Quem aqui nunca passou noites em claro quando algo importante estava prestes a acontecer em sua vida? Ou até mesmo, quem nunca sentiu aquele frio na barriga ao se aproximar de uma situação com a qual se anima ou a qual teme muito?

Pois é! Desde o momento que nascemos somos assim, somos ansiosos. Uns mais, outros menos, mas todo mundo já experimentou esse sentimento pelo menos algumas vezes. E não, não há absolutamente nada de errado nisso. Muito pelo contrário, estranho seria se não tivéssemos emoções diante do movimentar de nossas vidas. Sentir-se ansioso às vezes é completamente saudável e bom!

Mas, assim como todos os outros sentimentos e hábitos, as coisas boas só permanecem boas se vividas com equilíbrio. O desandar da vida interior começa justamente na desordem dos nossos sentimentos que, originalmente, foram feitos para ser bons. A ansiedade, particularmente, é um dos que mais mexem com a nossa alma, pois ela envolve todos os aspectos e campos daquilo que somos e vivemos. Infelizmente, ainda, é ela também uma das emoções que mais vem sofrendo distorções ao longo das gerações, adentrando níveis que, como muito se vê ultimamente, podem chegar a ser patológicos e resultam em diversos bloqueios humanos e espirituais.

Agora, não estou falando mais daquela viagem empolgante que se aproxima ou da pessoa querida que você vai encontrar mais tarde. Estou falando de coisas mais profundas, coisas que significam muito, onde a ansiedade sutilmente se enraíza e rouba nossa paz pouco a pouco. Estou falando do futuro, das possibilidades, de uma entrevista de emprego, de uma prova ou de um relacionamento. Também estou falando de chamado, vocação e discernimentos. Estou falando da nossa pressa, do tempo de Deus, e de como tudo facilmente pode virar uma grande bola de neve.

Como tudo isso começa, afinal?

Acredito que cada um tenha seu próprio gatilho para dar abertura à ansiedade desenfreada em sua vida. Todavia, de forma geral, o desequilíbrio desse sentimento pode ter algumas fontes principais: a desvalorização dos sentimentos, a supervalorização das coisas e a desconfiança de Deus.

No seu aspecto natural, a ansiedade é um sentimento que pode ser incômodo na maioria das vezes. Assim, em um mundo desesperado pela fuga do desconforto e do sofrimento, ela é encarada como negativa. Por isso, cada vez mais as pessoas a sufocam e se cobram muito para “não estar nem aí para nada”. Acontece que não conseguimos ser assim, não fomos feitos para isso. Em algum momento, tudo aquilo que vamos engolindo vai explodir dentro de nós, e quando isso acontecer, o que era para termos sentido em medida normal, sentiremos numa dimensão triplicada. Como se tudo isso não bastasse, além de nos inquietarmos demais, nós nos inquietamos porque estamos inquietos. Esse é o resultado da desvalorização dos sentimentos!

O segundo ponto também está relacionado com isso. É a supervalorização das coisas. “Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração.” (Mt 6, 21). É Jesus quem nos diz! Quanto mais colocarmos nosso coração em pequenos tesouros, mais seremos afetados por eles. Não é ruim ter bens, mas precisamos saber dar a eles o espaço que eles realmente merecem em nossos corações. Que valor você dá para as situações que você vive? Você age como se aquela prova fosse a razão da sua vida? Ou como se um desentendimento fosse acabar com seu relacionamento para sempre? Por que seu coração se inquieta tanto com as coisas corriqueiras? Será que você não está dando a essas situações mais valor do que elas realmente têm? Quanto mais dependentes formos das coisas terrenas, mais ansiosos seremos.

Afinal, ansiedade é isso. É basicamente resumida a uma agitação interior, uma tensão, uma alma sem paz. Ela é a expressão de um desejo ou um medo muito grande, um estremecer do coração. Se as coisas terrenas têm tamanho valor para ti, maior será tua ansiedade sobre elas! Essa emoção é capaz de penetrar nossa alma com tanta severidade que podemos até chegar a viver em estado de constante agitação, sem motivos aparentes. Por isso é necessário  cuidado. O tratamento com profissionais especializados nesses casos é muito recomendado; todavia, é preciso sempre lembrar que de nada adianta o mundo inteiro tentar lhe ajudar se você não quiser ser ajudado.

