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Entrevista com D. Georg Gänswein: “Minha vida dividida entre dois papas”

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Fonte: Blog Carmadélio 

Ele faz um trabalho sem precedentes: ocupar-se de dois papas ao mesmo tempo, Francisco e Joseph Ratzinger, não é algo que acontece todos os dias. Dom Georg Ganswein, ex-secretário particular de Bento XVI e agora prefeito da Casa Pontifícia, é o homem-ponte, a memória histórica dos dias da renúncia, a conexão entre o velho e o novo.

Georg Gänswein, ex-secretário particular de Bento XVI e agora prefeito da Casa Pontifícia.
Georg Gänswein, ex-secretário particular de Bento XVI e agora prefeito da Casa Pontifícia.

Sobre a batina preta, “Don Giorgio”, como o chamam na Cúria, veste uma cruz simples de prata (“é a do Ano da Fé com o brasão de Bento XVI atrás”), em conformidade com o imperativo que abriu caminho do outro lado do Tibre, sob a insígnia da sobriedade.

Eis a entrevista.

É muito complicado trabalhar para dois papas?

Digamos que é um belo desafio, independentemente da quantidade de coisas para se fazer. De vez em quando eu gostaria de pedir conselhos ao meu antecessor, mas não é possível, porque ninguém antes de mim teve essa dupla tarefa. No entanto, com o bom senso, eu faço o meu melhor. Coloco em prática as palavras do Papa Francisco: nunca se fechar em si mesmo e não ter medo. Por isso, todos os dias eu percorro um caminho sereno. Antes, a atenção era toda para Bento XVI, agora obviamente é para Francisco. Mas, no fim, o serviço é feito para o Senhor e para a Igreja.

No Vaticano, não há o risco de ter um papa e um antipapa?

Nem um pouco. Há um papa reinante e um papa emérito. Quem conhece Bento XVI sabe que esse perigo não existe. Ele nunca se intrometeu e não se intromete no governo da Igreja, não faz parte do seu estilo. O teólogo Ratzinger, além disso, sabe que cada palavra pública sua poderia atrair a atenção, e qualquer coisa que ele dissesse seria lida ou a favor ou contra o seu sucessor. Portanto, publicamente, ele não intervirá. Entre ele e Francisco há uma relação de sincera estima e de afeto fraterno.

Como vive Ratzinger  no convento na colina vaticana?

Ele está bem, reza, lê, ouve música, dedica-se à correspondência, que é muita, e também há visitas. Todos os dias, fazemos um passeio juntos pelo pequeno bosque atrás do mosteiro, rezando o rosário. O dia é bem programado.

A sua renúncia foi uma surpresa para o senhor?

Não totalmente. Eu conhecia há muito tempo a sua decisão, mas nunca falei disso com ninguém. O momento do anúncio, no dia 11 de fevereiro, permanece indelével. Depois do dia 28 de fevereiro, começaram dias difíceis quando partimos do Vaticano. Eu nunca vou me esquecer de quando desliguei as luzes do apartamento pontifício com lágrimas nos olhos. Depois, a corrida de carro até o heliporto, o voo a Castel Gandolfo, a chegada, a última saudação de Bento XVI na sacada. Finalmente, o fechamento do portão do palácio. Todo o mês de março foi duro, até porque ninguém sabia quem seria eleito no conclave. Felizmente, com o novo papa, criou-se imediatamente uma relação humana de afeto e de estima, embora Bento XVI e Francisco sejam pessoas com estilos e personalidades diferentes. Alguns quiseram interpretar tais diferenças de modo antitético. Mas não é assim.

Em que consiste a Igreja pobre de Francisco?

Estou tentando entender cada vez mais o que significa. Uma coisa me parece clara: a expressão “Igreja pobre” tornou-se um fio condutor no ministério petrino do Papa Bergoglio. Mas, em primeiro lugar, não é uma expressão sociológica, mas sim teológica. No centro está o Cristo pobre, e a partir daí tudo segue. Sem dúvida, isso toca o estilo de vida de cada cristão, requer uma atenção particular aos sofredores, aos doentes e aos pobres em sentido estrito. Se olharmos ao passado, perceberemos que o Papa Francisco está realizando em Roma aquilo ele havia feito anteriormente em Buenos Aires. Não mudou a sua linha nem o seu estilo. No máximo, o ponto é outro.

Qual?

Que, com o seu exemplo, ele oferece a todos um precioso testemunho. O exemplo pessoal é um método pastoral.

E a “revolução” em curso?

Falar de revolução me parece um slogan fácil que alguns meios de comunicação utilizam de bom grado. Certamente, alguns gestos e iniciativas do Papa Francisco surpreenderam e ainda surpreendem. Mas é normal que uma mudança de pontificado traga consigo mudanças em diversos níveis. O novo pontífice, necessariamente, deve montar uma equipe com pessoas da sua confiança. Mas isso não é uma revolução, é simplesmente um ato de governo e de responsabilidade.

Enquanto isso, os oito cardeais estão estudando as reformas…

Certamente, a instituição desse grupo foi uma grande surpresa, uma de muitas. Mas, na verdade, isso faz parte das tarefas próprias dos cardeais que são os primeiros conselheiros do pontífice. Os cardeais se encontraram uma primeira vez no início deste mês, e outros encontros seguirão. Eu acho que é exagerado querer prever já agora resultados definitivos. Isso leva tempo. Antes do resultado, há a fase da reflexão, da discussão, do aprofundamento. Confesso que estou curioso para ver o que vai vir à tona.

A racionalização também incluirá cortes de pessoal?

Talvez devêssemos esclarecer os termos. O que se entende quando se fala de racionalização? É óbvio que a Santa Sé tem responsabilidade para com todos aqueles que trabalham nos diversos dicastérios. Racionalizar é uma palavra que requer uma explicação, caso contrário permanece sem sentido. Eu acrescento que, se compararmos, por exemplo, os nossos membros orgânicos aos das dioceses alemãs, estes últimos são menos expressivos.

A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada no jornal Il Messaggero

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