Aprenda a ser fiel no pouco e Deus te confiará muito mais

1
fiel

É próprio do homem amar assim como é próprio da luz iluminar. Se pensarmos em nossa história pessoal com sinceridade e profundidade concordamos com São João (cf. 1Jo 4,10): antes de qualquer amor surgir em nosso coração, nós fomos amados. Deus, que é fiel, nos amou primeiro e o nosso amor será sempre uma resposta; um segundo passo.

“A quem ama não é necessário ensinar a fidelidade” (São João Paulo II).

Disto se compreende o porquê de que essa resposta não pode faltar no coração de um homem ama a Deus, que deseja ser fiel a Deus. O amor a Deus não é apenas uma resposta das tantas qualidades do coração do homem: é a primeira verdade que Deus revela a nosso respeito. Santo Agostinho nos recorda que o ser do homem foi feito para responder ao amor de Deus, quando diz: “Senhor, fizestes-nos para vós e o nosso coração está inquieto, enquanto não repousar em vós”.

Por isto, amar a Deus não é um luxo ou um acessório dispensável e sim a realização de nosso próprio ser. Assim, como é natural que uma videira dê fruto ou que uma abelha produza mel, é natural que um homem ame Deus, que Lhe seja fiel. O primeiro mandamento “amar a Deus de forma ciumenta e caprichosa” é o conselho de um Pai amoroso que nos ensina o caminho de felicidade.

Devemos confiar nesse amor imenso, infinito e eterno, de modo que reconheçamos a bondade de Deus e para que agradeçamos a Ele pelos os inúmeros favores e benefícios que nos concedeu.

Há também aqueles benefícios que só conheceremos na eternidade, quando se desdobrar ante nossos olhos o plano completo de Deus para nós. Seremos como crianças pequenas que se dão conta do amor de sua mãe quando esta lhes sacia a fome e lhes cura as feridas. Aquelas que reconhecem o amor do pai quanto este lhes dão presentes e brinca com elas, mas não têm menor consciência das precauções, cuidados, previsões, planos, das preocupações e sacrifícios que se derramaram sobre esses seres pequenos despreocupados.

…o texto continua após imagem…

Coração fiel e agradecido

Devemos a Deus um coração agradecido pelos dons que não conhecemos mais do que por aqueles que conhecemos. Deus nos chama a permanecer n’Ele. “Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos, conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,31b).

Seremos capazes da fidelidade a Deus se em tudo permanecermos em Deus. “O escravo não fica na casa para sempre, mas o filho sim, fica para sempre” (jo 8,35). Nessa permanência no Pai está a nossa fidelidade que se dá na liberdade de ser filho de Deus, filho do Senhor de tudo, que n’Ele nos faz senhores do mundo que o governa segundo o projeto inicial: “Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra” (Gn 1,28b).

Deus precisa de homens que vivendo no mundo purifiquem o mundo. Homens obedientes, pobres e castos – não separados deste – mas próximos a ele, para que pela fidelidade possam testemunhar que a santidade ainda é possível, é plenamente possível.

Ser fiel nas coisas simples e pequenas

Mas essa fidelidade ao Pai é mergulhada no mistério da fé e se realiza no mundo como “santidade comum” pela força da esperança. É necessário descobrir a força e a alegria das respostas de fidelidade seja nas coisas simples e pequenas, na vida cotidiana ou nas grandes, nos milagres. “Para os puros todas as coisas são puras” (Tt 1,15). Se formos puros em Deus, buscaremos Deus em tudo e em tudo desejaremos encontrar Deus. Aqui se trata de “oracionalizar” tudo, pois como diz o apóstolo: “estamos decididos a procurar o bem em tudo” (Hb 13,18).

Ordenar a Deus todas coisas é dar a elas o sentido salvífico. Aqui não se trata apenas do encontro com Deus, mas fazer com que o mundo encontre-O. É como que fazer coincidir o mundo com Deus, santificar, libertar as várias realidades do homem do pecado. Desviar do curso do pecado para ordenar para o curso de santidade, sacralizando todas as coisas, pois para os que são conduzidos pelo Espírito nada há de profano, tudo tem sentido em Deus. Nessa perspectiva, devemos dar a tudo o seu sentido mais profundo e belo e que se encontra no Criador do universo.

Mas nesse mistério muitas vezes somos chamados a viver as renúncias. Se hoje em uma boate a dança é sinal de sensualidade, o divertimento é sinal de promiscuidade e de erotismo. Se existem todos esses males em algo que deveria ser bom devemos rejeitar, porque ali há uma situação de deformação de coisas boas como o namoro, a amizade, a própria dança e diversão.

