Educar para o amor

1

Educar para o amor

A maior herança que os pais podem deixar para os filhos é o amor. “Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a sua vida?” (Mc 8, 36) São palavras duras de Jesus e muito atuais! De nada adianta dar conhecimento, dinheiro, boas escolas, faculdades para os filhos se vier a faltar o amor. Sem o amor os nossos filhos sofrerão, pois é feliz aquele que ama. Afinal, o que é amor? Há muitas definições para o amor, inclusive define-se o próprio Deus como amor. Mas, o que é amor? Gostaria de refletir um pouco sobre isso. Se não sabemos e experimentamos o amor, como deixaremos essa preciosa herança para os filhos? Se não amamos, como nossos filhos aprenderão a amar? Como educaremos para o amor?

O amor doação

Há uma palavra que pode nos ajudar na compreensão do que é amor: doação. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá as vida por seus amigos” (Jo 15, 13). Doar-se hoje está totalmente fora de moda, nada é de graça, para tudo há uma taxa, uma cobrança; e acabamos entrando nesse ritmo. Somos uma sociedade que dá somente se há a possibilidade do retorno, do recebimento. Por isso há tão poucos casamentos que dão certo; e é por isso que a taxa de natalidade vem caindo. As pessoas que ficam à nossa volta reivindicam algo de nós que, se não estamos dispostos a dar, permaneceremos sozinhos. Podemos nos tornar uma sociedade de velhos egoístas!

Sugiro a seguinte reflexão para nos localizar como anda o nosso amor: estou disposto a dar a minha vida por minha esposa, meus filhos, meus irmãos? A dar tempo, atenção, carinho, docilidade, a minha própria vontade, o próprio suor do trabalho, expressões do amor? A comida bem feita, a roupa passada, a fralda trocada é doação de tempo, de afeto, que expressa o amor, se são feitas sem murmurações. É assim que os pais aprendem a amar e é assim que os filhos vão aprendendo o amor através dos pais. Há um intercâmbio de amor. Os filhos fazem com que os pais saiam de si e se doem a eles, assim os pais aprendem o que é amor. Os filhos podem levar os pais à maturidade se os pais se abrirem verdadeiramente a essa tão nobre tarefa de educar. Em contrapartida, os filhos aprendem assim a fazer a experiência de doação que os pais praticam continuamente com eles, podendo assim retribuir aos pais, à família, à sociedade o amor que deles receberam. “Plante amor e nascerá amor”.

Aprende-se a andar andando. Aprende-se a amar amando! Os nossos filhos serão educados para o amor se nós, pais, praticarmos o amor que sempre será doação. Não há outra forma de amor se não for doação. Pode-se até tentar achar outras palavras para se definir o amor, mas o verdadeiro amor é aquele que é doação e tudo o que é verdadeiramente doado é desinteressado. Aos olhos do mundo pode parecer tudo muito duro, muito sofrido. Muitas vezes escondemos nosso egoísmo e egocentrismo numa lista de “direitos” próprios que fazemos ao outro e a nós mesmos para vivermos em função deles, sem olhar para os direitos dos outros, principalmente dos nossos filhos, pois eles têm o direito de nos terem, somos deles muito mais do que eles são nossos. Estamos falando até aqui não só de se educar os filhos para o amor, mas também da felicidade dos pais, dos esposos, da pessoa em si, que passa diretamente pelo amor. Repare que quem fecha sua vida em si mesmo, quem não vai ao encontro do outro em suas necessidades é sempre uma pessoa infeliz e pode encontrar-se solitário, pois acaba exigindo do outro aquilo que ele mesmo não dá. Essa pessoa pode até ter dinheiro, fazer viagens e satisfazer todos os seus sonhos, mas a verdadeira felicidade ainda será um sonho não satisfeito.Certamente você deve conhecer pessoas assim. “Quem quiser ganhar a sua vida irá perdê-la e quem gastar a sua vida por causa de mim irá ganha-la” (Lc 9, 24).

