É necessária a religião?

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A religião é um ato humano. Somente o ser humano é capaz de atos de religião. A ciência, embora seja um conhecimento de menor valor em relação à filosofia e à teologia, certifica isso, através da arqueologia. Em uma exploração arqueológica, o que define se os restos mortais são de seres humanos ou de primatas é exatamente a presença de vestígios de atos religiosos, sobretudo sinais de sacrifícios em objetos e ossadas nos sítios arqueológicos. Se ali se praticou religião, então se trata de seres humanos.

De fato, em todas as civilizações humanas se tem relatos de atos religiosos, especialmente sacrifícios e cultos. A cultura dos povos sempre foi modelada pela religião. A noção de uma sociedade ateia, cuja cultura se modela à parte da religião, só acontece a partir das ideologias marxistas e laicistas na pós-modernidade. Por isso, uma cultura sem Deus é uma cultura desumana.

religião

O ser humano é religioso porque é autotranscendente, ou seja, ele busca aquilo que está fora de si, especialmente acima de si, o divino que lhe dá origem e significado. Isso só é possível porque o ser humano tem as faculdades da razão e da vontade e com elas é livre, alarga-se para além de si mesmo, busca o outro fora de si, é capaz de amar. Pressupor um ser humano à parte da religião é o mesmo que mutilá-lo, excluindo dele aquilo que mais o faz humano. Não é à toa que a partir do Iluminismo (sécs. XVII e XVIII) surgem as grandes correntes ideológicas (liberalismo, positivismo, marxismo etc), verdadeiras crenças travestidas de irreligião, ou, conforme Russel Kirk, “religiões invertidas”, que a partir de ideias suprarracionais, ou irreais, buscam um ideal supra-humano, que são as utopias.

A religião é justiça e necessidade

A religião é uma virtude, que é secundaria à virtude da justiça, segundo Santo Tomás de Aquino. É justo prestar culto a Deus, que nos criou e nos sustenta. “É o culto que se presta a Deus por um único motivo, a saber, porque Ele é o primeiro princípio da criação e do governo de todas as coisas” (cf. Suma Teológica, q. 81, art. 3º). Por isso a prática da religião é justiça, não por necessidade de Deus, mas por nossa necessidade mesmo. Nós, criaturas dependentes de Deus, é que necessitamos da justiça da religião. Por isso diz a Oração Eucarística II: “Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, sempre e em todo lugar, Senhor, Pai Santo, Deus eterno e todo-poderoso…”

Ainda segundo Santo Tomás, a religião exige práticas internas e práticas externas. As internas são a devoção: “ato da vontade que se oferece a si mesmo para se oferecer a Deus” (S.Th., q 82, art. 1º);  e a oração. As externas, como por exemplo, a adoração, o dízimo e a maior das práticas externas, o sacrifício da Santa Missa. Isso é muito importante porque é comum, especialmente hoje em dia, nos tempos dos espiritualismos, que a religião se torne uma devoção vaga, descompromissada e desencarnada da vida. Isso é tão perigoso e enganoso, porque, em vez de um culto verdadeiro, de latria a Deus, transforma-se Deus em seu próprio ídolo, fazendo-O servir aos próprios interesses e necessidades.

Dentre tantas deformações na vivência da religião, que é um dos espaços mais propícios para extravasamentos de patologias psíquicas, está o fazer da relação com Deus uma eterna petição de coisas e necessidades. Daí facilmente se cai em “teologias da prosperidade”, em que Deus é o grande capitalista com quem faço negócios, tornando a religião uma moeda de troca com o divino…

A verdadeira religião

O amor sincero a Deus e ao próximo é a verdadeira religião (cf. Lc 10,27; Tg 1,27). Por isso nos ensina a Igreja que, na relação com Deus (isso é religião), são necessárias, de forma essencial, as três virtudes: Fé, Esperança e Caridade: Fé para acreditar em Deus, Esperança para buscar a Deus e Caridade para se viver Deus.

A religião é um caminho de amizade com Deus, que me transforma n’Ele mesmo, porém, sem destruir a minha individualidade. Diz São Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). A religião não nos torna anjos, ao contrário, quanto mais amigos formos de Deus, mais humanos seremos. A religião é essa transcendência humana, que liberta o homem de seus limites de pecado e maldade, que o alarga a uma existência divina, que revela ao homem a glória de Deus. Sim, nós precisamos da religião para sermos mais gente, para alcançar o desejo divino do ser humano: a felicidade de Deus.

André Luis Botelho de Andrade
Fundador e Moderador Geral da Comunidade  Pantokrator

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