Copa do Mundo: lugar de beleza, de herança e de encontro

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De 14 de Junho a 15 de Julho deste ano, o mundo estará de olho na maior competição esportiva do planeta: a Copa do Mundo. Trata-se de uma disputa esportiva coletiva na qual 11 jogadores em campo têm o efêmero objetivo de colocar a bola dentro das 3 traves que formam o gol adversário. Porém, na fútil imagem de homens correndo atrás de uma bola, uma das mais antigas atividades humanas, esconde-se grandes valores humanos individuais e coletivos. O Esporte, sobretudo algumas modalidades, é uma expressão de força física, habilidade artística, inteligência estratégica e capacidade de autossuperação. Tem grande significado educativo e sanitário no bem da saúde física, mental e até espiritual. E ainda, o futebol, como outros esportes coletivos, é exercício de respeito e convivência social. Além disso, competições como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, refletem a capacidade de uma nação em organizar e preparar desportistas, manifestando algo do desenvolvimento de cada país. Não é à toa que os países mais desenvolvidos são os que têm melhores resultados nos confrontos esportivos. Esse significado é tão forte que nações pioneiras competem suas grandezas através do sucesso esportistas e, tantas vezes, estadistas usam de disputas esportivas para firmar seus interesses e estratégias políticas.

O Esporte é dignificante, sem dúvidas. Mas, e a disputa e a competitividade? O que isso pode falar ao cristão?

Um lugar de encontro

“A competição esportiva talvez seja o único caso, determinado pela ‘pureza’ fundamental, a orientar a estrutura originária da ação lúdico-agonística, de conflito humano, que não interrompe a natural relação entre os sujeitos… No movimento alternativo da superação recíproca, os adversários constroem juntos aquela vitória que, no fim, será para um só e marcará o fim de seu encontro.” – Dicionário de Teologia Moral, Paulus, verbete ‘Esportes’

Como consequência de um nobre trabalho de preparação e treinamento físico e mental, ele acontece em uma atividade marcada pela beleza da relação do corpo humano com um objeto, consigo mesmo e/ou com um espaço físico. Unido a isso, sobretudo os esportes coletivos, mais que uma disputa, deve ser um encontro entre homens e mulheres que se unem para uma finalidade comum de superar os limites humanos na sua relação com o mundo exterior a ele.

O valor e o sentido das coisas estão no coração humano: “para os puros todas as coisas são puras” (Tg 1,15). Assim, uma disputa esportiva pode significar uma exacerbação na medição das forças mútuas com a consequente destruição moral do derrotado. Porém, poderá ser um encontro de homens em que, embora um saia vitorioso, o brilho humano é de todos na medida que se aprende a respeitar o próximo com seus dons, mas também, seus limites. Em uma Copa do Mundo somente um gozará da vitória, todos os outros serão vencidos, mas não necessariamente derrotados.

Copa do Mundo: lugar de beleza, de herança e de encontro

Para isso, é preciso ponderar a hierarquia de valores. Claro que a vitória é um valor inegável e o prêmio evidencia o vitorioso como alguém dotado de dons e virtudes. No entanto, mais valor que qualquer êxito esportivo, é a grandeza de saber vencer e perder numa relação de respeito pelo adversário. Nesse sentido, os esportes ensinam a vida: um campo de contínua luta onde se ganha e se perde constantemente.

Para tanto, cabem os ensinamentos de São Francisco de Sales, o mestre da vida devota no mundo:

“Sobretudo, toma todo o cuidado, que teu coração não se apegue a essas coisas porque, por melhor que seja um divertimento, não devemos atar a ele o coração e o afeto. Não digo que não se ache gosto no jogo, quando se está jogando, porque, senão, não seria um divertimento; digo somente que não se deve ir a ponto de desejá-lo ansiosamente, como uma coisa de grande importância. Quanto aos jogos, ainda digo que o bem deles não pode estar na alegria de ganhar ou perder, pois não será injusta uma alegria semelhante que acarreta a perda e o desgosto do próximo? Na verdade, uma tal alegria é indigna de um homem de bem. A alegria deve ser motivada pelo empreendimento em si e também pela vitória que se conquistou pela habilidade. Jogos que se pautam exclusivamente na sorte são em si mesmos desprezíveis, pois o ganho e a perda não se dão pela indústria de uma habilidade e a alegria que advém é exclusivamente pela vitória própria e derrota do outro.”

