Celebrar sem viver: é possível?

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A vida de todo cristão é marcada pela presença de Jesus Cristo. Desde o seu nascimento, os primeiros momentos de conhecimento da doutrina que o preparará para a Crisma e o grande encontro da Eucaristia, bem como a recepção dos demais Sacramentos, são momentos de íntimo relacionamento com o Senhor. Por sua vez, o homem deve dar uma resposta alegre e positiva a esses “encontros”. Mesmo que, individualmente, o cristão corresponda ao Senhor com gestos de piedade, é na Liturgia, na dimensão eclesial, que sua resposta acontece de modo mais eficaz e completo. Por isso, a Liturgia é o ponto de encontro com o Senhor por excelência. Por isso o Concílio Vaticano II adverte que os fiéis devem participar da Liturgia com conhecimento de causa, ativa e frutuosamente (1).

Em Liturgia, cada palavra, cada gesto, cada movimento contém o mistério e nos faz mergulhar nele, levando-nos a um maior aprofundamento de nossa fé. A Liturgia é uma ação sagrada por excelência, cuja eficácia, no mesmo título e grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja (2). É o conjunto de ações rituais e simbólicas (celebrações litúrgicas) através das quais a obra sacerdotal do Cristo – de louvor a Deus e de santificação dos homens – realizada de uma vez para sempre no Mistério Pascal, continua na Igreja até o fim dos tempos.

A Liturgia é, portanto, de importância tão capital, que nos Seminários se solicita cuidado especial para que o jovem candidato ao presbiterado receba formação condigna. No dia de sua ordenação, ele receberá do bispo ordenante a admoestação: “Tomai consciência do que fazeis e ponde em prática o que celebrais”. No entanto, essa admoestação não cabe só a ele, mas a todo batizado, que também celebra os mistérios de Deus.

O centro e o ápice da vida litúrgica é a Eucaristia. “Aquele que comer a Minha Carne viverá por Mim” (Jo 6, 57b). Essas palavras de Jesus nos permitem compreender que o mistério “acreditado” e “celebrado” possui em si mesmo um tal dinamismo, que faz dele princípio de vida nova em nós e forma da existência cristã. De fato, comungando o Corpo e o Sangue do Senhor, vamos nos tornando participantes da vida divina de modo sempre mais adulto e consciente. Com efeito, não é o alimento eucarístico que se transforma em nós, mas nós é que acabamos misteriosamente mudados por ele. O culto cristão engloba todos os aspectos da existência, transfigurando-a: “Quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus” (1Cor 10, 31). Em cada ato da sua vida, o cristão é chamado a manifestar o verdadeiro culto a Deus; daqui toma forma a natureza intrinsecamente eucarística da vida cristã. Uma vez que abraça a realidade humana do crente em seu concretismo cotidiano, a Eucaristia torna possível dia após dia a progressiva transfiguração do homem, por graça chamado a ser conforme à imagem do Filho de Deus (cf. Rm 8, 29s). Nada há de autenticamente humano – pensamentos e afetos, palavras e obras – que não encontre no sacramento da Eucaristia a forma adequada para ser vivido em plenitude. Sobressai aqui todo o valor antropológico da novidade radical trazida por Cristo com a Eucaristia: o culto a Deus na existência humana não pode ser relegado para um momento particular e privado, mas tende, por sua natureza, a permear cada aspecto da realidade do indivíduo (3). A fé cristã é exigente e radical: dizer “católico praticante” é pleonasmo. O autêntico católico não é simplesmente aquele que participa do culto litúrgico e celebra, mas aquele que vive o que celebra, que vive segundo aquilo em que crê e o vive em todas as dimensões de sua existência: de nada valeria minha presença num Templo, se depois minha vida vai por outro caminho totalmente diferente. Ser cristão não é um acidente ou uma casualidade em nossa vida, mas é parte essencial de nossa identidade como pessoa humana, cujo conceito somente no cristianismo assume seu sentido pleno.

Viver segundo o domingo

A novidade radical que a Eucaristia introduz na vida do homem revelou-se à consciência cristã desde o princípio; prontamente os fiéis compreenderam a influência profunda que a celebração eucarística exercia sobre o estilo da sua vida. Santo Inácio de Antioquia exprimia essa verdade designando os cristãos como “aqueles que chegaram à nova esperança” e apresentava-os como aqueles que vivem “segundo o domingo” – iuxta dominicam viventes (4); significa viver consciente da libertação trazida por Cristo e realizar a própria existência como oferta de si mesmo a Deus, para que a sua vitória se manifeste plenamente a todos os homens através duma conduta intimamente renovada. Assim, o preceito dominical assume grande importância como fonte de liberdade autêntica, a fim de podermos viver cada um dos outros dias segundo o que celebramos no “dia do Senhor”.

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A comunhão tem sempre e inseparavelmente uma conotação vertical e uma horizontal: comunhão com Deus e comunhão com os irmãos. Ao participar no sacrifício da Cruz, o cristão comunga do amor de doação de Cristo, ficando habilitado e comprometido a viver esta mesma caridade em todas as suas atitudes e comportamentos de vida. Em suma, no próprio culto, na comunhão eucarística, está contido o ser amado e o amar por sua vez os outros (5). Uma Eucaristia que não se traduza em amor concretamente vivido é em si mesma fragmentária (6).

