Como saber a hora certa para noivar

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Há muitos artigos falando sobre a hora certa para noivar. Pessoas experientes já escreveram muitas coisas sobre isso, a maioria deles abordando aspectos humanos, os quais são ferramentas valiosas e contribuem para obter um relacionamento saudável –  entretanto, gostaria de aprofundar ainda mais estas reflexões que encontrei trazendo um aspecto ainda mais importante: a espiritualidade. A própria liturgia vai elevar a espiritualidade acima de qualquer outro elemento da união conjugal nos dizeres do sacerdote: “O que Deus uniu, o homem não separe” (Mateus 19, 6). Portanto, levantarei alguns pontos de reflexão para ajudar no seu discernimento da hora certa de noivar.

O principal elemento para o casal

Hoje está na moda uma linha de pensamento que valoriza demasiadamente a capacidade humana de superar dificuldades, vencer desafios e atingir objetivos; muitas vezes nos apresentam coisas válidas e eficazes para diversas coisas, até mesmo para o relacionamento matrimonial, entretanto, quando colocamos o fator espiritual na equação, estas técnicas mentais brilhantes passam a corresponder a uma parcela tão ínfima da realidade que, sozinhas, podem levar à construção de um relacionamento belo por fora mas oco por dentro. É preciso tirar o homem do centro do relacionamento e colocar o Senhor, pois, por mais que façamos esforços heroicos, sem a graça de Deus, nada poderemos fazer.

O principal elemento para um relacionamento saudável é uma profunda intimidade com Cristo de ambas partes. É necessário aprender a cada dia colocar Jesus acima de todas as coisas, e no coração de Jesus conhecer cada vez mais o seu coração e o coração do outro. Eu já “quebrei a cara” por diversas vezes buscando conhecer a minha noiva apenas com a minha capacidade intelectual, e depois percebia que estava enganado. Somente o Espírito Santo pode revelar o interior do seu cônjuge. Cada ser humano é um universo misterioso e sagrado, portanto, nunca teremos pleno conhecimento do outro. É muito comum comentários do tipo “case, e então irá conhecer o seu cônjuge”, “somente será possível conhecer depois de comer um quilo de sal”… enfim, de certo modo esses comentários são verdadeiros.

Às vezes, o fato de você ser um psicólogo ou algum profissional da área pode dificultar as coisas, pois o orgulho pode se inflamar, dando uma falsa segurança de que você está no controle da situação; entretanto, quem conduz o tempo certo para cada coisa é o Senhor. Poderia terminar o artigo aqui dizendo: “busque com todas as forças do seu coração ser amigo íntimo de Cristo e fazer a Sua vontade que Ele irá te conduzir, mostrando como e quando agir no seu relacionamento”, mas isso seria um tanto quanto otimista demais, pois nossa carne não quer ser amiga íntima de Cristo, muitas vezes ela sabota a nossa alma e nos faz optar por caminhos contrários.

Não quero apresentar uma receita de bolo, pois entendo que nunca estaremos completamente prontos para o chamado de Deus. Nas leis do Senhor, primeiro damos o passo, depois Ele coloca o chão; o Senhor não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos; desta forma, é necessário ver os elementos que gostaria de apresentar abaixo com um olhar a partir da graça do Espírito Santo.

Conhecimento da Finalidade do Matrimônio

Para noivar, entendo que o casal precisa partilhar constantemente sobre o fim último do matrimônio que é a salvação das almas e a educação dos filhos para o Céu – sim, o casamento é chamado pela Doutrina Católica de “Igreja Doméstica”. Desta forma, assim como a Igreja tem a missão de guardar a Fé dos primeiros apóstolos e trazer para nós a salvação de Jesus Cristo a partir do anúncio do Evangelho, o casal deverá proceder do mesmo modo.

O casal pode e deve traçar objetivos juntos, verificar se estes objetivos convergem para a mesma direção, mas a verdade é que nem sempre estes objetivos poderão ser atingidos, e se isto vier a acontecer e o objetivo principal do casal não for a salvação das almas, a frustração será avassaladora. Todos estamos sujeitos ao fracasso – ricos, pobres, cristãos, não cristãos, negros, brancos, todos nós estamos vulneráveis. Pode parecer pessimismo da minha parte, mas não é; a doença, crises econômicas, desemprego, desastres naturais, crimes, roubos, guerras, seria uma ingenuidade dizer que estamos livres destas coisas – este mundo vai passar! E somente ficarão em pé os casais que construírem sua casa sobre a rocha!

Individualidade

Outra coisa importantíssima é a capacidade de cada um dos cônjuges de assumir esse sustento em Cristo de forma individual. O pecado nos jogou em alto mar e não temos nada em nós que nos impeça de afundar; o único que pode nos segurar é Cristo, que caminha sobre as águas agitadas deste mar. Portanto, cada um dos cônjuges precisa segurar nas mãos de Cristo, e assim, com Ele, poderão caminhar por sobre as águas. Evidentemente, se o casal tentar se sustentar apenas no outro,os dois irão se afundar.

Um exemplo concreto disso é o risco do seu cônjuge passar por um problema de saúde que atinja sua razão ou o deixe em um situação de debilidade física; se o outro não entender que a felicidade está no Ressuscitado e crer que o Espírito Santo dará forças para passar por esta tempestade, esta situação será o fim. Portanto, é necessário nos firmar no Senhor e ser alimentados por Ele, a fonte da nossa vida!

