Como pode um Deus amoroso enviar pessoas para o inferno?

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inferno

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Muito provavelmente, a mentira mais espalhada pelo demônio nos dias atuais é a de que o inferno não existe. “É uma invenção medieval para fazer as pessoas obedecerem à Igreja”, dirá uma voz culta e moderna. De fato, é um alívio nas consciências de muitas pessoas pensar que todos os crimes e maldades cometidos neste mundo ficarão por isso mesmo. E mais: a crença sobre a “inexistência” do inferno é um verdadeiro convite à imoralidade e às injustiças, já que tudo ficará impune após a morte. Portanto, decretar que não existe um castigo eterno é algo muito conveniente – apesar de constituir uma verdadeira loucura!

Há, porém, uma segunda crença moderna (um pouco mais leve do que a primeira, mas igualmente perigosa): a crença de que o inferno pode até existir, mas que está absolutamente vazio. A justificativa seria bastante simples: “Deus é misericordioso e não mandaria ninguém para o fogo eterno”. Infelizmente, não é tão difícil encontrar na própria Igreja pessoas que pensem dessa maneira. Deus é visto como um vovô ingênuo, de barba branca e sorriso fácil, que ignora todos os crimes e não seria capaz de permitir qualquer sofrimento.

Mas, não se engane, prezado irmão! O inferno existe e certamente não está vazio. Já estão no inferno (e isso é matéria de fé!) pelo menos milhões, ou quem sabe, bilhões de anjos rebeldes. Ignorar a existência ou o risco de uma condenação eterna é ser, no mínimo, imprudente.

INFERNO: CASTIGO INJUSTO OU FRUTO DA ESCOLHA?

A primeira coisa que precisamos compreender em relação ao inferno é o fato de que essa realidade não foi sonhada por Deus. Diferentemente do que pregam muitas teologias heterodoxas e protestantes (que chegam a mencionar a “predestinação ao inferno”), o Senhor não criou pessoas ou anjos para a condenação. Nosso Deus é bom e nós somos o fruto da Sua enorme generosidade. Fomos criados para a glória, para viver coisas que os olhos não viram, ouvidos não ouviram e nem coração algum jamais pressentiu (cf. 1Cor 2, 9). E não é só isso: Deus nos criou com uma vocação universal à santidade! (nos termos da Constituição Lumen Gentium, nº 39).

“Mas” – você poderia perguntar “se o inferno não estava nos planos de Deus, por que ele existe?”. A resposta é simples: o inferno é fruto da liberdade dos anjos e dos homens. Tudo gira em torno da liberdade, porque sem liberdade não existe um verdadeiro amor. Deus poderia muito bem ter feito a todos os seres com uma “programação interna” que os impedissem de pecar. Porém, nós seríamos meros robôs, sem o poder de decidir pelo bem. Em outras palavras, se Deus nos tivesse criado sem liberdade, nós seríamos “forçados” a amá-l’O – e Deus, o Sumo Bem, não quer e não precisa obrigar ninguém a Lhe dar amor. Junto com a liberdade, o Senhor nos deu a capacidade de lutar por Ele, de amá-l’O sobre todas as coisas, de ser absolutamente fiéis!

Mas, também existe a outra possibilidade de escolha: ao invés de optarmos pelo Bem Supremo e pelo amor, podemos escolher (miseravelmente) o caminho da morte e da destruição. Pensemos na famosa história dos dois filhos (cf. Lc 15, 11-32): o filho mais novo (chamado “pródigo”) possuía a opção de permanecer junto ao seu bondoso pai, onde não lhe faltava nada e era tratado como um príncipe. Apesar disso, ele escolhe pegar sua parte da herança e ir esbanjar no mundo. O restante da história é conhecido: solidão, abandono, fome, lama, comida dos porcos… Agora pense o seguinte: aquele pai, já vivido e experiente, sabia o que havia no mundo; ele muito provavelmente já conhecia todas as desgraças que o filho iria atravessar. E o que ele faz? Ele amarra o filho na cama? Ele o prende em um quarto, para impedir sua viagem imprudente? Não. O pai respeitou a liberdade do filho, porque sem liberdade não há verdadeiro amor.