A terceira fonte do descontrole da ansiedade pode, por sua vez, estar muito relacionada com o seu temperamento. Se você é acelerado, extrovertido ou agitado, esperar o agir de Deus em sua vida deve ser um dos seus maiores desafios! Nesse caso, queremos ser aqueles que tomam o controle das coisas e querem resolver tudo sozinhos, escapando da submissão a nosso Senhor e da obediência a Ele. Já nos ensinou Santa Teresinha: quem obedece ao Senhor é quem confia n’Ele assim como uma criança confia em seu pai. Quando não sabemos esperar o tempo de Deus ou quando queremos fazer do nosso jeito, desconfiamos das maravilhas que Ele preparou para nós.

Começamos então a depositar demais a confiança em nós mesmos, ainda sabendo que somos seres potencialmente capazes de falhar. A nossa pressa nos faz caminhar sozinhos nesse paradoxo: tomar o controle pela autossuficiência e viver com a constante incerteza sobre os desfechos de nossos planos. É assim que a ansiedade surge nesse caso. Nós nos tornamos ansiosos porque queremos atropelar tudo sem saber no que vai dar. Se confiássemos cegamente no Senhor, não precisaríamos nos agitar interiormente, pois a paz no coração vem da fé de que o Pai dará aquilo que nos é necessário.

São Francisco de Sales, em sua obra Filoteia, nos mostra que a ansiedade em desequilíbrio, além de fazer-nos viver em constante inquietação, acaba prejudicando todos os outros aspectos de nossas vidas: “… Assim, pois, como as sedições e as revoluções civis dum Estado o desolam inteiramente e o impedem de resistir aos inimigos exteriores, também o espírito inquieto e perturbado não tem força bastante nem para conservar as virtudes adquiridas nem para resistir às tentações do inimigo”. Por isso, precisamos estar atentos! A ansiedade pode ser uma grande brecha para um afundamento espiritual. Ela nos tira o foco, nos tira a clareza, borra nossa visão sobre a vontade de Deus; tropeçar durante o caminho é muito mais fácil desta forma.

Pode ser que seja a primeira vez que você esteja se reconhecendo ansioso, ou pode ser que você já venha lutando contra este mal há um tempo. Não importa a altura do campeonato que se encontre, a luta sempre deve ter alvo nas raízes dos problemas. Quais são seus gatilhos? O que inclina você para a ansiedade? A primeira coisa a fazer para lidar com ela é fugir das situações ou dos pensamentos que a permitem se instalar. Em segundo lugar, precisamos aprofundar nossa intimidade com o Senhor e crescer na dependência e submissão a Ele. A submissão de nossas emoções a Ele é o que nos trará ordem e equilíbrio interior. Mas, logo aviso: esse exercício é para sempre, pois assumir a pequenez espiritual e depositar nossos anseios no Pai é um ato que precisa ser renovado todos os dias.

Seremos sempre bombardeados por preocupações. Nosso coração sempre terá pressa para atingir nossas vontades ou resolver nossos problemas. Não caia na ilusão de que isso não acontecerá mais. A diferença está no ponto em que é você quem domina sua ansiedade, e não ela quem domina você. Então, viveremos outro paradoxo, milhões de vezes melhor que o primeiro: o paradoxo de viver em um mundo com infinitas possibilidades diante de nossos olhos, uma vida com diversos objetivos e desejos, mas ao mesmo tempo não se desesperar espiritualmente diante de tudo isso e sentir o alívio interior daquele que tem um Deus no comando de todas as coisas.

Giovana Cardoso
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator 

2 COMENTÁRIOS

  1. Que contexto maravilhoso!
    Sofro de uma ansiedade, que por fim me sinto perdida por onde começar.
    Mas amei tudo o que colocou neste texto.
    Estou retomando minha caminhada com Deus e creio que logo ficarei livre deste mal. Deus abençoe a missão de vocês!
    Um grande Abraço!

    • Olá Letícia, a paz!
      Ficamos felizes que você tenha gostado do texto.
      Que nesse seu retorno a caminhada você possa se lançar cada vez mais na intimidade com Deus.
      Conte com as nossas orações.
      Abraço fraterno.

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