Como muitas vivências positivas foram afastadas do sentido de Deus somos chamados a renunciar situações enganosas do maligno, seja nos programas de TV, na música, nas amizades, nas redes sociais, no WhatsApp, no trabalho, nos relacionamentos afetivos e no meu eu mais profundo. “Nós, os homens de hoje – dizia Paulo VI – estamos perdendo o sentido do pecado”. “Talvez o maior pecado do mundo seja o fato de que os homens terem perdido o sentido do pecado”.

Quando ouvimos pela primeira vez um absurdo, dizemos ou pensamos: “Isso é uma monstruosidade!” Mas se o escutamos cinquenta vezes corremos o risco de nos acostumarmos e de imaginar que “não é tão ruim assim”, que “todo mundo faz, todo mundo diz…”, que não se pode “perder o trem da História”, que é preciso “modernizar-se” e assim acabamos por admitir a monstruosidade como a coisa mais natural do mundo.

Em junho de 2018 nos deparamos com as notícias do resgaste dos meninos presos na caverna Tham Luang, na Tailândia, o mundo inteiro acompanhou e muitos de nós rezamos pelos jovens, pelo treinador, pelos socorristas, por suas famílias e por toda missão de resgate. Milagrosamente um final feliz e lições desse episódio que marcou a história. Algumas frases dos “Javalis Selvagens” (como a mídia está usando para se referir a esses garotos) chamam a atenção: “Fomos negligentes com nossas vidas (ao entrar na caverna). Não sabíamos o que ia acontecer e não sabíamos o futuro. Seremos mais cautelosos e vou viver minha vida plenamente”. “Esse episódio é a maior experiência que já enfrentei. Ensinou-me a ser mais forte, a não desistir facilmente”.

São lições para nós de fidelidade, a “corda guia” para nós é a doutrina da Igreja, um carisma de uma comunidade, como no meu caso. “Os primeiros mergulhadores”: aqueles profetas que abrem os caminhos para salvação; a “base de operação”: os sacramentos; “a entrada da caverna”: a nossa abertura de coração; “os socorristas”: os anjos que Deus coloca em nossas vidas; os nossos orientadores espirituais; os formadores; os sacerdotes; um amigo ou alguém que se sacrifica para que outros possam viver. “O medo, a fome, a escuridão”: nossas misérias e infidelidades; “o oxigênio”: o Espírito Santo; “a nova chance de viver”: nossas respostas, nossas decisões de viver uma vida plena, uma vida santa.

É preciso estarmos vigilantes e orantes. Devemos ter coragem de ir na contramão do mundo. Não se trata de renunciar à estrutura, mas à superestrutura de pecado que se impôs sobre a estrutura santa criada por Deus. É a renúncia não do bem, nem do mal, mas do bem deformado pelo mal. É preciso dizer não. É necessário viver uma vida de santidade, uma fidelidade autêntica, honesta e corajosa, ser fiel no pouco e no muito, não se deixar levar pelas seduções enganosas do maligno e não ter medo de proclamar o senhorio santo de Deus nas misérias, lutas, dúvidas,  caminhada e chamado.

Confie em Deus, faça-se dependente d’Ele. “Só assim estaremos em condições de santificar o mundo a partir de dentro, sendo do mundo sem ser mundanos. Deus nos chamou a todos para que o imitássemos; e a vós e a mim para que, vivendo no meio do mundo – sendo pessoas da rua!, soubéssemos colocar Cristo Senhor Nosso no cume de todas as atividades humanas honestas. Sem amor de Deus não pode haver verdadeira justiça e verdadeira liberdade. Se quisermos fazer algo de bom, positivo e eficaz por este nosso mundo, não poderemos conformar-nos com ele, mas lutar por ser santos” (São Josemaría Escrivá).

Lucimara Vieira
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator

Fontes: Santidade Comum pela fidelidade Incondicional (Documento Comunidade Católica Pantokrator)
Que meu cansaço a outros descanse (Documento Comunidade Católica Pantokrator)
Olhar para Maria (Antonio Orozco Delclos – Ed. Quadrante)
Um olhar que cura (Pe Paulo Ricardo – Ed. Canção Nova)

1 COMENTÁRIO

Deixe uma resposta

Por favor, insira seu comentário!
Por favor, insira seu nome aqui.