Uma oportunidade de reverenciar as heranças

Uma vez que tenhamos refletido sobre a disputa esportiva, importa ainda discernir se cabe ao cristão torcer pela Seleção que representa sua nação. Primeiramente, é importante entender o significado do patriotismo.

O termo pátria está relacionado com o conceito e a realidade concreta de pai (pater). Em certo sentido a pátria se identifica com o patrimônio, isto é, o conjunto de bens que herdamos de nossos pais… Assim a pátria é simultaneamente a herança e a situação patrimonial dela resultante; aqui entra naturalmente a terra, o território, mas a noção engloba também e mais ainda os valores e conteúdos espirituais que compõem a cultura de uma determinada nação… Por isso o patriotismo nos coloca, no âmbito do decálogo, no quarto mandamento que nos obriga honrar pai e mãe.” João Paulo II em ‘Memória e Identidade’

Honrar a pátria, portanto, faz parte da vida do cristão. Infelizmente, devido aos fatores sociais, à desfiguração histórica das ideologias, a honra a pátria se esvazia ou se cai em desvios nacionalistas. No Brasil, temos perdido o patriotismo. Uma das raras vezes em que o brasileiro resgata algum senso de patriotismo são nas Copas do Mundo. No entanto, o patriotismo que emerge nos tempos de uma Copa do Mundo não deveria ser apenas uma empolgação momentânea de identificação com a ‘tribo de meu país’, o que leva muitas vezes ao fanatismo das torcidas. Tantas vezes, e na maioria delas, infelizmente o patriotismo das copas, ao menos no Brasil, reduziu-se a mera paixão de torcedor de clube. Ao contrário, deveríamos aproveitar esse momento apaixonante, para crescer em nós um amor à nossa pátria que se traduza em gestos que constrói uma grande nação. Com vitória ou derrota, que o brilho de nossa seleção de futebol nos inspire a mudar as coisas. Que as belas jogadas nos inspire a resgatar a beleza de nossa história e instituições, que as estratégias construídas nos inspire a edificar um país próspero, que a habilidade de nossos craques nos anime a sermos melhores, mais sábios e justos. Muito mais que nos campos e quadras, sejamos craques de um grande país. No entanto, vencendo adversários ou sendo derrotados por eles, aprendamos também que todos nós, em qualquer nação, somos todos irmãos, porque é grave erro  “reconhecer e buscar o bem apenas da própria nação, sem ter em conta o direito das outras; ao contrário, o patriotismo, enquanto amor à pátria, reconhece a todas as outras nações direitos iguais aos que reivindica para si própria, sendo, por conseguinte, o caminho para um amor social ordenado”. João Paulo II em ‘Memória e Identidade’

No meio do calor de uma Copa do Mundo afloram sentimentos coletivos de fanatismo, de competitividade exagerada, gerando até mesmo compensações emocionais pessoais, numa supervalorização da coisa em si. Se for isso, ao fim, só restará a frustração da lembrança do gosto que passou e acabou. Ao contrário, o cristão poderá encontrar no evento e em cada partida, o sentido evangélico da contemplação do belo, a admiração das virtudes dos esportistas, o saudável amor à pátria, o cultivo de uma cultura nacional e, sobretudo, o sentido mais sublime de qualquer competição esportiva: o encontro. Podendo fazer com que conflitos pessoais e até internacionais, reconciliem-se num momento de paz. Mas, para que isso seja real, é preciso perceber em tudo o “toque” do transcendente, através do qual, o homem descobre que as coisas passageiras deste mundo só têm sentido se nos elevam para o eterno.

André Luís Botelho de Andrade
Fundador e Moderador Geral da Comunidade Católica Pantokrator 

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