Como uma boa comunicação me ajuda na evangelização?

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O século XXI está sendo marcado pelo excesso de comunicação. De maneira indiscriminada somos bombardeados por todas as formas de linguagem, escrita, fala, imagens, vídeos, com informações, conceitos, percepções. O uso de mídias sociais e aplicativos de conversa são atualizados a todo instante com emotions, que tentam deixar cada vez mais pessoal cada conversa, aproximando as pessoas intimamente.

Para todas as gerações tem sido assim. Dos filhos aos avós, alternando talvez o nível de intensidade de uso e de disponibilidade para recepção dos conteúdos, o mundo todo tem aderido a essa forma de comunicação ágil, frenética e incansável, sendo ao mesmo tempo vazia e ineficaz, visto que esse tipo de comunicação acontece até mesmo entre dispositivos eletrônicos, em que, por exemplo, um bluetooth faz comunicação de um aparelho com o outro, transmitindo um conteúdo de forma completamente imparcial. Assim hoje se dão nossas conversas cheias de conteúdos e completamente anuladas.

Não podendo (nem devendo) ficar para trás, a Igreja também tem se atualizado. É comum termos acesso a conteúdos espirituais através da internet. Continuamos nossa evangelização de maneira tradicional, presando pelo contato físico, olho a olho, a imagem em presença física. Estamos notando nos últimos anos uma dificuldade de acesso ao interior das pessoas, que, ainda que buscando insistentemente a graça, permanecem distraídas do agir de Deus. O número de ateus vem crescendo significativamente, assim como doenças de ordem psicológica, gerando doenças psicossomáticas, em que a mente, exausta de lidar com as emoções e sentimentos desgovernados, começa a despejar no corpo seus excessos, estando presente com mais frequência entre os jovens e adolescentes.

As famílias estão em crise, o número de divórcios em nome da liberdade e felicidade vem crescendo, os filhos estão ficando órfãos de pais vivos, e a dúvida que assola meu coração é: será que eu, dentro da espiritualidade de um Carisma, também estou permitindo que essa comunicação frenética polua meus sentidos e me leve a uma evangelização indiferente, em que, colocando-me diante do outro de forma robotizada, acessando na memória outras experiências parecidas de escutas de outros sofrimentos, vou tentando auxiliar o outro com uma receita de bolo? Qual a qualidade da minha evangelização individual, aquela realizada no dia a dia, com as vizinhas, no trabalho, na escola? Tenho levado ao outro o Cristo vivo com a minha vida, ou levo um download de Cristo? Consigo verdadeiramente compreender o que está sendo transmitido através dos conteúdos que as comunidades têm disponibilizado ou faço parte daqueles que estão inacessíveis interiormente?

“Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo” (Ap 3,20).

Acredito que muitas vezes falhamos em nossa missão pessoal, no levar o amor de Cristo ao outro, simplesmente por estarmos completamente ansiosos, agitados, recebendo informações a todo instante. Nossa mente não consegue mais silenciar para escutar o que o outro está falando e não apenas simplesmente ouvir. Escutar e ouvir são coisas completamente distintas. Nós ouvimos ruídos, barulhos, musicas, são coisas que sabemos que estão lá e que muitas vezes podemos não prestar atenção. Já a escuta exige atenção à forma de pensar e agir, de conhecer o outro através do que está me apresentando, de perceber as emoções, os sentimentos, de se atentar às expressões corporais e faciais, para, então, através da nossa escuta e da fala, realizada de forma atenta e empática, saibamos atrair os filhos de Deus que sofrem para constituírem uma comunidade cristã conosco e encontrarem alento. Precisamos nos colocar na escuta ouvindo no outro a voz do Cristo que sofre, que padece nesse mundo sem encontrar um coração para reclinar a cabeça.

  Mortimer J. Adler, um filósofo americano cristão, no livro “Como Falar, como ouvir”, menciona que a fala e a escuta não são habilidades inatas, e que, assim como a escrita e a leitura, devem ser aprendidas e treinadas, pois seres humanos não podem construir uma comunidade ou partilhar de uma vida em comum sem se comunicarem uns com os outros. Uma comunidade vigorosa e próspera de seres humanos exige que o aspecto social de sua fala e de sua escuta seja satisfeito e não anulado.

É bem verdade que a conversa, o colóquio também estão completamente prejudicados, pois se de um lado ouve-se mal, o outro lado expressa-se mal, não sabendo colocar em uma partilha a realidade do que se vive. Desta forma, pode existir então uma ausência completa de comunicação, já que se o mesmo acontecer em dispositivos eletrônicos, como o exemplo que dei no início deste texto, brevemente se detectará um erro de conexão, ou seja, a conversa humana está fadada a ser apenas a robotização destas duas pessoas que perderam a particularidade de seres humanos de se compreenderem através da fala.

Precisamos buscar em nossos diálogos, seja pessoalmente ou através de dispositivos eletrônicos, o aprendizado de escutar e falar. Precisamos nos dispor inteiramente em nossos relacionamentos, nos atentarmos àquilo que estamos falando, e ao mesmo tempo dedicando toda a atenção necessária para escutar bem o que o outro está querendo nos comunicar.

Peçamos que o Espírito Santo venha ordenar nossos sentidos da visão e da audição, conduzindo-nos à imagem e semelhança d’Aquele que nos criou, para que com Cristo aprendamos através de nossas conversas a evangelizar sem cessar, sendo para o outro a presença do próprio Deus que Se coloca inteiramente a ouvir seus sofrimentos.

Que Deus nos abençoe!

Larissa Machado
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator 

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