Como lidar com a perda de um filho?

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Tive em minha vida inúmeros sonhos e desejos, planos e projetos, anseios e investimentos que consumiram grande tempo de minha vida – e que ainda consomem. Sonhos benéficos e lícitos que qualquer homem poderia ter, porém, há um momento na vida do homem que o completa e o ajuda no constante aprendizado de doar-se: os filhos. Ter um filho é algo extraordinário e sem dúvida uma grande missão dada por Deus. É confiado a nós uma vida e somos chamados a cuidar, educar, evangelizar e amar, mas antes de tudo somos chamados a levá-los a Deus.

Na minha vida tenho até o momento três filhas: Maria Cecília, 2 anos e 8 meses e outras duas meninas que estão no céu com Deus. Maria Luisa, que nos deixou no finalzinho da gravidez, já com os nove meses e a outra gestação com durou poucas semanas, tenho por mim que era uma menina.  No momento da perda das minhas filhas tive uma grande graça dada por Deus: a paz. Não entendia o que estava acontecendo, pois era o meu grande sonho que estava escapando das minhas mãos.

A dor da perda de um filho

Minha filha Maria Luisa peguei no colo, assim que foi realizado o procedimento do parto e a levei nos braços dentro do caixão para enterrá-la. Uma grande dor, inexplicável, sem tamanho e medida, mas Deus me deu a paz que me sustentou naquele momento de dor. Não entendia, mas confiava que tudo estava nas mãos de d’Ele e que era necessário viver com toda as minhas forças a perda da minha filha.

Era preciso chorar, e choramos, por dias: no hospital – quando recebemos a notícia –, no velório e sepultamento. Choramos quando chegamos em casa e no silêncio da noite, quando esperávamos ouvir o choro de nossa filha, deparávamos com a nossa dor e vazio. Mas não foi um choro de desespero, como se nossa vida tivesse acabado, ou os nossos sonhos, porque nossa vida está escondida em Cristo – como diz São Paulo –, chorávamos com o coração cheio de paz e dor, porém sem perder a esperança.

Deus sofre conosco

Nos dias seguintes, minha esposa e eu conversávamos sobre tudo o que tinha acontecido, todos os sentimentos vividos durante a gestação, os que foram vividos na hora que soubemos da perda e nos dias seguintes, nada era deixado sem falar. Foi um tempo de muita proximidade entre minha esposa e eu, no qual tínhamos somente um ao outro. E nossa vida precisava continuar, pois Deus tinha muito mais para nós e este momento foi apenas um deles. Com isso rezávamos muito, nossa fé aumentou, nossa harmonia e amor também.

Algo que tentei esconder foi a raiva que nutria por Deus, por ter permitido que acontecesse as mortes de minhas filhas. Mesmo sentindo suas providências e seus socorros, verdadeiros atos de amor e carinho, através das orações e da ajuda dos irmãos e familiares, sentia dentro de mim uma raiva que demorou de ser deixada. Logo após ao falecimento da Maria Luisa, uma irmã de comunidade nos ligou e me disse: “Julio, estava rezando por vocês, e senti que Deus falava a vocês, que Ele não quis o falecimento da Maria Luisa, mas que  sofreu com vocês cada momento de dor e sofrimento. Ele sofre com você Julio”.

A fala dela me tocou muito e a partir desse momento pude expor esse sentimento, que só foi curado após quatro anos e meio do falecimento de minha filha, em um retiro, quando assistimos a um filme que tratava de uma família que perdeu uma de suas filhas e que fez um encontro com Deus. Durante o filme senti Deus me mostrando como viveu comigo aquele momento e pude sepultar minha filha mais uma vez “simbolicamente” e perdoar a Deus.

A missão dos pais é levar o filho para o céu

Os pais sofrem de maneiras diferentes a perda do filho. Em nosso caso, minha esposa – até mesmo devido a licença maternidade – pôde viver o luto a cada dia de maneira mais emotiva. Mas como homem, precisava ser suporte e socorrer minha esposa, ser força e amparo. Isso fez com que eu lidasse com o luto com o passar do tempo, lembro que chorei minha dor quando fui visitar o tumulo de minha filha, quase um ano depois, mas, chorei o que precisava e depois levantei para continuar.

No momento do velório, André Botelho, meu pai fundador da comunidade, disse-me algo que nunca mais esqueci, ele veio até mim e me disse: “Julio, nossa missão de pai e levar nossos filhos para o céu, vocês já fizeram isso, a Maria está no céu! ”.  Essas palavras me deram muita força, pude assimilar que nossos filhos na verdade são de Deus, e Ele sabe o que é melhor para cada filho.

Creio que Deus não quis a morte de minha filha, mas sua vontade aconteceu a partir da santa Providência em minha vida. Deus esteve comigo e está presente no sofrimento que temos no cotidiano de nossas vidas. Precisamos fazer a experiência de Deus e de seu amor ciumento em todas as situações, mesmo quando não sentimos essa presença e muitas vezes vacilamos na certeza deste amor, Ele nos sustenta e nos ampara.

O consolo vindo através dos irmãos

Minha comunidade foi fundamental para que pudesse permanecer em Deus e firme na minha vocação. Quando perdemos a segunda gestação, estávamos em uma missa, e decidimos ficar mais reservados, não tínhamos falado para muita gente e Deus quis se mostrar através da comunidade. Estávamos na igreja e chegaram vários irmãos que foram participar da missa e sentaram todos ao nosso redor, de modo que ficamos no centro deles, e eles não sabiam de nada, nos sentimos verdadeiramente abraçados. Além da importância do suporte da família que nos deram a proteção e cuidado mais zeloso. Fomos pequenos e frágeis, porque não podíamos ficar presos a nossa dor, precisávamos do outro!

Eu precisei continuar firme na esperança de que minha vida estava em Deus e que podia fazer a experiência do seu amor. Mas também pude perceber que essa é uma experiência real e concreta, sentida na carne, que abrange todos os nossos sentimentos, sonhos, idealizações, planos e projetos. Deus quer reinar sobre todos eles e não pude me esconder ou fingir que nada aconteceu, mas antes encarar de frente na confiança de seu socorro e amor.

Deus tem uma maneira preferida de encontrar e amar cada filho seu: nos inúmeros momentos de dor e sofrimentos que vivemos no cotidiano. Sem perceber Ele está lá conosco, nos sustentando e amparando, dando força e provendo o necessário para sua vida. Faça a experiência desse amor ciumento e devorador de Deus em todos os momentos de sua vida.

Julio Della Torre
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator

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