Inicio essa reflexão dizendo algo que todos nós já sabemos: Deus nos ama! E não só isso, Ele deseja o melhor a nós: guarda-nos debaixo de Suas asas, protege-nos, guia nossos passos… Ele cuida de nós, sempre! Quantas vezes ouvimos essa verdade em pregações, momentos de oração, homilias ou mesmo lemos algo semelhante em um livro ou em um texto cristão? Tenho certeza de que inúmeras vezes. Mas, se isso é mesmo verdade, qual a razão, então, de passarmos por situações tão difíceis? Perdas, desemprego, enfermidades, dificuldades financeiras, abandono? Por que existe a pobreza, a violência, a dor, a morte, enfim, por que sofremos?

Certamente, não existe uma resposta exata a todos esses questionamentos. Muitas vezes, presenciamos pessoas boas e santas tendo suas vidas ceifadas precocemente por conta de uma enfermidade ou uma tragédia. Por que Deus, sendo tão bom, permite tais coisas acontecerem?

Se não há intimidade com Deus, as situações podem levar a nossa fé à inúmeros questionamentos. Entretanto, se cultivamos, cotidianamente, essa relação de amizade com Deus, os acontecimentos se tornam oportunidades de experiência profunda com Seu amor, pois compreendemos que Deus sempre quer nos ensinar algo com tudo quanto vivenciamos em nossa caminhada, afinal: “Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus.” Rom 8,28

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A história de Jó                    

No Antigo Testamento, a história de Jó inicia dizendo o quão rico ele era: “Havia, na terra de Hus, um homem chamado Jó. Era homem íntegro e reto, temente a Deus e mantinha-se afastado do mal. Nasceram-lhe sete filhos e três filhas. Possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas jumentas e uma grande quantidade de escravos. Este homem era o mais rico dentre todos os habitantes do Oriente.” Jo, 1, 1-3. Todavia, certa vez, Deus permitiu a Jó ser provado levando-o a perder todos os bens que possuía…, inclusive, seus dez filhos. Se não bastasse, ele adoece, adquirindo a pior das doenças da época: a lepra. Mesmo assim, manteve-se firme em sua fé! Jó experimentou o amor de Deus em todas essas situações. Tinha consciência de que nada lhe pertencia, tudo foi-lhe dado por Deus. Diante de tamanho sofrimento, reconhece o seu nada e o tudo de Deus em sua vida: “O Senhor deu, o Senhor tirou, bendito seja o nome do Senhor!” Jó 1,21. Após todas as provações pelas quais Jó havia passado, Deus o restabeleceu em seu primeiro estado dando-lhe em dobro de tudo quanto o que antes possuía, e “Jó viveu ainda cento e quarenta e quatro anos e conheceu até a quarta geração dos filhos de seus filhos. Jó 42,16

A história de Jó nos ensina que Deus permite, mas protege. O Senhor propicia situações em nossas vidas, porém, não nos deixa sozinhos. Ele nos ama, ampara e ajuda. Quanto a nós, precisamos, assim como Jó, manter firme a nossa fé e a nossa confiança, na certeza de que tudo provém d’Aquele que governa todas as coisas: o Todo-Poderoso, o Pantokrator, o Rei do Universo, o nosso Pai, com Seu Amor Ciumento e Incondicional, consente  sermos alcançados pelo sofrimento para aprendermos, através da dor, aquilo que Ele quer nos ensinar: nós pertencemos a Ele!

Ele fere para depois nos curar

O amor do Pai por nós é tão grande, tão intenso, tão ciumento que, por conta desse amor, desse zelo e cuidado, Ele nos tira dos nossos apegos e nos faz voltarmos para Ele.  Não raras vezes, os bens, as pessoas, a condição social, o emprego ou até mesmo a coordenação de um serviço eclesial nos afastam de Deus. Diante de tamanho amor, o Senhor retira de nós tudo isso, não porque deseja nos ver no sofrimento ou na dificuldade, e sim, um meio de nos proteger de nós mesmos, a fim de que nenhum dos Seus se perca. Ele retira de mim o emprego que me leva a viver a autossuficiência; a vaidade para que, na humildade, eu possa retornar a Ele e perceber que aquele emprego é dom de Deus. Desse modo, a palavra de Deus cumpre a sua missão: Ele me fere, faz-me passar pela dor do sofrimento, para então me resgatar, levar-me à Sua presença, curar-me e mostrar-me a Sua soberania em minha vida: “pois é Ele quem abre a ferida, mas Ele mesmo a trata; Ele fere, mas com Suas próprias mãos pode curar.” Jó 5,18. Ele retira de mim os bens que eu possuo, educando-me em minha relação com esses bens criados e faz-me perceber que essa relação com as coisas criadas precisa me impelir a dar glória a Deus. Elas têm de me levar a encontrar a Deus e não apenas saciar o meu desejo de ter, de possuir, afastando-me do Criador, ou seja, em todas essas situações o Senhor me protege para que eu não me perca.

Quantas vezes vivenciamos a experiência de Jó em nossas vidas! Deus nos tira tudo: os nossos méritos, as nossas riquezas, nossos apegos, as nossas vaidades, para não nos afastarmos dEle e tenhamos um coração inteiro nEle. Como foi mencionado, o Senhor fere e depois cura o nosso coração para ser livre e ancorado apenas nEle. Depois, então, Ele nos restitui aquilo que perdemos e nos dá muito mais, pois Ele é sempre Bom!

Contemplar a ação de Deus no cotidiano

É preciso aprender a contemplar o Senhor em todas as situações, extraindo de tudo o que vivemos a bondade de Deus. Somente com esse olhar iremos viver os sofrimentos como experiência do amor e do carinho de Deus por nós:

“Contempla o Senhor por trás de cada acontecimento, de cada circunstância, e assim saberás extrair de tudo o que sucede mais amor de Deus, e mais desejos de correspondência, porque Ele nos espera sempre, e nos oferece a possibilidade de cumprirmos continuamente esse propósito”[1]

Quando vivemos as pequenas coisas do dia a dia como oportunidades de encontro com Deus, tudo se revela como expressão do cuidado dEle por nós. Passamos a perceber a pedagogia do Criador revelando-Se  em cada situação, em cada acontecimento, por mais simples ou por mais doloroso que seja; são os meios utilizados por Deus para nos moldar, desvelar-Se e Se derramar em amor; amor que protege, corrige e nos auxilia a dar passos no caminho da maturidade e da santidade.

Se passamos a enxergar as provações dessa maneira, e isso somente é possível quando há intimidade com o Senhor, nosso coração se enche de gratidão a Deus. Essa intimidade com Deus nos faz ter a plena certeza de que as lutas travadas e os sofrimentos pelos quais passamos são manifestações da Bondade de Deus que deseja nos formar e nos atrair a Eleo Soberano de nossas vidas.

Allan Oliveira
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator 

[1] Escrivá de Balaguer, Josemaria. Forja. Ed. Quadrante, 2014. Página 51.

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