Apostar na Palavra, incondicionalmente

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Estamos quase chegando ao final da Quaresma, mas o que devemos aprender não deve terminar com ela. A lição da Quaresma é para nos acompanhar pela vida. Cada Quaresma, uma graça especial.

Esse ano, meditando sobre a Liturgia da Palavra da primeira semana da Quaresma, deparei-me com um texto já bem conhecido e refletido: as tentações de Jesus no deserto (Lc 4, 1-13), texto de abertura quaresmal. Como a Palavra de Deus é viva e, por isso, sempre nova, algo que me tocou bastante, e gostaria de partilhar com você, é essa relação entre a esperteza do demônio e a sabedoria de Jesus.

A Palavra de Deus

Jesus estava com várias necessidades naquele momento, havia passado quarenta dias jejuando no deserto, e o inimigo, sabendo disso, logicamente, resolve dar início a sua estratégia de combate. (Assim age Ele também conosco, especialmente nessas ocasiões em que podemos encontrar mil justificativas para ceder). Pois bem, começa a tentar Jesus apelando para suas necessidades físicas, básicas, a fome! Jesus rebate com a Palavra, dizendo que nem só de pão vive o homem! Muito bom, mas o inimigo não desiste, tenta novamente, mudando o foco. Apresenta agora as riquezas, as maravilhas do mundo, o poder, talvez até um messianismo fácil, que satisfizesse as expectativas da maioria, na época. Novamente, Jesus rebate com o “Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás”!  Vendo fracassadas as duas primeiras tentativas, ele muda a estratégia e vira o jogo. Aquilo que Jesus usava para combater, para se defender das tentações, o inimigo agora usa para O atacar. A Palavra! O inimigo manipula a Palavra como lhe convém, para conseguir aquilo que deseja! Usa a Palavra para tentar Jesus. Apela agora para sua identidade profunda e um fácil reconhecimento dela, para o ser O Filho de Deus, para o “ser reconhecido, valorizado” (todas essas velhas tentações, mas com novas roupagens!) e usa a Escritura para convencê-lO, insistindo: “Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo! Porque a escritura diz (…) e mais ainda (…)”. Recita a Escritura como um doutor! “E mais ainda”!  Como quem está coberto de razão! … Aqui cabe uma pausa para reflexão, antes de lermos a resposta do Mestre. Como se o inimigo nos desafiasse e esperasse nossa resposta.  Jesus já havia vencido por duas vezes, pela Palavra, mas e agora? Que fazer diante desse “imprevisto”? Mudar a estratégia de combate e usar outras defesas? A Palavra já não serve mais nesse caso? Não. Aqui, é a hora de continuar a apostar na Palavra de Deus. Jesus continua combatendo com a Palavra e diz, (meio que em sentido duplo talvez) ”Não tentarás o Senhor teu Deus”. Jesus não desiste da Palavra, aposta nela e vence.

Quantas vezes o inimigo usa aquilo pelo qual nos defendemos para nos atacar? Quantas vezes, ele não se apoia em nossas justificativas para virar o jogo? E quantas vezes nós desistimos de apostar na Palavra por parecer que ela falhou, ou que não se aplica ao nosso caso? Ou então por pura falta de conhecimento, intimidade, adesão e amor por ela? Será que a temos, verdadeiramente como defesa, como espada do Espírito (cf. Ef 6, 14-17)?  Avante! Apostemos na Palavra de Deus, incondicionalmente. Na tentação e fora dela. Apostemos em Jesus Cristo, incondicionalmente. Quando me convém e quando não me convém. Isso é fidelidade, isso é ser cristão e é isso, e só isso que nos fará vencer o bom combate.

Rosana Vitachi
Consagrada na Comunidade Pantokrator 

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