Corpo: Pudor, modéstia e elegância

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“Então os olhos dos dois se abriram e perceberam que estavam nus” (Gn 3,7). Na simbologia do texto bíblico, o que aconteceu com nossos primeiros pais? Nossos primeiros pais, antes do pecado, não usavam vestes, mas não estavam nus. Seus corpos transluziam o espírito, e seu espírito eram as suas vestes. Olhando a nudez, via-se a pessoa e assim o mistério que cada um é. O espírito era como uma “veste”, que não cobria, mas revelava, fazendo que o olhar não visse somente um corpo, mas a pessoa, o íntimo do ser, o mistério da pessoa humana. O pecado fez perder essa relação, esse domínio do espírito sobre o corpo. O corpo, então, ficou “opaco”. Com o pecado, sua capacidade de expressão espiritual se limitou muito. Talvez a face, os olhos e as mãos sejam as partes que mais preservaram essa relação corpo e espírito.

Então, com o pecado, agora o corpo nu é um corpo exposto às suas funções e nada mais. É um corpo opaco, que esconde o espírito. Ao olhá-lo, a vista do outro, por sua vez, também ferida pela concupiscência, fixará nele o que significa no âmbito biológico e material, e lhe despertará o desejo, a curiosidade, a malícia. Então, após o pecado, Adão e Eva percebem a sua nudez, até então “encoberta” pelo espírito (cf. Gn 3,10). Eles perceberam que seu corpo não manifestava mais a pureza e despertava os desejos, tantas vezes maliciosos. Por isso Deus vai perguntar: “E quem te fez saber que estavas nu?” (v.11). O pecado expôs a eles a sua nudez. O corpo perdeu a sua pureza, porque desperta desejos desonestos. Então, agora são necessárias as vestes. Deus mesmo veste o homem (cf. Gn 3, 21). A nudez precisa ser revestida, para que ela não desperte a maldade.

O Pudor

O pudor é vestir a intimidade do corpo. O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2521, afirma que “o pudor preserva a intimidade da pessoa. Consiste na recusa de mostrar aquilo que deve ser escondido. Está ordenado à castidade, exprimindo sua delicadeza”.  E no parágrafo seguinte vai dizer: “O pudor protege o mistérios das pessoas e de seu amor”. O pudor então é uma recusa em mostrar o que deve ser resguardado na intimidade. Existe também, conforme, o parágrafo 2523, o pudor dos sentimentos, dos pensamentos. Não se pode revelar a qualquer pessoa, ou de qualquer jeito, o que se sente, o que se pensa. Mas isso não é hipocrisia? Isso não é falsidade? Não. O pudor é a virtude do escondimento para preservar a intimidade. A hipocrisia é querer mostrar o que não é seu, falsear uma identidade, uma intimidade. A hipocrisia é uma máscara que fabrica uma mentira. É falsidade. O pudor preserva a verdade mais íntima.

Porém, existe uma realidade que pode superar o pudor: o amor. O amor transpassa a opacidade do corpo, e lhe é capaz de ver nele o seu espírito, seu mistério.  Assim, a intimidade pode ser exposta aos olhares de quem ama… De quem ama de verdade. Por isso, junto aos íntimos posso ser “mais eu mesmo” sem o risco de ser mal interpretado. Sobretudo, o corpo pode ser exposto àquele/a que o ama com amor esponsal, porque esse olhar será capaz de ver a pessoa, o mistério que o corpo esconde. Por isso a nudez conjugal é lícita, porque está sob um olhar guardado pelo amor sacramental. Mais do que lícita, é dignificante, porque o amor conjugal como que resgata o olhar anterior ao pecado; nele, o corpo revela o mistério da pessoa. Uma relação conjugal será mais madura na medida em que for capaz de fazer da alegria do prazer conjugal uma verdadeira comunhão de almas que se doam uma à outra através do corpo.

A Modéstia

Para tanto, é importante a modéstia. A modéstia é o modo de se vestir e portar segundo a dignidade do corpo humano. A modéstia preza pela castidade, sobriedade, harmonia, enfim, que o modo de se vestir esteja de acordo, e não fira de alguma forma a dignidade do corpo humano. Ferem a modéstia: a vaidade (excessiva), o luxo, a extravagância, a sensualidade, o desleixo e também quando as vestes expressam valores de desordem e pecado, como a rebeldia, tão comum nas modas irreverentes de hoje. A modéstia está ligada à moda e à cultura. Se a modéstia pode ter variações conforme a sociedade, ela zela para que se purifique na cultura o que fere a dignidade do corpo, e o que é deformação ideológica.  A modéstia ainda sabe prezar pela coerência do jeito de vestir-se de acordo com a ocasião, de modo  que se honram e celebram os acontecimentos na medida da justiça e a caridade.

A elegância

Ligada à modéstia está a elegância. Elegância é um jeito de vestir e se portar que expressa a grandeza, a nobreza do espírito. A elegância nas vestes, nos gestos, de alguma forma, ainda que de modo tênue, resgata a relação corpo e espírito. Se o pudor esconde, a elegância revela. É belo quando a pessoa elegantemente transparece sabedoria, inteligência, bondade, harmonia e outras nobrezas do espírito. Se a elegância realmente surge da modéstia, ela será preservada de suas ameaças, como a vaidade, o luxo, a presunção, o exagero. A elegância, vivida na modéstia de quem em tudo busca a grandeza e o bem de Deus em si, será a arte do vestir-se e portar-se, porque com ela se irradiará a beleza de Deus na alma.

“Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?” (Mt 6,30). Antes do pecado, Deus vestia o homem com o espírito humano reluzente em seu corpo. Com o pecado, precisamos de vestes feitas pelas mãos humanas, que, conduzidas na providência e na sabedoria do pudor, da modéstia e da elegância, tornam-se uma verdadeira manifestação e ação de Deus que dignifica o homem e dá glória a Deus.

André Luis Botelho de Andrade
Fundador e Moderador Geral da Comunidade Pantokrator

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