A espiritualidade da Berakah

Um modo simples e cheio de significado de celebrar a vida e viver o que se celebra no ordinário de nosso dia pode ser extraído da tradição judaica, de cujo rico patrimônio somos herdeiros. Trata-se da espiritualidade da berakah, termo normalmente traduzido como benção, louvor, agradecimento, e que condensa toda a riqueza e originalidade do pensamento hebraico na relação do homem com Deus, com o mundo e com seus semelhantes. Com a oração de benção, o israelita reconhece a Deus como origem e “proprietário” das coisas; o mundo, como dom que deve ser aceito e compartilhado; os homens, como irmãos com os quais participa do único banquete da vida.

Sem a berakah, o mundo fica triste e opaco, fechado em si mesmo e destinado ao mal: “quem usa os bens deste mundo sem recitar uma benção profana uma coisa santa”, diz a tradição judaica. Graças à berakah o mundo recupera seu esplendor original, descobrindo em tudo a presença do Sentido, isto é, do Sagrado. Dentro dessa perspectiva, tudo é razão para bendizer a Deus. De acordo com a tradição judaica, precisa-se recitar uma benção diante de qualquer coisa. “Quem vê um lugar no qual foram realizados milagres em favor de Israel, deve dizer: ‘Bendito seja Quem realizou maravilhas em favor de nossos pais neste lugar’. Quando se tratar de montes, colinas, rios e desertos, deve dizer: ‘Bendito seja Quem realiza a obra da criação’. Quem vê o oceano deve dizer: ‘Bendito seja Quem fez o oceano’. Quem construiu uma casa nova e comprou um enxoval novo deve dizer: ‘Bendito seja Quem nos deu a vida, no-la conserva até este momento’”. Dentre todas as bênçãos que devem ser elevadas a Deus, têm particular importância as que estão ligadas aos frutos da terra. Antes de alimentar-se com o pão, o judeu reza: “Bendito sejas, Senhor Deus, Rei do universo, que produzes o pão da terra”; antes de beber um copo de vinho: “Sê bendito, Senhor nosso Deus, que criaste o fruto da videira”; ao olhar o grão: “Sê bendito, Senhor, que crias os alimentos da terra”; ao utilizar-se de um perfume: “Bendito sejas Tu, Senhor, que crias as ervas perfumadas” etc… Além de bendizer o Senhor pelos frutos da terra, o judeu o faz também pela Torah: “Sê bendito, Senhor nosso, Rei do universo, que nos deu a Torah da verdade, que alimenta e alegra o coração dos homens e que plantou em nosso meio a vida eterna” (7).

Quando S. Y. Agnon (1880-1970) recebeu a notícia de que seria contemplado com o prêmio Nobel (1966), fez logo uma berakah: “Bendito sejas, Senhor, que és bom e fazes o bem”; e quando chegou a Estocolmo para receber o prêmio e viu o rei da Suécia, recitou esta outra berakah: “Sê bendito, Senhor, que fazes os mortais participarem de Tua glória”. Não existe, portanto, “algo” que não seja ocasião de uma berakah. Também as realidades negativas, tais como a injustiça ou a doença, em vez de levar ao enclausuramento sobre si mesmo e ao desespero, são motivo para a benção e louvor. Desses exemplos uma coisa fica bem clara: a berakah é a expressão de uma inteligência transparente, capaz de ver toda a realidade sob uma nova luz. Ela é a maior das atividades porque tem o poder de “fazer novas todas as coisas” (cf. Ap 21, 5) (8).

Se o judeu bendiz a Deus mesmo no sofrimento porque tem a inabalável esperança messiânica, o que, então, faremos nós, cristãos, que, com o advento de Jesus Cristo tivemos nossas esperanças confirmadas na salvação que Ele nos traz??? Com a berakah nos lábios e no coração, temos um auxílio oportuno para viver o que de modo tão rico celebramos. No Cristianismo, celebrar sem viver esvazia o sentido do que se celebra, pois o cristão celebra para viver. Eis a beleza e a riqueza da Liturgia cristã, que tem essa função mistagógica de nos conduzir para dentro do mistério que celebramos, para que, mergulhados nele, vivamos aquilo a que nos propusemos pelo Batismo e aguardemos com jubilosa esperança “a vida do mundo que há de vir” (9).

(1) Cf. “Constituição Sacrosanctum Concilium”, 1963, n. 11.
(2) Cf. SC 7.
(3) Cf. BENTO XVI, Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, 2007, nn. 70; 71.
(4) Epístola aos Magnésios 9, 1: PG 5, 670. 204.
(5) Cf. BENTO XVI, “Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis”, 2007, n. 82.
(6) Cf. BENTO XVI, “Encíclica Deus caritas est”, 2006, n.. 14.
(7) C. DI SANTE, “Liturgia Judaica”, São Paulo, 2007, pp. 50-54.
(8) Cf. Ibidem.
(9) Credo Niceno-Constantinopolitano.

Kátia Maria Bouez Azzi
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

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