Equilíbrio afetivo

A paixão é algo necessário para aproximar o casal, para temperar o relacionamento; é como se fosse o recheio do bolo: sem ele você pode até ter um bolo, mas será sem graça e muitas vezes indigesto. Portanto, é importantíssimo que a paixão aconteça e que depois o casal lute para que ela permaneça, mas também é essencial que o pico da paixão passe para se conseguir fazer um bom discernimento. Quando as novidades se tornam triviais elas aquietam os outros sentidos e então você consegue continuar a trilhar o caminho de conhecimento de si mesmo e do outro.

Por isso a castidade precisa ser vivida antes do casamento, pois a carga afetiva da relação sexual ou até mesmo de estímulos sexuais sem a concretização do ato ofuscam a realidade dos aspectos essenciais para uma decisão matrimonial. Não preciso provar isso, apenas pergunte a casais que não vivem a castidade, quantas vezes já resolveram os conflitos com uma relação sexual. Dessa forma, podemos observar que a relação sexual apresenta sim um poder de unir o casal, mas que precisa ser utilizado apenas após existir uma estrutura sólida que se consolida com o compromisso público do matrimônio. Não quero apresentar aqui a castidade como um moralismo, mas como esse assunto é bem extenso, se tiver dúvidas o aconselho a procurar ajuda de alguma pessoa madura na fé ou até mesmo de algum irmão da Comunidade Pantokrator pelas redes sociais.               

Harmonia e liberdade             

Quando a paixão passa a ficar algo controlado dentro de nós, iniciamos um processo de aceitação do outro com suas qualidades e defeitos, e quando esta aceitação acontece dos dois lados gera-se uma liberdade muito agradável. Portanto, é interessante que o casal comece a experimentar esta liberdade antes de noivar, pois caso isso não aconteça é melhor que o relacionamento não avance mais – pense em não ter em casa alguém que te acolha, mas que te cobre sem misericórdia ou que se irrite muito com o seu jeito; isso poderá tornar o lar que deveria ser aconchegante num campo de guerra.

Contudo, a harmonia e a liberdade são coisas que deverão ser trabalhadas constantemente, não tem como medir isto. Esses dias a minha noiva começou a me cobrar de algumas coisas que já tinham sido resolvidas no passado, e, sem perceber, comecei a sentir um peso desta exigência; tivemos que conversar novamente sobre o assunto e buscar novas formas de resolver. Partilho isso pois pude ver que é necessária uma comunicação constante sobre necessidades, expectativas, dificuldades… somos seres imperfeitos, não tem como existir uma harmonia perfeita.

Resolução de conflitos

Através desta evolução na comunicação é que o casal irá perceber que conseguirão resolver conflitos, e aqui quero acrescentar uma coisa que não tenho visto nos artigos: Deus precisa participar desta comunicação, não basta o casal chegar numa prática de comunicação sem Deus. Ele é o detentor de toda ciência e sabedoria. Deus precisa participar dos diálogos através de partilhas da oração pessoal e também de orações que o casal precisa fazer junto.

É necessário contar com a força do Espírito Santo; você precisa ter coragem de dizer ao seu cônjuge: “Este problema está muito difícil, por favor reze por mim!” E peça para que ele coloque as mãos sobre a sua cabeça e clame ao Espírito Santo em alta voz, assim vocês vencerão a vergonha de se desnudar diante do outro – algumas pessoas pensam que a intimidade máxima está em ver o corpo do outro; como ainda não sou casado, nunca fiz isso para minha noiva, mas eu sinto mais vergonha em desnudar as minhas misérias e pedir para que ela reze por mim, que a vergonha de tirar minha roupa nas noites de núpcias.

Maturidade para decidir

Por fim, creio que é necessário ter uma maturidade para assumir as consequências das decisões, pois o ideal é que o noivado não termine; pode acontecer de terminar, mas será um pouco mais traumático do que terminar um namoro. Por isso é aconselhável que se faça bastante reflexão, leia bons livros sobre o assunto, partilhe bastante em casal e com pessoas mais maduras na fé; guardar a castidade e rezar muito para entender a vontade do Senhor.

Uma vez que a decisão de noivar é realizada, é necessário preparar-se para encarar as exigências que virão, pois, afinal, o noivado é um anúncio de que o relacionamento amadureceu e o matrimônio está mais próximo do que antes.

Atualmente a cultura brasileira encontra-se doente, a maioria dos brasileiros tenta dar um “jeitinho” nas coisas: se cometem uma infração de trânsito tentam de alguma forma se livrar da punição da multa, se não conseguem tirar boas notas na faculdade tentam alternativas para evitar a reprovação, e estas pequenas atitudes evoluem e tornam-se coisas piores como a corrupção, aborto e outras formas de crime. É necessário nos livrar deste câncer, pois esta fuga das responsabilidades é causa de destruição nas famílias, seja com o divórcio ou quando o casal não se divorcia mas abandona as obrigações familiares, vivendo debaixo do mesmo teto mas sem agir conforme os planos de Deus.

Lucas Sturion
Discípulo da Comunidade Católica Pantokrator 

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