Como lidar com a saudade de um falecido

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saudade

A dor de perder um ente querido é singular e única. Durante o luto, tudo é treva e penumbra. Não há cor, a não ser o cinza. É difícil dormir durante a noite; é difícil acordar e levantar da cama pela manhã; é difícil e quase insuportável continuar o ciclo cotidiano da vida. O enlutado vive uma realidade paralela, enquanto o mundo ao seu redor segue. As crianças continuam brincando alegremente, os jovens continuam sonhando e fazendo planos para o futuro. E no coração que quem sofre o luto há somente dor, desalento e saudade…

Nesses momentos de perda, sempre encontramos os “psicólogos e os equilibrados de plantão”, que, com suas frases prontas, procuram ineficazmente ajudar: “Foi a vontade de Deus”, ou “Foi melhor para ele”. E também “Você precisa ser forte”, ou “Ele está em um lugar melhor agora”. Essas intervenções, por mais bem intencionadas que sejam, na verdade, acabam por desfigurar o rosto amoroso e cheio de misericórdia de Deus. Ajudaria muito mais um abraço afetuoso dado em silêncio, um olhar cheio de serenidade, uma presença de acolhida e paciência amorosa.

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É muito importante permitir que a pessoa expresse sua dor e assim, dê vazão a seus sentimentos, para elaborá-los. São momentos de profunda dor, onde a realidade confronta o desejo de que quem amamos seja imortal. Muitos questionamentos podem surgir: Por que ofendi tal pessoa naquele dia? Por que não a abracei mais? Por que não lhe disse que a amava? O que não fiz que deveria ter feito? O que fiz que não poderia ter feito? São saudáveis as expressões intensas de sofrimento durante os “rituais fúnebres” e é fundamental viabilizar que tais emoções sejam vivenciadas, uma vez que este é o momento mais adequado para vivê-las.

Etapas do luto

A vivência do luto comporta algumas fases, que não devem ser suprimidas ou sufocadas. Elas são necessárias. Essas fases não são lineares e uma pessoa pode passar por uma etapa, se transferir para outra e depois tornar a conviver com a mesma etapa, pois a vivência do luto é um processo singular.

Na primeira etapa, a pessoa tenta afastar a realidade porque o fato é muito doloroso para ser suportado. Ela age como se nada tivesse acontecido. Alguns passam a trabalhar em excesso, se comportam como se a perda não tivesse feito tanta diferença. Outros racionalizam a situação de forma extrema, como se congelassem suas emoções.

Na segunda fase, surge a raiva pelo inconformismo, a partir de um questionamento constante: “por que isso aconteceu comigo?” A pessoa se revolta diante da morte e busca um culpado para a situação. O médico, Deus, a doença e a família podem virar objetos dessa raiva; até mesmo a própria pessoa enlutada pode se atribuir a culpa por aquela morte. Nessa etapa,  aparece ainda o sentimento de impotência diante do fato.

Na fase seguinte, a pessoa se encontra sem forças e se vê sem condições de controlar a situação; conscientiza-se de que a morte é irreversível e que ela nunca mais vai ter a companhia da pessoa perdida. Nesse momento, os sentimentos são de tristeza profunda, falta de sentido, desilusão e desamparo. Surgem alterações no apetite e no sono, além de a pessoa se distanciar dos amigos e demonstrar apatia em relação a tudo. E vem aquela sensação de que nunca vai superar a dor da perda. Há somente um grande vazio. Tudo perdeu o brilho…

Na quarta etapa, enfim, a pessoa passa a lidar com a morte com mais serenidade. A dor lentamente dá lugar a sentimentos de saudade e carinho. A pessoa encontra em seu coração um lugar para guardar aquele ente querido que perdeu. E gradativamente vai se reposicionando diante da vida, ganhando forças para continuar. Esse processo é individual e solitário; o tempo que leva é relativo e varia de acordo com a personalidade, o temperamento e o contexto de quem sofre. Mas é fundamental vivenciar todas essas etapas, para que não haja mais tarde crises abruptas e severas, em situações das mais diversas. “O luto precisa ser vivido para não vivermos em luto”, já disse alguém sabiamente. É preciso viver tudo isso com paciência para adaptar-se à nova realidade.

Convivendo com a saudade

E vamos descobrindo como viver sem aquela pessoa e conviver com a lembrança que temos dela. Uma parte de nós também morre, mas outra parte nasce para que consigamos nos reorganizar e dar continuidade à nossa vida.

Com o tempo, o que era dor dilacerante vai cedendo espaço ao sentimento de falta acompanhado de lembranças carinhosas de quem se foi. Numa palavra: saudade. O que fica são as lembranças, as alegrias. É saudável recordar bons momentos. A elaboração do luto vai modificando a dor da saudade. É possível ser feliz em meio à dor da saudade que fica. Entretanto, isso somente pode ser compreendido por quem tem fé. Eis um elemento fundamental para superar de modo saudável a perda de um ente querido: a fé inabalável n’Aquele que é o nosso sustento, que guarda conSigo os que são Seus.

A saudade no começo dói muito, mas, com o tempo, a dor vai dando lugar à serenidade e aceitação. E a saudade vai se tornando algo bom de se sentir, porque traz aquela pessoa para perto de você. Portanto, a saudade não deve ser vista como sofrimento, mas como a gratidão que sentimos pelos momentos inesquecíveis que dividimos com a pessoa querida. Já se disse que a saudade é a presença sadia de quem está ausente.

Por diversas vezes, as lágrimas voltarão, pois o amor que você sente pela pessoa que se foi nunca se apagará. E esse amor dará forças para continuar sua vida, servindo a Deus e aos outros conforme o seu chamado. Isso agregará um novo sentido à sua vida.

Mas a saudade não vive só de passado. Há uma saudade cheia de esperança, que aponta para o futuro. Em meio ao sofrimento pela perda de um ente querido e amado, é significativo e oportuno ter em mira aquela que, mesmo diante da dor da perda do Filho, não se desesperou; porque tinha o coração cheio de fé, mergulhado na esperança: o olhar da Virgem Santíssima era orientado para a vida eterna, a vida que não passa, o nosso destino. Lá, num dia que não terá fim, vamos nos reencontrar, na certeza do infinito amor de Deus, que nos criou, nos aproximou e nos uniu para que, também juntos, passemos a eternidade contemplando a Sua Glória.

Kátia Maria Bouez Azzi
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator, Teóloga e Filósofa

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