E aqui nós podemos compreender um pouco melhor a realidade do inferno. Não se trata de um instrumento de vingança utilizado por um deus sádico e violento. Muito pelo contrário: é o caminho escolhido livremente por aqueles que optaram por se afastar do Senhor. É preciso compreender algo substancial: nós fomos criados para estar com Deus. Existe em nossa alma um vazio gigantesco, que somente pode ser preenchido pelo nosso Criador. Por enquanto, nós não enxergamos nitidamente esse vazio, apenas conseguimos senti-lo relativamente. Contudo, depois de nossa morte, já não haverá mais o corpo para esconder esse buraco gigantesco. A alma estará nua e será possível contemplar claramente este vazio. A alma sentirá uma terrível fome de completude, e saberá que somente Deus pode completá-la. Esta é, precisamente, a maior dor de uma alma condenada ao inferno: saber que passará toda a eternidade sentindo este vazio, porque escolheu não amar a Deus (mesmo tendo todas as chances do mundo!).

MAS, SE O INFERNO É TÃO TERRÍVEL, POR QUE DEUS NÃO FAZ NADA PARA NOS AJUDAR?

Diferentemente do que pensam muitas pessoas, Deus está tentando nos salvar o tempo todo das penas do inferno. Não é possível ser mais claro do que o apóstolo João: “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). Sim, Deus quer tanto a nossa salvação que fez a impensável “loucura” de mandar o próprio Filho para receber os castigos em nosso lugar.

O próprio Jesus Cristo, que demonstrou seu amor até a última gota de sangue na cruz, foi quem mais nos alertou sobre o inferno em toda a bíblia! Foi Jesus quem ponderou que é melhor perder um de nossos olhos, pés ou mãos do que ser jogado no fogo eterno (cf. Mt 5, 29-30). Foi Ele também quem mandou que nos esforçássemos para passar pela porta estreita, “porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição, e numerosos são os que por aí entram” (Mt 7, 13).

NÓS NÃO TEMOS UM DEUS MAU NEM UM DEUS INDIFERENTE

Vejamos como são numerosos os meios disponibilizados por Deus para a nossa salvação: temos os sacramentos, através dos quais fortalecemos a Graça atuante em nós e podemos nos reconciliar após os pecados; temos a Sã Doutrina da Igreja Católica, que é absolutamente segura sobre as verdades reveladas por Deus; temos os dons e a atuação incessante do Espírito Santo em nossas almas; a intercessão poderosíssima da Santa Mãe de Deus, conhecida como “refúgio dos pecadores”; temos até um anjo da guarda que nos acompanha o tempo todo e combate em nosso favor!

Diante de tanto esforço empregado por Deus (sem que merecêssemos), não poderemos, de maneira alguma, culpar o Nosso Senhor por uma eventual condenação ao terrível suplício do inferno. Pelo contrário, que nós possamos nos utilizar dessas insistentes advertências para uma verdadeira conversão. Nós vivemos no “tempo favorável”, no “dia da salvação” (cf. 2Cor 6, 2). Não importa se o sujeito é o maior pecador da Terra, se cometeu os piores crimes da humanidade, o Senhor é um Deus pronto a perdoá-lo e livrá-lo do inferno – desde haja uma verdadeira conversão e uma decisão por Ele.

Um dos ladrões crucificados junto com Jesus – ao qual a nossa querida Tradição dá o nome de Dimas – é um precioso exemplo acerca da misericórdia divina. O próprio São Dimas reconheceu que era merecido o castigo que estava recebendo (cf. Lc 23, 41), mas teve a coragem suficiente para escolher por Deus. Não importa que esse arrependimento tenha vindo às portas da morte: Nosso Senhor (que prometeu o paraíso ao Bom Ladrão) não quer perder nenhuma ovelha sequer! Mas, conforme nos lembra Santo Agostinho, “aquele que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. É preciso que haja uma escolha livre por Deus, antes que venha a morte. Após ela, nenhuma escolha se modifica e a sentença é inalterável: ou as glórias e alegrias do céu; ou o tormento eterno por não ter escolhido o Deus da Vida.

Sejamos, portanto, missionários do Altíssimo. Que possamos anunciar alegremente o paraíso, mas também o perigo da perdição eterna.

Deus nos abençoe.

 

Rafael Aguilar Libório
Discípulo da Comunidade Católica Pantokrator

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