Testemunho: Desde sempre chamada para ser de Deus

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ser de Deus

Nunca ouvi ninguém dizer que era fácil ou tranquilo ser de Deus, como se nada tivesse que ser diferente em nossas vidas a partir dessa escolha. Nunca vi ninguém escapar das lutas necessárias para mudar de vida depois de se decidir pelo Amor. Mas, e se para alguém, por algum acaso, essa mudança de vida não se referisse tanto assim à vida antiga, ao passado? E se, ao invés disso, ela se referisse justamente ao futuro, àquilo que ainda não aconteceu? Pode parecer confuso, mas logo fará mais sentido. Digo por mim mesma, no início, eu também não entendia nada. Muitas vezes, até, não via nada de interessante na maneira como Deus conduziu meu encontro até Seus braços. Porém, é com alegria que agora reconheço o quão ciumento Ele foi com a minha vida e o quanto trabalhou para que, hoje, eu estivesse junto Dele.

Sempre gostei de ouvir como Deus resgata as pessoas do maior fundo do poço que elas poderiam se encontrar, arrastando-as com misericórdia para Sua glória. De fato, quem não se emociona com esses testemunhos, não é mesmo? A manifestação do amor de Deus, em particular, na vida dessas pessoas, me faz borbulhar por dentro. Todavia, não foi desse jeito que aconteceu comigo e, por muito tempo, esse fato me incomodou. Eu desejava ter tido uma história extraordinária do resgate da minha vida por Cristo; queria também ter tocado esse amor, pensava. Mal sabia eu que eu já O tinha tocado… porém, de um outro modo.

Ser de Deus, desde sempre !

Meus pais já eram Pantokrator quando eu vim ao mundo. Nasci mergulhada no Carisma El Shaddai-Pantokrator. Quando eu ainda era bem pequena, eles se consagraram. Consequentemente, meu crescimento se deu inteiramente dentro desse Carisma, sem que eu ao menos soubesse o que isso significava na época. Consequentemente, eu brincava na Comunidade, corria nos corredores, beijava os pés da imagem de Santa Teresinha, ficava na casa dos irmãos de Comunidade de meus pais… Ser de Deus era, de certa forma, rotina em minha infância. Fui ensinada a rezar, a ter devoções, a amar o Terço, a entender a Missa. Nunca estive longe de Deus. Ele sempre esteve próximo, pacientemente, esperando minha razão florescer para poder me chamar por conta própria.

Não tenho como negar a agilidade de Cristo para me trazer definitivamente para Si. Imagino Sua pressa após todos esses anos preparando o meu coração. Quando as crianças começam a adentrar a adolescência, ser de Deus é algo que costuma ir ficando para trás. Os focos tendem a mudar, o mundo oferece muitas outras propostas. Eu também passei por este momento. Porém, o Senhor foi infinitamente mais esperto que eu (como sempre): antes que eu ao menos pudesse descobrir as maldades do mundo, antes que eu pudesse tocá-las com minhas próprias mãos, Ele me chamou. Eu tinha 12 anos quando, em um grupo de oração para adolescentes na Comunidade Pantokrator, tudo fez sentido. Tudo o que meus pais viviam fez sentido, ser de Deus fez sentido. Eu escutei a Sua voz. Ela falava comigo, diretamente comigo. Não era com meus pais. Não era com os servos. Era comigo.

Aquele momento foi quando eu percebi que estava na hora das coisas mudarem. Ele não queria mais que eu fosse de Deus por conta de meus pais, Ele queria que eu desse o meu próprio Sim. Então, muito tocada, eu o fiz. Simples como descrito. Não houve grandes tumultos antecedendo. Não houve fundo do poço. Houve apenas uma menina, com grandes misérias e dificuldades sim, mas que se sentiu tomada pelo amor do Pai em toda a alma.

Depois daquele Sim, vieram muitos outros, e o mundo ao meu redor começou a mudar. Precisei tomar consciência de que, com minha resposta, eu havia acabado de renunciar a muitas coisas que o mundo me proporia a viver dali para frente. Como dizia no começo, não renunciei a uma vida que era antiga. Renunciei na verdade a tudo que eu poderia viver, ao que todos da minha idade viviam, mas que não condizia mais a mim: renunciei ao conhecimento de uma vida longe de Deus. Nunca foi fácil, mas Ele se assegurou de me sustentar em todos os momentos, através de diálogos diretos comigo ou de pessoas.

ONDE ESTARIA EU, SEM SER DE DEUS?

Conforme fui amadurecendo meu Sim, Deus foi me revelando o quanto seu Amor Ciumento estava presente em tantos pontos de minha vida. Diversas vezes me peguei pensando onde eu estaria se Ele não tivesse tido todo o cuidado de me formar desde pequena. Conhecendo minha teimosia e minha intensidade, pode ser que eu estivesse bem longe daqui. Foi Ele quem não permitiu que eu me distanciasse. De fato, Deus sempre fez questão de me lembrar de que eu estava debaixo de Suas asas, de que Ele me chamava pelo nome, de que eu era somente Sua e de que Ele não me esqueceria nunca (cf. Isaías 49). Tantas experiências com o Carisma me fizeram, por fim, iniciar o vocacionado na Comunidade Pantokrator com 17 anos.

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Durante muito tempo, eu não tive a mínima noção do quanto meu testemunho também era tão belo quanto os das pessoas que Cristo resgatou do fundo do poço. No entanto, só pude realmente tomar posse da minha vocação quando, através de uma irmã de Comunidade, o Senhor me revelou e eu acolhi essa verdade: “A beleza do seu testemunho é justamente não ter conhecido o outro lado, e mesmo assim escolher por Cristo. Mesmo sem saber como era viver o mundo, mesmo sem provar com os próprios sentidos; a beleza está em apostar e confiar que somente ser de Deus seria capaz de te fazer feliz.” Quando eu entendi, então, que era a fidelidade à Cristo que eu deveria testemunhar a todos à minha volta, nas pequenas atitudes da minha vida, eu agarrei minha missão e hoje me encontro em uma busca de consagração.

Ter nascido em família consagrada foi, sem dúvida, manifestação pura do carinho de Deus por mim. Foi graça. Foi edificante e essencial para que o meu ser de Deus fosse tudo o que sou junto Dele hoje. Ainda há medos, ainda há resistências, mas quando olho para a Cruz, posso ouvi-Lo me dizer: “Eu sou o mesmo Crucificado da sua infância, da sua adolescência, das suas primeiras experiências. Eu estive lá e te sustentei em todas as suas crises. É daquele mesmo jeito que Eu estou aqui agora. Não importa se tudo ao seu redor mudar, Eu ainda sou o mesmo, e é apenas isso que deve ser a sua segurança.” E é apenas direcionar meu olhar ao do Pantokrator que, de alguma forma ou outra, as coisas vão se encaixando.

O tempo todo, Ele manifestou seu amor fiel a mim. O tempo todo, Ele se entregou por mim. Diante de tudo isso, minha resposta não tinha como ter sido outra: eu também quero ser de Deus pela fidelidade incondicional ao Pantokrator, o Todo-Poderoso, Aquele reina e sempre reinou sobre o meu coração, sobre a minha família, e sobre a minha história.

Giovana Cardoso
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator

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