhar cristão, em (1Jo 3,18) o apóstolo do amor diz: “Filhinhos, não amemos só com palavras e de boca, mas, com ações e de verdade!”. O Papa Francisco também aborda muito sobre essa questão e tem nos dado exemplos relacionados ao tema os quais podemos ter como referência para olhar para esses irmãos que estão a nossa vista. Um dos casos foi que o Pontífice pediu para instalar chuveiros ao redor do Vaticano para que os moradores de rua pudessem tomar banho, além de conceder roupas e alimentação, já que “cuidar dos necessitados é um dever do cristão”.

….o texto continua após imagem….

Cristo presente no necessitado

Há um mistério presente na figura dos moradores de rua – “Cristo se faz presente!” – escondido por trás do mau cheiro, das roupas sujas, embriaguez, do olhar ausente, da fome e da violência. Cristo está por completo na pessoa do necessitado! Quantos santos já disseram isso? Inúmeros!

No Evangelho de Lucas (cf. Lc 10, 25-37) há a figura do bom samaritano que é a personificação de Jesus. O bom samaritano, ao descer de Jerusalém a Jericó, se depara com um homem que havia sido assaltado e que estava à beira da morte. Sua atitude imediata foi a de acolher e salvar aquele homem.
Somente Jesus pode pagar o preço do nosso pecado e é Cristo que sofre e quer ser consolado na figura de cada “irmão de rua”. Deus pergunta a Caim “Onde está seu irmão?” e hoje nós somos questionados pelo Pai: “onde Eu estou?” Podemos encontra-Lo presente na figura de tantos na nossa vida, mas há um lugar especial no qual Cristo quer ser encontrado: na figura de cada sofredor, do irmão necessitado que espera o nosso consolo.

necessitadoHá uma passagem marcante na vida de São Francisco de Assis. Quando o santo foi expulso da casa de seu pai, rasgou as vestes e ficou nu como demonstração de desapego e recusa da vida velha, como rompimento dos desejos do pai. Quando recebeu uma capa para se cobrir a dividiu com um pobre e o acolheu. No evangelho de Mateus 5,42, há a seguinte citação: “dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe empreste”.  Para concretizar de forma prática e simples o ensinamento de São Francisco costumo levar uma fruta ou alimento a mais comigo quando vou de um trabalho para o outro. Sempre que algum necessitado pede algo para mim, dou a ele alimento. É preciso encontrar Deus nesses irmãos e não podemos deixar que passem pela nossa vida sem que demos pelo menos um olhar de consolo e amor a eles. É Deus que vem a nós e pede.

Faça um exercício espiritual de oração e caridade, de dar algo a todos que te pedirem: seja alimento, dinheiro, roupas, palavras de amizade e acolhimento.  É preciso ouvir, ter olhar atento e menos desconfiança. Deus quer que encontremos Sua presença e beleza na pobreza e feiura, Sua vontade e missão no caos e abandono na vida desses irmãos que nos provocam a sair de nós e a darmos algo.

Júlio Della Torre
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator

1 COMENTÁRIO

Deixe uma resposta

Por favor, insira seu comentário!
Por favor, insira seu nome aqui.