As pessoas felizes são aquelas que não olham para si, mas ficam focadas no outro, atentas às necessidades dos outros. Quem se preocupa apenas consigo enterra o talento e está condenado à tristeza. Quem ama seus males espanta! Quem ama verdadeiramente não tem tempo para se preocupar consigo mesmo.

Descomplicar o amor

Antes de ser um sentimento, o amor é uma decisão. O amor é muito prático e descomplicado. É muito fácil o discernimento para se saber se está amando ou não. Basta fazer a seguinte pergunta para qualquer situação: Estou disposto a me gastar por essa pessoa ou vivo uma relação de favores? Estou disposto a acolhê-la como ela é, independente de seus problemas, ou só a acolho quando ela corresponde ao ideal que criei dela para mim? É isso o amor na família, na sociedade, amor que passa pela doação de si, sem esperar do outro, preenchendo-nos do único e verdadeiro amor que é perfeito e que pode saciar toda nossa sede: o amor de Deus. Dizia São Francisco de Assis: “há mais alegria em dar do que receber!”

“A boca fala do que o coração está cheio” (Lc 6, 45). Falamos e agimos diante dos nossos filhos em função daquilo que enche o nosso coração. Assim, se minhas atitudes são interesseiras, meus filhos terão atitudes egoístas e não poderei ficar exigindo deles atitudes generosas. Se procuro levar vantagem em tudo, meus filhos assim irão agir, mesmo que falemos o contrário para eles! É uma ilusão pensar que podemos fazer com que nossos filhos aprendam a amar se não amamos, sejam os mais virtuosos, se nos concedemos vícios e justificamos nossos pecados!

Um bom começo para os pais, na prática do amor pelos filhos é terem as consciências de que são imperfeitos. Deverá haver uma boa disposição em recomeçar sempre. Somos imperfeitos e, quando reconhecemos a nossa imperfeição junto aos filhos, abrimos as portas do diálogo, do acolhimento e do perdão. Faça a experiência de pedir perdão para o seu filho quando você errar. Será uma grande surpresa notar que seu filho também lhe pedirá perdão e o acolherá. Que linda experiência de amor! Isso o ajudará também a ser pequeno e humilde. A sua pequenez certamente será semeada no coração de seu filho e no tempo certo ele colherá os frutos dessa virtude.

O amor entre os cônjuges

O amor doado aos filhos é fruto do intenso amor entre os cônjuges. Um casal que vive a dimensão da doação transborda essa mesma graça para os filhos. Constantemente os pais acreditam que o alvo primeiro do amor são os filhos: dá-se toda atenção para os filhos, todo tempo, toda doação e se esquece do cônjuge. Isso é um desequilíbrio. Na verdade, os filhos se alimentam do amor entre os pais. Sim, pois essa educação para o amor se dá essencialmente na família; ali deverão ser passados os valores verdadeiramente cristãos. Não adianta viver de qualquer maneira, no instinto do momento, e delegar essa função, muitas vezes trabalhosa, para a escola ou até mesmo para a própria sociedade. Isso é função primeira dos pais! Não está inclusa em nenhuma mensalidade escolar, nem num salário de babá! Não há maior alegria ao filho do que ver seus pais se amando de maneira intensa e desinteressada.

Quer ver seu filho feliz, quer ter um lar equilibrado e sadio? Então, ame seu cônjuge! Ame seu marido com amor próprio de mulher, e sua esposa com amor próprio de homem, assumindo cada um sua identidade e responsabilidade própria na família e na educação dos filhos, sem inversão ou confusão de papéis. Não perca tempo, trabalhe, pois há uma graça específica que faz com que seu casamento dê muitos frutos, e são frutos grandes, suculentos, que todos poderão saborear e se deliciar!

Lauro e Rosana Vitachi
Consagrados na Comunidade Católica Pantokrator

1 COMENTÁRIO

Deixe uma resposta

Por favor, insira seu comentário!
Por favor, insira seu nome aqui.

19 − 3 =